Shell contrata relógios atômicos por terceirizadas em águas brasileiras

Mapeamento de petróleo - DC Studio/Shutterstock.comMapeamento de petróleo - DC Studio/Shutterstock.com

Mapeamento de petróleo - DC Studio/Shutterstock.com

Relógios atômicos em escala de chip já funcionam no fundo do mar para mapear reservas de óleo e gás natural. A tecnologia quântica também abre caminho para localizar depósitos minerais em terra firme, e laboratórios dos Estados Unidos disputam a miniaturização de instrumentos capazes de registrar variações mínimas na gravidade terrestre.

No setor petrolífero em alto-mar, os aparelhos conhecidos pela sigla CSAC contornam um obstáculo físico. As ondas de rádio do GPS não atravessam a água salgada, por isso petroleiras instalam centenas de sensores acústicos no leito oceânico. Cada aparelho precisa registrar dados sísmicos em sincronia temporal milimétrica com os navios na superfície, o que evita distorções nas imagens do subsolo.

Sinal de satélite não chega ao leito do oceano

A varredura sísmica tridimensional dispara pulsos sonoros a partir das embarcações. O eco volta das camadas geológicas até os receptores instalados no fundo do oceano. Sem o sinal de satélite para alinhar os cronômetros, os relógios atômicos portáteis fazem a contagem do tempo sozinhos, durante semanas ou meses de operação ininterrupta.

Foto: mapeamento de petróleo – DC Studio/Shutterstock.com

O físico William McGehee, pesquisador da divisão de Tempo e Frequência do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), detalhou a redução de escala alcançada pela indústria. Para ele, “é algo que você pode comprar por alguns milhares de dólares hoje. Ele tem aproximadamente o tamanho de um pedaço de sushi. A parte física tem o tamanho de um grão de arroz e o dispositivo completo tem o tamanho de um pedaço de sushi”, afirmou McGehee.

Os relógios atômicos foram desenvolvidos na década de 1940 para orientar a navegação militar marítima e aérea. Eles serviram de base para as constelações de posicionamento global GNSS e GPS. Durante décadas, o equipamento ocupava gabinetes grandes em salas climatizadas, mas técnicas recentes de confinamento e leitura de átomos permitiram embutir o núcleo atômico em componentes integrados de silício.

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Onde a tecnologia já opera em campos de petróleo

Os CSAC já são usados em campos petrolíferos do Mar do Norte, onde o mapeamento de reservatórios submarinos exige resolução contínua. No Brasil, a Shell recorre a empresas terceirizadas para contratar a tecnologia no posicionamento de embarcações, em obras de engenharia submarina e no apoio à navegação em campos offshore.

A exploração em novas fronteiras energéticas do país, porém, ainda não incorporou a ferramenta de forma geral. Questionada sobre o uso de relógios atômicos em estudos e levantamentos exploratórios na Margem Equatorial, a Petrobras informou que ainda não adota a tecnologia em suas operações no país.

Gravidade medida por relógios em Boulder

Em Boulder, no estado do Colorado, cientistas tentam transformar os instrumentos em detectores de massas rochosas. A base é a teoria da relatividade geral, segundo a qual a passagem do tempo muda conforme a intensidade do campo gravitacional. Um relógio atômico óptico de altíssima precisão mede pequenas variações no ritmo do tempo causadas pela densidade do solo, o que pode indicar cavidades ou minérios pesados.

O físico Jun Ye, pesquisador conjunto do NIST e do instituto JILA, além de professor da Universidade do Colorado em Boulder, explicou a aplicação em campo. “Quando você fala sobre exploração mineral, você está falando de tentar medir uma anomalia gravitacional, como se houvesse uma grande caverna ou um grande buraco, ou uma grande mina de ouro onde a gravidade é muito grande. Quando se mede a gravidade local, o relógio atômico é uma ferramenta sensível que pode dizer: ‘Ok, devo cavar aqui porque vejo que a gravidade local é muito mais forte do que em outros lugares'”, declarou Ye.

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O pesquisador foi anunciado em 5 de outubro de 2026 como vencedor do Prêmio Wolf de Física de 2026. Ele divide a honraria com o cientista alemão Immanuel Bloch, diretor científico do Instituto Max Planck de Óptica Quântica, e o prêmio financeiro de US$ 100.000 é dividido entre os dois. Apesar do avanço, a equipe busca contornar as limitações mecânicas dos aparelhos de laboratório. “Esse é um sistema incrível, mas são sistemas baseados em laboratório. Não é portátil, não é algo que você possa colocar no carro e sair por aí. Esse é o desafio: ‘Como transferir a engenharia de sistemas que demonstramos no laboratório para sistemas portáteis em escala menor para levar para a estrada'”, disse o físico.

A iniciativa privada também investe no setor. Scott Davis, CEO da fabricante de fotônica e sensores quânticos Vescent, sediada em Boulder, falou sobre a transição do mercado. “As tecnologias quânticas em áreas como mineração e gravimetria serão muito fortes. O maior mercado para a gravimetria será a extração e descoberta mineral. A física quântica vai viabilizar gravímetros de última geração e desempenhar um papel importante nesse setor também. Realmente acho que vai impactar essas indústrias”, relatou Davis.

Investimento global e prazos ainda sem definição

  • Aportes globais de governos em tecnologias quânticas até 2026: US$ 42 bilhões acumulados.
  • Cronograma formal da Petrobras para adquirir ou testar os CSAC: inexistente até o momento.
  • Previsão divulgada para o mercado de gravímetros quânticos portáteis: não há.

Por enquanto, as aplicações mais avançadas seguem em campos de petróleo do Mar do Norte e em pesquisas de laboratório nos Estados Unidos. Os aparelhos portáteis ainda dependem de novas etapas de engenharia, segundo a equipe de Jun Ye.

Carolina Costa: Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração