Descargas elétricas causam 14 mortes até agosto de 2026 e Inpe projeta alta com aquecimento global

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Tempestade, raios - Judson Castro / Shutterstock.com Foto: Tempestade, raios - Judson Castro / Shutterstock.com

O monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabiliza uma média de 100 milhões a 150 milhões de descargas elétricas por ano no território nacional. Esse volume anual posiciona o país entre as três nações com maior incidência do fenômeno em todo o planeta, ao lado dos Estados Unidos e da República Democrática do Congo. A localização geográfica na faixa tropical da Terra e a dimensão territorial continental explicam a frequência elevada dessas ocorrências atmosféricas.

Apenas ao longo de um ano recente de medição, a rede de monitoramento registrou 141 milhões de eventos luminosos desse tipo em solo nacional. De acordo com o pesquisador do Inpe Kleber Naccarato, o avanço nas contagens acompanha a elevação das médias térmicas mundiais. “A Terra já aqueceu quase 1,5°C nos últimos 100 anos. Então, quanto mais quente estiver o ambiente, maior a chance de formar tempestades e, assim, aumentar a atividade de raios”, explicou o especialista.

Balanço de atendimentos no SUS e estimativas climáticas do Inpe

Os impactos diretos dessas tempestades sobre a população aparecem nos registros hospitalares e nas projeções de longo prazo elaboradas pelos centros de pesquisa. Os levantamentos oficiais reúnem a dimensão atual do problema na rede pública de atendimento e o risco calculado para as próximas décadas:

  • Atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) até agosto de 2026: 14 óbitos confirmados e 63 internações ou socorros hospitalares em unidades públicas.
  • Estimativa para o ano 2100: volume superior a 200 milhões de descargas anuais caso o ritmo de aquecimento planetário persista.
  • Risco estatístico individual: a probabilidade de uma pessoa ser atingida diretamente por uma descarga é de uma em um milhão.

Relação entre o aumento de 1°C na temperatura e a formação de tempestades

A física por trás do fenômeno depende da combinação constante entre umidade elevada e calor intenso, cenário que acelera a criação de nuvens pesadas em diferentes regiões. No interior dessas formações, o choque contínuo entre partículas de gelo provoca a separação das cargas elétricas até o momento em que a diferença de potencial vence a resistência do ar, gerando o clarão acompanhado pelo trovão. Os cálculos científicos indicam que cada 1°C adicional na temperatura média terrestre tem potencial para elevar a incidência de raios entre 15% e 40%, base que sustenta a projeção de ultrapassar 200 milhões de registros anuais até o encerramento do século.

Fatores locais ligados à ocupação humana no solo somam-se às alterações do clima mundial e agravam a severidade dos temporais. O avanço do desmatamento florestal, a emissão de poluentes atmosféricos e o crescimento urbano desordenado alteram o regime dos ventos e intensificam o efeito das ilhas de calor nas metrópoles. Essa dinâmica amplia a ocorrência de problemas associados às descargas, incluindo quedas severas no abastecimento de energia elétrica, focos de incêndio espontâneo na vegetação nativa do Cerrado e deslizamentos de encostas causados pela fragmentação de rochas atingidas pelos raios.

Perfil das 2.194 mortes mapeadas em duas décadas de estudo

O Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe realizou um diagnóstico detalhado sobre a letalidade desse fenômeno e confirmou 2.194 óbitos provocados por descargas elétricas no país no intervalo entre os anos de 2000 e 2019. Os dados demográficos do estudo revelam que a população masculina concentrou 82% das mortes, enquanto o recorte por idade mostra que jovens adultos de 20 a 29 anos representaram 24% do total de vítimas fatais. A divisão por estações do ano comprova a influência do calor e da umidade: o verão respondeu por 43% das mortes e a primavera somou outros 33% dos casos fatais.

Tempestade, nuvens carregadas
Tempestade, nuvens carregadas – Mantas Zilicius/ istockphoto.com

O mapeamento do Inpe também identificou os ambientes exatos em que as pessoas se encontravam no momento do impacto letal durante o período analisado:

  • Áreas rurais: 26% das mortes confirmadas, com forte concentração em trabalhadores de atividades agropecuárias.
  • Interior de residências: 21% dos casos fatais, provocados por correntes elétricas conduzidas através de tubulações hidráulicas ou redes de fiação.
  • Proximidade de recursos hídricos: 9% dos óbitos, englobando pescarias, calçadões e faixas de areia no litoral.
  • Abrigo sob árvores: 9% do total de mortes contabilizadas pelo levantamento nacional.

Registros de acidentes fatais e sobreviventes em diferentes estados

O histórico de ocorrências graves no país inclui episódios em áreas de lazer e centros esportivos ao longo das últimas décadas. Em 28 de fevereiro de 1996, na cidade de São Paulo, o preparador físico Altair Ramos foi atingido durante um treinamento de futebol e sobreviveu ao impacto. No ano seguinte, em 1 de dezembro de 1997, uma descarga elétrica na praia de Garopaba causou a morte de Cristian Duran e de Aparecida Edileusa, deixando ainda Gisely Bolanho gravemente ferida.

Um episódio letal no litoral catarinense somou-se às estatísticas oficiais do Ministério da Saúde, que contabilizaram 14 mortes e 63 atendimentos na rede pública até agosto de 2026. Em 28 de agosto de 2026, a turista gaúcha Edinara Gonçalves Areze, de 39 anos, sofreu uma descarga elétrica enquanto estava na Praia da Pinheira, localizada no município de Palhoça. Ela recebeu socorro de emergência e foi levada ao Hospital Regional de São José, mas teve o óbito confirmado pela equipe médica em 29 de agosto de 2026.

Orientações da USP e da UFRJ para proteção durante temporais

Diante da velocidade com que as nuvens carregadas se formam, a meteorologista e professora da Universidade de São Paulo (USP) Rachel Albrecht alerta que a busca por refúgio deve ocorrer ao primeiro sinal sonoro na atmosfera. “Se você escutou um trovão e está em um lugar aberto, você já está exposto”, declarou a docente. A especialista acrescentou que a prevenção exige atenção imediata dos cidadãos: “Reduzir o risco também passa por uma mudança de comportamento. As pessoas precisam entender que, se uma tempestade está se aproximando, o mais seguro é procurar abrigo o quanto antes”.

O meteorologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fabio Hochleitner reforça que a segurança depende exclusivamente do isolamento físico das pessoas em relação às áreas abertas. “Não há como domar a natureza, por isso não existe uma forma de reduzir a quantidade de raios. Por isso, a principal orientação é diminuir a exposição a eles, seja direta ou até mesmo indiretamente”, afirmou o pesquisador. Os especialistas advertem que estruturas abertas como quiosques, tendas de praia e copas de árvores não oferecem barreira contra a eletricidade, sendo seguro permanecer apenas no interior de construções de alvenaria ou dentro de automóveis metálicos com as portas e janelas fechadas.

O balanço de socorros médicos por acidentes com raios em 2026 foi fornecido de forma direta pelo Ministério da Saúde e aguarda o encerramento do processo de consolidação para abertura em painel público de consulta.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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