Mais da metade dos pacientes com câncer de mama em homens no Brasil descobre a doença quando o quadro já é considerado grave, segundo alerta divulgado por entidades médicas e especialistas nesta sexta-feira (23). Embora os tumores mamários no público masculino sejam raros no país, o desconhecimento e o preconceito fazem com que 62,29% dos diagnósticos com estadiamento registrado ocorram nos estágios III e IV, fases avançadas que reduzem as chances de cura.
“O grande desafio é que muitos homens demoram a procurar atendimento, seja por desconhecimento, seja por vergonha. Com isso, não é raro que a doença seja descoberta em estágios mais avançados”, afirmou Cristiano Resende, oncologista da Oncoclínicas, em orientação publicada em 23 de outubro de 2026.
Os homens podem desenvolver a enfermidade porque também possuem tecido e ductos mamários localizados atrás da aréola, a área mais escura ao redor do bico do peito. Mesmo menores e menos desenvolvidas do que no corpo feminino, essas estruturas estão presentes no organismo masculino e podem originar um tumor maligno.
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Estatísticas do câncer de mama em homens segundo o INCA e a SBRT
Um levantamento divulgado em outubro de 2026 pela Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), elaborado com base nos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) do Instituto Nacional de Câncer (INCA) e do Ministério da Saúde, detalha o impacto da demora por assistência médica no país. Os números oficiais da apuração reúnem os seguintes indicadores sobre a doença na população masculina:
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- Proporção sobre o total da doença no Brasil: cerca de 1% de todos os casos de câncer de mama registrados no país ocorrem em homens.
- Volume de casos mapeados: 2.126 registros de câncer de mama masculino contabilizados entre 2020 e 2023, dentro de um universo superior a 163 mil diagnósticos totais da enfermidade.
- Diagnóstico com metástase: 29,95% dos pacientes masculinos receberam a confirmação já no estágio IV, quando o tumor se espalhou para outras partes do corpo, índice superior aos 26,42% observados entre as mulheres no mesmo período.
- Faixa etária de maior incidência: a doença torna-se mais comum a partir dos 60 anos de idade.
- Taxa de sobrevida relativa em cinco anos: supera 80% ao considerar todos os estágios combinados, mas pode passar de 95% quando o tumor é identificado ainda restrito à mama.
Fatores de risco e histórico dos registros de câncer de mama em homens
A análise histórica dos dados hospitalares do INCA referentes ao período de 2020 a 2023 demonstra que a percepção social do tumor mamário como uma condição exclusiva das mulheres afasta o público masculino dos consultórios. Muitos pacientes sequer cogitam a possibilidade de desenvolver a neoplasia ao notarem alterações no peito e relatam constrangimento em salas de espera de clínicas de imagem, ocupadas quase integralmente por mulheres, além de evitarem comentar o diagnóstico com conhecidos.
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Além do envelhecimento natural, a ciência médica identifica condições clínicas e hereditárias que elevam a probabilidade de surgimento do tumor na população masculina. O histórico familiar de câncer de mama ou de ovário e a presença de mutações genéticas herdadas, especialmente no gene BRCA2 (gene ligado à reparação do DNA celular), aumentam de forma expressiva o risco de adoecimento. “Além disso, condições que provocam alterações hormonais, como a síndrome de Klinefelter, obesidade e algumas doenças do fígado também podem aumentar o risco”, disse Cristiano Resende, citando a síndrome de Klinefelter, uma condição genética rara em que o homem nasce com um cromossomo X extra.
A ausência de casos na família ou de distúrbios prévios, contudo, não elimina a necessidade de observação corporal. “Muitos homens diagnosticados não apresentam nenhum fator de risco conhecido”, declarou o oncologista.
Quais são os sintomas do câncer de mama em homens e quando procurar atendimento?
Diferentemente do que ocorre com a população feminina, não existe recomendação médica ou governamental para a realização de exames de rastreamento de rotina, como a mamografia periódica, para todos os homens. A orientação central dos órgãos de saúde é que o público masculino conheça o próprio corpo e busque avaliação médica diante de qualquer anormalidade persistente na região peitoral.
“A presença de caroços, alterações no mamilo ou secreção, especialmente com sangue, deve ser investigada”, afirmou Denise Ferreira, rádio-oncologista e diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Radioterapia. Cristiano Resende também detalhou as manifestações clínicas que exigem consulta médica: “Outros sinais importantes são alterações no formato ou na aparência do mamilo, retração, saída de secreção, principalmente quando contém sangue, feridas que não cicatrizam e mudanças na pele da mama”.
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De acordo com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Câncer de Mama do Ministério da Saúde e com os especialistas ouvidos, os sinais de alerta e critérios de encaminhamento na rede de atendimento incluem:
- Manifestação física inicial mais frequente: surgimento de um nódulo (caroço) na mama, localizado geralmente próximo ao mamilo e na maioria das vezes indolor, característica que leva muitos pacientes a adiarem a ida ao médico.
- Critério oficial de referência urgente no serviço de saúde: homens com mais de 50 anos que apresentem tumoração palpável em um dos lados do peito (unilateral) ou quadros de saída de líquido com sangue pelo mamilo (descarga papilar sanguinolenta unilateral).
- Diferenciação de quadros benignos: nem todo caroço mamário masculino é câncer, podendo tratar-se de ginecomastia, que é o crescimento benigno do tecido mamário nos homens, mas o diagnóstico diferencial exige exame médico.
Exames de confirmação e opções de tratamento para o tumor masculino
A investigação clínica começa no consultório com o exame físico das mamas e o levantamento do histórico pessoal e familiar do paciente. Quando há suspeita, o médico solicita exames de imagem, como a mamografia e a ultrassonografia, e realiza a biópsia, procedimento que retira um pequeno fragmento da lesão para análise em laboratório com o objetivo de confirmar a malignidade e definir a estratégia terapêutica.
O tratamento nos homens segue diretrizes semelhantes às aplicadas nas mulheres, mas apresenta particularidades cirúrgicas decorrentes da anatomia masculina. Como o volume de tecido mamário no homem é pequeno e os tumores costumam crescer logo atrás do mamilo, geralmente não é viável realizar cirurgias conservadoras, aquelas que retiram apenas uma parte da glândula. Na maioria dos pacientes masculinos, a indicação cirúrgica padrão é a mastectomia total, procedimento que remove toda a mama junto com a aréola e o mamilo.
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Dependendo do estágio e das características biológicas da lesão, o plano terapêutico pode associar radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia e terapias-alvo. “Uma característica importante é que a maioria dos tumores de mama nos homens apresenta receptores hormonais positivos. Isso significa que muitos pacientes podem se beneficiar de medicamentos que bloqueiam a ação dos hormônios sobre as células tumorais. Nos últimos anos, tivemos avanços importantes no tratamento do câncer de mama, inclusive com terapias direcionadas a alterações genéticas específicas”, explicou Resende.
Sobre as formas de reduzir a exposição à doença no dia a dia, o médico pontuou o papel dos hábitos cotidianos e os limites da prevenção primária. “Manter o peso adequado, praticar atividades físicas regularmente e evitar o consumo excessivo de álcool são medidas que podem contribuir para reduzir o risco. Entretanto, é importante esclarecer que nem todos os casos podem ser prevenidos, especialmente quando existe uma predisposição genética”, disse. O especialista reforçou a necessidade de superar o estigma no cuidado masculino: “O câncer de mama é raro nos homens, mas não pode ser ignorado. Informação, atenção aos sinais do corpo e diagnóstico precoce podem salvar vidas. E cuidar da própria saúde nunca deve ser motivo de vergonha”.
