Presente na rotina de diversas gerações de famílias, o fortificante Biotônico Fontoura possuía um índice expressivo de álcool em sua composição original, fato desconhecido por grande parte das pessoas que tomaram o produto na infância. Durante décadas, a bebida tradicional nas residências do país registrou 9,5% de teor alcoólico em cada frasco comercializado.
A concentração alcoólica da receita equivalia à média de um vinho espumante e representava o dobro do volume encontrado em uma cerveja comum. Esse ingrediente na fórmula motivou a intervenção do governo federal em 2001, há 25 anos, quando uma norma vetou a adição de álcool em estimuladores de apetite, tônicos e fortificantes vendidos nas farmácias.
Cândido Fontoura desenvolveu a mistura com vinho em 1910
A criação do produto ocorreu no ano de 1910, em uma cidade do interior de São Paulo. Na ocasião, o farmacêutico Cândido Fontoura buscava uma alternativa caseira e eficaz para tratar a própria esposa, que sofria com episódios frequentes de cansaço e fraqueza constante no dia a dia.
Para atender a essa demanda familiar, a primeira receita combinava fosfatos, sais de ferro e vinho em uma mesma solução líquida. Dessa mistura inicial nasceu a frase publicitária “ferro para o sangue e fósforo para os músculos e nervos”, utilizada para resumir a ação prometida pelo composto no organismo.
O objetivo principal do medicamento consistia em devolver a disposição física e combater a fraqueza generalizada da população. Naquele início de século, quadros de verminoses e de anemia figuravam como problemas recorrentes de saúde pública, o que explica a rápida adoção do tônico pelas famílias que buscavam tratamento para esses sintomas.
Parceria com Monteiro Lobato deu origem ao Jeca Tatuzinho
A expansão comercial do fortificante ganhou força a partir de um acordo firmado diretamente com o escritor Monteiro Lobato. O farmacêutico Cândido Fontoura comprou os direitos de uso do personagem literário Jeca Tatu e o adaptou sob o nome de Jeca Tatuzinho, que passou a atuar como o rosto oficial das campanhas da marca.
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A divulgação ocorria por meio de revistas em quadrinhos entregues sem custo aos leitores em diferentes regiões. Nas páginas ilustradas, o Jeca Tatuzinho aparecia inicialmente debilitado e doente por causa de vermes, mas recobrava a disposição para o trabalho depois de concluir o tratamento e utilizar o Biotônico Fontoura como restaurador do vigor físico.
Tiragem de 100 milhões de exemplares do Almanaque Fontoura em 1982
Essa comunicação direta com o público consolidou o Almanaque Fontoura, revista impressa anualmente que reunia passatempos, textos informativos e quadrinhos. No auge da circulação, registrado em 1982, a publicação atingiu a marca histórica de 100 milhões de exemplares distribuídos gratuitamente pelo país. O conteúdo editorial do impresso dividia-se em quatro frentes principais para atrair leitores de várias idades:
- Seções de piadas e passatempos voltados ao entretenimento doméstico.
- Previsões astrológicas acompanhadas do horóscopo do período.
- Orientações práticas sobre cuidados básicos de saúde e bem-estar.
- Histórias ilustradas com a rotina e a recuperação do personagem Jeca Tatuzinho.
Outro marco da divulgação do produto aconteceu antes disso, em 1978, com a estreia da música publicitária “bê a bá, bê é bé, bê i Bi… otônico Fontoura” nos meios de comunicação. A canção de fácil memorização popularizou a soletração do nome do fortificante e fixou o produto no cotidiano de adultos e crianças da época.
Proibição federal do etanol em tônicos no ano de 2001
A permanência da receita original entrou em revisão quando órgãos de vigilância sanitária passaram a questionar os efeitos da substância no público infantil. As autoridades de saúde classificaram como imprópria a manutenção de quase 10% de teor alcoólico em um composto consumido majoritariamente por crianças para abrir o apetite.
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Com base nesse entendimento técnico, a regulamentação federal de 2001 determinou a retirada obrigatória do etanol de toda a categoria de tônicos e fortificantes. A exigência legal impediu a continuidade da receita de 1910 e obrigou a fabricante a alterar os componentes do produto para manter o registro de venda.
Reformulação garantiu a permanência do produto nas farmácias
Para cumprir a determinação sanitária, a equipe técnica responsável pelo Biotônico Fontoura desenvolveu uma nova composição química a partir daquele ano. O processo de adaptação preservou a finalidade de estimular o apetite e fornecer suplementação mineral, mas eliminou por completo a base alcoólica derivada da mistura original.
O produto permanece em comercialização regular nas redes de farmácias em 24 de outubro de 2026 com a fórmula isenta de álcool. A adequação às normas de segurança sanitária permitiu a continuidade da venda do fortificante para o público infantil mais de um século após a sua criação no interior paulista.
