Lula enfrenta maioria de oposição no Congresso a partir de 2027

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A composição da Câmara a partir de fevereiro do ano que vem Foto: A composição da Câmara a partir de fevereiro do ano que vem

Reeleito para o quarto mandato como presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentará um Congresso Nacional com maioria de oposição a partir de fevereiro de 2027. Cientistas políticos avaliam que a nova correlação de forças no Legislativo dará aos adversários do governo o controle da pauta e votos suficientes para derrubar eventuais vetos presidenciais.

A confirmação do novo mandato ocorreu no domingo (25), quando o candidato petista derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da disputa presidencial. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro havia registrado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O resultado final consolidou a primeira vez em que o segundo colocado na etapa inicial reverteu a vantagem do adversário na votação decisiva para a Presidência da República.

Lula - Alexandre Schneider/Getty Images
Foto: Lula – Alexandre Schneider/Getty Images

Para a professora Mariana Chaise, do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o desenho saído das urnas impõe limites diretos à articulação do Palácio do Planalto. “A oposição vai ter o controle da pauta do Legislativo e tem voto suficiente para derrubar eventuais vetos dados pelo presidente eleito”, afirmou a pesquisadora. O cientista político Antônio Flávio Testa avalia que Lula precisará assumir compromissos com um Congresso “em tese resistente às suas posições” para viabilizar o cumprimento das promessas feitas durante a campanha eleitoral.

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Avanço do PL e fragmentação das bancadas no Congresso Nacional

A principal força de oposição na próxima legislatura será o Partido Liberal (PL), legenda que conquistou as maiores bancadas tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Na Câmara, que possui um total de 513 cadeiras, o PL elegeu 121 deputados federais em 2026, ampliando o espaço que ocupava desde as eleições de 2022. Do lado governista, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, garantiu a segunda maior bancada da Casa, somando 88 parlamentares eleitos, dos quais 70 pertencem ao PT, 11 ao PCdoB e 7 ao PV. Somados todos os partidos que integraram a aliança de Lula no primeiro turno — PT, PSB, PDT, PSOL, Rede, PV e PCdoB —, o bloco governista reúne cerca de 124 deputados. O pleito de 2026 também registrou um índice de renovação baixo, com o percentual de deputados federais reeleitos atingindo 60,62%, a maior taxa de recondução desde a redemocratização do país.

Disputa pelo comando da Câmara e do Senado em fevereiro de 2027

O primeiro teste da relação entre o Executivo e o novo parlamento ocorrerá em 1º de fevereiro de 2027, data de início da nova legislatura e da eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. O cientista político Ismael Almeida aponta que a definição das Mesas Diretoras é decisiva para o andamento dos projetos do governo. “Esses cargos são estratégicos, porque influenciam diretamente quais matérias avançam, quais ficam paradas e como será conduzida a relação entre os Poderes”, declarou Almeida. Segundo ele, “se a oposição conseguir uma maioria para eleger os dois presidentes, Lula poderá enfrentar dificuldades ainda maiores para aprovar a sua agenda.”

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Os atuais presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), articulam suas candidaturas à reeleição no comando das respectivas Casas. No Senado, que conta com 81 cadeiras no total, o senador Rogério Marinho (PL-RN) é cotado pela oposição para disputar a presidência. Após a confirmação do resultado das urnas, Hugo Motta parabenizou Lula e defendeu o diálogo institucional. “Temos um Brasil dividido e radicalizado e, com a vitória de hoje, o presidente Lula tem uma nova oportunidade de conciliar o país, de olhar para frente e governar para todos”, afirmou o presidente da Câmara.

Emendas impositivas e negociação tema a tema no quarto mandato de Lula

Apesar do crescimento das bancadas opositoras, Ismael Almeida e Mariana Chaise apontam que existe margem para a pacificação entre o Executivo e o Legislativo. Para Almeida, o desafio central da articulação política será construir uma base de apoio estável, evitando que cada votação em plenário se transforme em uma crise política. Chaise avalia que o presidente tentará recompor sua sustentação por meio da adesão gradual de parlamentares ao governo. “Mas essa adesão tende a ser negociada tema a tema. A pauta tende a ser mais enxuta e focada em temas muito populares”, disse a professora.

A pesquisadora da Unicamp observa que o diálogo seguirá o padrão de entendimento com legendas de centro, enquanto a resistência permanecerá concentrada na sigla de Flávio Bolsonaro. “Existe uma composição de partidos que tende a negociar, independentemente de qual seja o governo. A dificuldade se mantém no PL, que tem incentivos eleitorais para manter o espírito de polarização ativo até a próxima eleição presidencial”, declarou Mariana Chaise.

O cenário institucional que Lula encontrará a partir de 2027 difere daquele de seus primeiros mandatos nos anos 2000, quando o Executivo dispunha do que Mariana Chaise classifica como uma “caixa de ferramentas” mais ampla para coordenar a coalizão. Atualmente, vigoram as regras das emendas parlamentares impositivas, mecanismo legal que obriga o governo federal a executar as despesas indicadas por deputados e senadores no orçamento público, reduzindo o poder de barganha da Presidência da República na liberação de verbas. Além das votações orçamentárias e legislativas na Câmara, o governo dependerá diretamente da articulação no Senado Federal durante o mandato que se inicia em 2027, período em que Lula poderá indicar ao menos quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF), cujos nomes exigem aprovação dos senadores após sabatina.

Manuela é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2015

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