O fundo de índice iShares MSCI Brazil (EWZ), principal ETF (fundo negociado em bolsa) de ações brasileiras nos Estados Unidos, despencou nas negociações noturnas deste domingo (25) após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. O ativo chegou a cair 19,63%, cotado a US$ 34,23 nos primeiros minutos após a confirmação do resultado, e registrava baixa de 17,75%, a US$ 35,03, às 22h43 (horário de Brasília), ante o fechamento de US$ 42,59 na sexta-feira (23).
A desvalorização também atingiu o mercado de câmbio e as bolsas asiáticas. Na Bolsa de Chicago (CME), o contrato futuro de real com vencimento em novembro de 2026 recuou 9,97% às 22h30, levando o dólar ao valor equivalente a R$ 5,56. Na Bolsa de Tóquio, o fundo NEXT Funds Ibovespa Linked ETF, que acompanha o principal índice da bolsa brasileira, abriu o pregão de segunda-feira (26) pelo horário local em baixa e ampliou as perdas para 14,37%, cotado a 280 ienes às 22h40 de Brasília, frente aos 327 ienes do fechamento de sexta-feira (23).
Queda de ADRs da Petrobras, do Itaú e da Vale nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, os ADRs (recibos de ações de empresas estrangeiras negociados em bolsas americanas) de companhias brasileiras acompanharam o movimento do ETF EWZ nas operações após o fechamento regular do mercado. Por volta das 21h15 de Brasília, os papéis ordinários da Petrobras (PBR) caíam 11,96%, negociados a US$ 23,15, enquanto os preferenciais da estatal (PBR-A) recuavam 10,33%, a US$ 21,10. No mesmo horário, os recibos do Itaú (ITUB) registravam queda de 13,65%, e os da mineradora Vale (VALE) tinham baixa de 4,19%.
No mercado futuro da CME em Chicago, antes de atingir a equivalência de R$ 5,56, o contrato de real para novembro de 2026 era negociado às 21h04 de Brasília a US$ 0,1814 por real, um recuo de 9,14% para a moeda brasileira. Convertido, o patamar correspondia a R$ 5,5127 por dólar, uma alta de 10,06% sobre o ajuste anterior de R$ 5,0088. Os dados da CME contam com atraso mínimo de dez minutos e não representam a cotação oficial do dólar comercial brasileiro, mas servem de instrumento para investidores ajustarem posições antes da abertura da B3, a bolsa de valores de São Paulo.
Analistas apontam que as operações noturnas de domingo nos Estados Unidos e em Chicago ocorrem com liquidez reduzida e menor número de participantes, fator que amplifica as oscilações de preço. “Ainda é cedo para dimensionar esse movimento [de queda dos índices], porque os mercados estão fechados e os contratos futuros têm liquidez menor, mas os sinais apontam para uma queda expressiva, revertendo boa parte do movimento de valorização vista após o primeiro turno”, afirmou William Castro, estrategista-chefe da Avenue.
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Reação ao quarto mandato de Lula e projeções para o dólar em 2027
A queda nos ativos no exterior decorre do desmonte de apostas de investidores na eleição de Flávio Bolsonaro, resultado que parte dos agentes financeiros associava a uma mudança na política fiscal e a uma pauta econômica mais liberal. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, declarou que a empresa trabalhava com outro prognóstico para a votação. “A vitória do presidente Lula não era o nosso cenário base. Trabalhávamos com um leve favoritismo de Flávio Bolsonaro, e o mercado via a possibilidade de mudança de governo e de uma agenda mais liberal”, disse Sung.
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De acordo com a avaliação de Gustavo Sung, declarações anteriores do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e do ministro Dario Durigan sinalizam que a administração federal poderá adotar medidas de contenção de gastos mais moderadas no novo mandato do que as esperadas pelo mercado em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A Suno Research projeta expansão de cerca de 1,3% para o Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos no país) em 2027, percentual superior ao estimado pela casa caso o candidato do PL vencesse, mas acompanhado de inflação mais persistente, menor espaço para cortes na taxa básica de juros (Selic) e pressão sobre os títulos públicos.
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Para a abertura dos negócios no Brasil, o economista-chefe da Suno Research prevê ajustes nas carteiras de ações, câmbio e juros futuros. “A segunda-feira pode ser bastante volátil, porque haverá uma correção de rota e de ânimo do mercado”, afirmou. Sobre a taxa de câmbio no próximo ano, ele acrescentou: “Enxergamos volatilidade no câmbio, que deve ficar em torno de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027.”
Sung lembrou ainda que a reação negativa após a vitória de Lula em 2022 foi sucedida por uma melhora nas expectativas com a aprovação do novo arcabouço fiscal em 2023. “Precisamos acompanhar como o governo vai se organizar para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção”, declarou o economista.
Do rali de 200 mil pontos no Ibovespa após o primeiro turno à virada
O recuo registrado na noite de 25 de outubro de 2026 contrasta com a valorização observada logo após o primeiro turno das eleições presidenciais. Na votação de 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro havia terminado na liderança com 47,03% dos votos válidos (vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos), contra 45,16% de Lula, resultado que impulsionou o Ibovespa a superar pela primeira vez na história a marca dos 200 mil pontos no pregão seguinte. Antes disso, em nota divulgada em 29 de setembro de 2026, o banco JPMorgan havia estimado que um quadro de deterioração fiscal gradual no Brasil poderia causar baixa de 21% nas ações nacionais e desvalorização de 6% no real.
No segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou matematicamente a reeleição de Lula às 21h10, com 98,27% das seções apuradas, quando o presidente somava 51,75% dos votos válidos contra 48,25% do adversário (diferença de 4,25 milhões de votos). Mais tarde, com 99,88% das seções totalizadas pelo TSE, Lula registrava 64.156.472 votos (51,76% dos válidos), frente a 59.781.887 votos (48,24%) de Flávio Bolsonaro.
Datas e cotações da corrida eleitoral e dos mercados em outubro de 2026
- 4 de outubro de 2026 — Primeiro turno presidencial termina com Flávio Bolsonaro à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva.
- 5 de outubro de 2026 — No pregão seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa sobe 7,70%, o dólar recua 4,12% (para R$ 5,00) e o ETF EWZ avança 12,54% nos Estados Unidos (de US$ 38,19 para US$ 43).
- 23 de outubro de 2026 — No último pregão antes do segundo turno, na sexta-feira, o Ibovespa fecha em alta de 0,47%, aos 205.082,56 pontos, e o EWZ sobe 1,77%, a US$ 42,59.
- 25 de outubro de 2026, às 20h26 — Lula assume a liderança na apuração oficial do segundo turno, e o instituto Datafolha projeta a vitória do petista às 20h53.
- 25 de outubro de 2026, às 21h10 — TSE confirma matematicamente a reeleição de Lula para o quarto mandato; minutos depois, o EWZ chega a cair 19,63% (a US$ 34,23) nos Estados Unidos.
- 26 de outubro de 2026, às 9h e às 10h — Abertura programada do mercado de dólar futuro (às 9h de Brasília) e do Ibovespa à vista (às 10h) na B3, em São Paulo.
