Canetas emagrecedoras falsificadas seguem na mira da Anvisa e PF em 2026Por Carolina Costa
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Quatro em cada cinco canetas emagrecedoras à venda no país têm origem clandestina, segundo estimativa atual das autoridades. O mercado paralelo, formado por produtos falsificados e sem registro, chega a superar o setor formal regulamentado em até cinco vezes. O alerta sanitário oficial foi emitido em 5 de outubro de 2026, diante da proliferação de itens que imitam medicamentos à base de agonistas do receptor de GLP-1.
O endocrinologista Fernando Gerchman, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), publicou uma análise técnica sobre o problema. Ele atua no Hospital Moinhos de Vento e exerce a vice-diretoria da regional gaúcha da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD-RS). Para ele, o país nunca teve tantos tratamentos eficazes e, ao mesmo tempo, nunca esteve tão exposto à desinformação.
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Apreensões saltam de 609 unidades em 2024 para mais de 60 mil em 2025
Relatórios da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal mostram alta contínua nas apreensões de injetáveis irregulares nos últimos três anos. Em 2024, as autoridades tiraram de circulação 609 unidades irregulares em fiscalizações pontuais. No ano seguinte, o volume interceptado chegou a mais de 60 mil unidades, puxado por quadrilhas que distribuem cargas contrabandeadas e versões falsificadas de remédios conhecidos, como a semaglutida e a tirzepatida.
O ritmo acelerou no início de 2026, com as forças de segurança interceptando canetas falsificadas em volume recorde para o período. A procura por emagrecimento rápido, estimulada por redes sociais, provocou escassez temporária e custos altos nas farmácias convencionais. Esse vácuo abriu espaço para manipulações sem fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que expõem os compradores a contaminações químicas e biológicas de alta gravidade.
Números das apreensões e as ações oficiais de 2026
- Primeiro trimestre de 2026: mais de 54 mil unidades falsificadas interceptadas em portos, aeroportos e rotas terrestres.
- 7 de abril de 2026: Operação Heavy Pen, da Polícia Federal com apoio técnico da Anvisa, cumpriu 45 mandados de busca e apreensão em 12 estados.
- 11 de maio de 2026: a Anvisa determinou a apreensão de Ozempic Power, Mounjmax, Maxtwo + 3D Slim e Maxtwo Detox, e proibiu dois lotes de Mounjaro Kwikpen (D830169 e D830169D), com rotulagem em inglês.
- 14 de outubro de 2026: a Anvisa determinou a apreensão de produtos vendidos em sites, entre eles retatrutida e tirzepatida sem registro.
O que a ciência diz sobre os remédios aprovados
Os agonistas do receptor de GLP-1 foram desenvolvidos para o diabetes tipo 2 e, depois, ganharam indicação para o tratamento da obesidade crônica. Uma ampla revisão publicada no periódico The Lancet, liderada pelo pesquisador e médico Michael A. Nauck, confirmou controle glicêmico robusto e redução significativa do peso corporal. O mesmo estudo registrou diminuição comprovada de eventos cardiovasculares adversos e proteção contra a falência renal progressiva em pacientes com diagnóstico clínico formal.
Ao mesmo tempo, pessoas que buscam mudanças rápidas no corpo, por pressão estética, têm deixado de lado o acompanhamento contínuo. Em 4 de fevereiro de 2025, a SBEM, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) divulgaram nota conjunta contra formulações manipuladas e similares não testados. A nota aponta a ausência de estudos de bioequivalência e os perigos de dosagem errônea.
Fernando Gerchman reforçou a necessidade de critérios rigorosos no tratamento da doença. “Como médico, reforço que não existem atalhos seguros para o emagrecimento. O tratamento da obesidade exige acompanhamento especializado, mudanças sustentáveis no estilo de vida e, quando indicado, o uso de medicamentos regulamentados e prescritos com base em critérios clínicos.”
Desconfiança em vacinas e a percepção de risco
A expansão do consumo de substâncias não testadas revela uma distorção na avaliação de segurança médica, segundo o endocrinologista em seu artigo. Pessoas aplicam compostos sem certificação comprados em canais digitais clandestinos, enquanto vacinas consolidadas enfrentam desconfiança estimulada por notícias falsas. Esse comportamento atingiu a imunização, que por décadas foi modelo internacional de adesão pública.
Dados de monitoramento sanitário citados durante a gestão do ex-diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, mostram que a cobertura vacinal média caiu de taxas superiores a 90% para índices próximos de 70% nos anos recentes. Gerchman descreve a contradição enfrentada pelo sistema de saúde.
Gerchman declarou que “o verdadeiro paradoxo não está nas canetas emagrecedoras, mas na inversão da percepção de risco”. Para ele, a busca por remédios de origem duvidosa cresce enquanto intervenções estudadas e regulamentadas passam a ser questionadas.
Onde comprar com segurança e o que checar na embalagem
A prescrição dos agonistas de GLP-1 é indicada para pessoas com obesidade crônica, sobrepeso associado a comorbidades ou diabetes tipo 2 descompensado, após avaliação clínica individualizada em consultório. Quem tem indicação deve comprar os produtos somente em drogarias credenciadas.
Na embalagem, o paciente precisa verificar o registro sanitário do fabricante, o lacre de inviolabilidade e a temperatura de refrigeração exigida para o princípio ativo. Anúncios veiculados em aplicativos de mensagens ou redes sociais devem ser evitados.
O montante movimentado pela distribuição ilegal dessas canetas em 2026 não tem consolidação oficial pela Receita Federal nem pela Polícia Federal, embora entidades setoriais apontem cifras bilionárias. Em relatório divulgado em 28 de maio de 2026, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) informou que acompanha a tramitação de novas diretrizes punitivas para coibir o abastecimento irregular no varejo.















