O terceiro visitante interestelar já registrado pela astronomia carrega na nuvem ao redor do núcleo minúsculos agregados de gelo de água e poeira com cerca de 1 mícron ou menos de diâmetro. A descoberta sobre o cometa 3I/Atlas consta em um estudo conduzido pelo Southwest Research Institute (SwRI), centro de pesquisa sediado nos Estados Unidos, divulgado nesta segunda-feira (26) na publicação científica The Astrophysical Journal Letters. Os dados coletados pelo telescópio espacial James Webb mostram que essas partículas diferem das encontradas na maioria dos cometas conhecidos, mas se assemelham ao material de corpos gelados localizados depois da órbita de Netuno.
Para chegar a esse resultado, os cientistas acionaram o espectrógrafo de infravermelho próximo do James Webb, equipamento que decompõe a luz para revelar o estado físico e químico da matéria, em três momentos distintos entre agosto de 2025 e abril de 2026. Pesquisadora do SwRI e autora principal do artigo, Silvia Protopapa afirmou, em tradução livre, que “os cometas interestelares são pequenos corpos gelados que se formaram nos discos de gás e poeira ao redor de outras estrelas e agora estão passando pelo nosso sistema solar”. A especialista acrescentou que, conforme o objeto aquece, o gás liberado do interior arrasta grãos de gelo e poeira para a coma, e “esses grãos guardam pistas sobre as condições onde o cometa nasceu”.
Outro levantamento publicado na revista científica Nature, que combinou leituras do James Webb e do observatório Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (Alma), examinou os isótopos de carbono e o enriquecimento de deutério na água do viajante espacial. Os números indicam que o corpo celeste se formou em uma região fria e pobre em metais pesados, com uma idade estimada entre 10 bilhões e 12 bilhões de anos. A composição da superfície inclui grande concentração de gelo de dióxido de carbono (CO₂), monóxido de carbono e uma parcela de vapor d’água inferior à dos cometas originados na vizinhança solar.
Identificação no Chile e velocidade na rota hiperbólica
A localização do astro ocorreu em 1º de julho de 2025 durante o monitoramento de rotina do sistema Atlas, rede de telescópios de alerta operada no deserto do Atacama, no Chile. Os cálculos iniciais de trajetória já apontavam um caminho hiperbólico, ou seja, uma órbita aberta que não fica presa à gravidade do Sol. Poucos dias após o primeiro registro, equipes de diversos países validaram a natureza interestelar ao comprovar que o deslocamento ultrapassava os 30 km/s, superando a velocidade de escape solar.
A travessia ocorreu sem qualquer risco de colisão com a Terra, uma vez que a distância mínima em relação ao planeta foi de 270 milhões de quilômetros. No periélio, ponto da rota mais próximo do Sol, o visitante passou a 210 milhões de quilômetros da estrela. Depois de contornar a região central e cruzar a órbita de Marte em dezembro de 2025, o objeto ganhou impulso gravitacional para deixar a zona de influência solar a mais de 40 km/s rumo ao espaço profundo, encerrando a janela de visualização por telescópios ópticos em meados de 2026.
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Núcleo de 1 quilômetro e monitoramento em 20 países
A partir da intensidade da luz refletida, os astrônomos calcularam que o centro sólido do 3I/Atlas mede aproximadamente 1 quilômetro de diâmetro. A predominância de dióxido de carbono congelado na camada externa aponta para uma gestação sob temperaturas abaixo de -100°C, em áreas distantes da estrela de origem. O acompanhamento diário mobilizou mais de 50 instituições de pesquisa em 20 países, unindo observatórios terrestres na Espanha e no Havaí às leituras espaciais em infravermelho para alimentar modelos sobre a evolução química de discos protoplanetários, as nuvens que dão origem a planetas.
Contraste químico com os visitantes 1I/Oumuamua e 2I/Borisov
As medições de alta resolução mostram que o terceiro objeto vindo de fora do Sistema Solar tem emissões moleculares particulares e carece da poeira fina comum nos cometas locais, além de se diferenciar dos dois antecessores catalogados pela ciência:
- 1I/Oumuamua: primeiro corpo interestelar descoberto, não exibiu atividade cometária detectável, enquanto o 3I/Atlas desenvolveu uma cauda ativa de gás.
- 2I/Borisov: segundo visitante registrado, apresentou uma proporção de dióxido de carbono (CO₂) menor do que a medida na superfície do 3I/Atlas.
- Ritmo de sublimação: a conversão direta do gelo em gás no 3I/Atlas subiu 20% a cada milhão de quilômetros de aproximação ao Sol, com pico de brilho estimado na magnitude 10 da escala astronômica.
Apesar do volume de dados obtidos, os pesquisadores destacam que o levantamento não permite apontar a estrela exata onde o 3I/Atlas nasceu. Com apenas três exemplares interestelares confirmados até o momento, a ciência aguarda a detecção de novos objetos em trânsito para definir se essa química rica em dióxido de carbono é uma exceção ou um padrão entre os sistemas planetários da galáxia.
