Pular para o conteúdo
Menu
Mix Vale

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) publicou uma diretriz nacional para conter o uso irregular de zolpidem, remédio comum contra insônia que virou problema de saúde pública no país. O documento saiu em novembro de 2025 na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria e tem a assinatura de 15 especialistas de universidades como USP, Unifesp, Unicamp, UFPE e UFMG. Segundo o texto, houve escalada de dependência e de efeitos adversos depois da pandemia de Covid-19, período em que as vendas chegaram a 22 milhões de caixas em 2023.

Dados da Anvisa mostram que o consumo dobrou entre 2018 e 2023. Depois disso, as vendas caíram para 6,89 milhões de caixas no primeiro semestre de 2025, com a adoção de controles mais rígidos. Mesmo assim, receitas falsificadas e vendas online continuam, e isso agrava os casos de abstinência grave.

Pacientes relatam doses diárias de até centenas de comprimidos, o que leva a perda de memória e a comportamentos involuntários. A diretriz pede avaliação completa antes da prescrição e limita o uso a curto prazo, com duração máxima de quatro semanas. O documento é o primeiro consenso brasileiro sobre as drogas Z, grupo que inclui o zolpidem e a zopiclona.

Vendas sobem desde a pandemia e recuam após novas regras

O crescimento tem relação com prescrições rápidas feitas por médicos sem especialização em sono, que tratam apenas o sintoma da insônia. Entre 2014 e 2021, as vendas saltaram de 338 mil para 810 mil caixas, impulsionadas pela pandemia de Covid-19.

A Anvisa endureceu as regras em 2024 e passou a exigir receita azul para todas as dosagens, o que reduziu o acesso ilegal. Desde 1º de agosto de 2024, a Notificação de Receita B vale para prescrever e vender todos os medicamentos com zolpidem, independentemente da concentração. Ainda assim, farmácias virtuais e receitas duplicadas facilitam o abuso.

Relatos clínicos apontam que as formas sublinguais e em spray aceleraram a dependência. Nesses casos, o paciente procura o “gosto” do remédio em busca de alívio rápido.

Sintomas e perigos da dependência ao remédio

A meia-vida curta do zolpidem, de cerca de quatro horas, favorece a tolerância rápida e o aumento das doses. Usuários passam a apresentar padrões parecidos com os de outras substâncias, e em casos moderados o consumo chega a 7 a 10 comprimidos por dia.

Os efeitos incluem sonambulismo, amnésia e impulsos como compras compulsivas, sem lembrança posterior. Profissionais de saúde e mulheres adultas aparecem entre os grupos mais vulneráveis.

Quando a interrupção é abrupta, podem surgir convulsões, ansiedade intensa e insônia rebote. Por isso, a retirada precisa ser lenta e feita sob supervisão médica.

  • Sonambulismo complexo: ações como dirigir ou comer enquanto a pessoa dorme só parcialmente.
  • Amnésia anterógrada: atos que não ficam guardados na memória.
  • Delírios e euforia: consumo durante o dia usado para se desinibir.
  • Riscos graves: parada cardiorrespiratória em casos de overdose.
insônia, melatonina
insônia – New Africa/Shutterstock.com

Confira também: Wegovy em comprimido: Anvisa aprova no Brasil primeira pílula de semaglutida contra a obesidade

Como os médicos devem prescrever com menos risco

A diretriz recomenda um plano de retirada desde a primeira receita, com data definida para a interrupção. Antes de indicar o fármaco, o médico deve avaliar comorbidades como ansiedade e depressão.

Para casos graves, o documento cita a substituição por medicamentos de menor risco ou a internação breve. O foco é o uso temporário, com monitoramento para evitar recaídas.

Os profissionais destacam que o zolpidem continua eficaz quando prescrito corretamente, mas exige acompanhamento rigoroso.

Terapia cognitivo-comportamental vira primeira escolha

A terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) aparece como opção prioritária para a insônia crônica, porque trata as causas e não apenas os sintomas. As sessões incluem regulação de horários e controle de pensamentos ansiosos.

Estudos citados pela diretriz mostram eficácia superior à de hipnóticos no longo prazo, com menos recaídas. A higiene do sono, como evitar telas antes de dormir, complementa o tratamento.

Pacientes se beneficiam mais de abordagens integradas, que combinam hábitos e apoio psicológico.

Pacientes relatam perda de memória e falhas no trabalho

Um ator público relatou compras impulsivas sob efeito do remédio, como itens exóticos comprados sem memória posterior. Profissionais perderam empregos por faltas causadas por fadiga durante o dia.

Acompanhe: Canetas emagrecedoras falsificadas seguem na mira da Anvisa e PF em 2026

Mulheres e trabalhadores da saúde formam os perfis mais comuns, e a dependência afeta relacionamentos e produtividade. Em casos extremos, houve internações por convulsões após tentativas de interrupção.

A diretriz liga o fenômeno brasileiro a prescrições automáticas, feitas sem diagnóstico completo de distúrbios do sono. Segundo o neurologista Alan Éckeli, professor da USP de Ribeirão Preto e um dos autores do documento, a intenção não é proibir o medicamento, e sim contextualizar seu uso.

Desmame com acompanhamento e internação em casos graves

O desmame gradual reduz riscos, com ajuste semanal das doses e apoio médico. Em dependências altas, substitutos de menor potencial de abuso facilitam a transição.

A internação monitorada previne complicações, como ideias suicidas. A diretriz orienta psiquiatras e neurologistas a seguir protocolos padronizados.

Segundo o documento, a recuperação completa acontece com adesão ao tratamento, e o sono natural volta a se estabelecer em meses.

Farmácias, faculdades e SUS entram na estratégia

Campanhas educativas miram farmacêuticos e médicos, para incentivar a dispensação consciente. O monitoramento de farmácias reduz o mercado ilegal, que eleva preços e limita o acesso.

A medicina do sono passa a fazer parte da grade curricular das faculdades, para preparar profissionais com prescrições racionais. A diretriz também alerta para a expansão do uso no Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo entre idosos e pessoas com transtornos psiquiátricos.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

Notícias relacionadas

Mais lidas

  1. Destaques

    Tornado no Aeroporto de Chapecó atinge 126 km/h, arranca teto de terminal e cancela voos em Santa Catarina

  2. Destaques

    Janaína Barbosa, ex-apresentadora do TV Fama, morre aos 48 anos em São Paulo

  3. Serasa

    Feirão Limpa Nome da Serasa oferece descontos de até 99% para quitar dívidas no Brasil até 6 de dezembro

  4. Benefícios

    13º salário 2026: empresas devem pagar 1ª parcela até 30 de novembro no Brasil com metade do rendimento sem desconto

  5. EUA

    Eleição para governador nos EUA: Keisha Lance Bottoms vence na Geórgia e Byron Donalds fatura a Flórida

  6. EUA

    Donald Trump vai deixar a presidência dos EUA? derrota republicana no Congresso não cassa o mandato do presidente

  7. EUA

    Eleição nos EUA: Trump esvazia agenda pública após democratas confirmarem série de vitórias no Congresso

  8. EUA

    Eleição para o Senado na Carolina do Sul: Annie Andrews lidera apuração sobre Darline Graham e ameaça hegemonia republicana nos EUA

  9. Mundo

    Moradia subterrânea em Pequim: trabalhadores vivem em túneis e tubulações para fugir de aluguéis altos na China

  10. Brasil

    Atriz Luiza Ambiel cai em golpe após mensagem da Receita Federal pelo WhatsApp

Sua privacidade

O Mix Vale usa cookies para medir audiência e exibir anúncios que sustentam a redação. Você escolhe. Política de privacidade.