Esquema de apostas contrata influenciadores para burlar leis e promover jogos ilegais

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jogo do tigrinho aposta online casa de aposta Foto: rafapress/shutterstock.com

Empresas de apostas ilegais usaram influenciadores digitais para promover jogos proibidos no Brasil, driblando a legislação e alavancando o crescimento de suas plataformas. A revelação veio à tona após a operação “Integration”, conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco, que prendeu a influenciadora Deolane Bezerra e sua mãe, Solange Bezerra, sob suspeita de envolvimento no esquema. Segundo o secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho, a investigação aponta provas sólidas da prática de lavagem de dinheiro e promoção de jogos de azar ilegais.

O esquema envolvia grandes empresas de apostas, como a Esportes da Sorte, que já patrocina diversos clubes de futebol, incluindo Corinthians e Athletico-PR. Influenciadores contratados pelas empresas eram responsáveis por impulsionar o marketing dessas plataformas, incentivando seus milhões de seguidores a apostar, frequentemente iludidos com promessas de riqueza fácil.

A aposta na ilusão: como os influenciadores eram usados

De acordo com a investigação, as empresas de apostas exploravam a imagem de influenciadores para atrair jogadores. A estratégia era simples: associar suas marcas a estilos de vida luxuosos promovidos por figuras públicas, sugerindo que suas riquezas tinham origem nas apostas. O secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, ressaltou a gravidade da prática, afirmando que muitos dos que entraram nesse universo perderam grandes somas de dinheiro.

“A ilusão vendida por esses influenciadores gerava um ciclo vicioso. As pessoas apostavam com a falsa esperança de enriquecer, enquanto, na realidade, quem ganhava era a casa de apostas. As promessas de carros, mansões e iates não passavam de fachada”, destacou Carvalho.

Das ruas ao digital: a transição do jogo do bicho para as apostas online

Antes de migrar para o lucrativo mercado de apostas esportivas online, as empresas investigadas já operavam com o tradicional jogo do bicho, uma prática ilegal e enraizada no Brasil. Com a recente regulamentação das apostas esportivas, essas organizações viram uma oportunidade de “legalizar” parte de suas operações, mantendo, porém, uma estrutura ilícita em paralelo. A operação identificou que o “jogo do tigrinho”, uma versão moderna do jogo do bicho, continuava a ser explorado dentro dessas plataformas, combinando atividades lícitas e ilícitas.

Milhões em movimentações financeiras suspeitas

As autoridades descobriram que o esquema movimentou cerca de R$ 3 bilhões entre 2019 e 2023. Esse montante foi lavado por meio de empresas de fachada, como organizadoras de eventos e casas de câmbio, além de transações bancárias atípicas entre os envolvidos. A investigação apontou que, embora as apostas esportivas sejam regulamentadas, as organizações criminosas ocultavam parte significativa de seus ganhos, desviando-os para contas pessoais, compra de bens de luxo, como veículos e imóveis, e até aeronaves.

Luxo e extravagância: bens apreendidos durante a operação

Durante a terceira fase da operação “Integration”, uma série de bens valiosos foi apreendida, incluindo carros de luxo, joias, relógios da marca Rolex e até aeronaves. Entre os itens destacados pela polícia estava um avião que pertencia ao cantor Gusttavo Lima e uma Lamborghini Urus Performante, vendida por Darwin Henrique da Silva Filho, proprietário da Esportes da Sorte, à influenciadora Deolane Bezerra, por mais de R$ 3,85 milhões.

As investigações também revelaram que, além de patrocínios a clubes de futebol, a Esportes da Sorte tinha uma ligação com empresas que movimentavam quantias expressivas sem justificativas comerciais ou financeiras adequadas, fortalecendo as suspeitas de lavagem de dinheiro.

Estratégia digital e propagação rápida

O impacto do marketing feito por influenciadores digitais foi um dos pilares para o crescimento rápido do esquema. Segundo Alessandro Carvalho, a velocidade com que esses influenciadores espalhavam as marcas das bets para milhões de pessoas é impressionante. Cada postagem ou vídeo de um influenciador poderia alcançar milhares, senão milhões, de seguidores, gerando um fluxo massivo de novos apostadores em poucas horas.

“Uma vez que o nome da bet aparecia associado a uma celebridade, a adesão era quase instantânea. Esses influenciadores têm seguidores fiéis que confiam em suas recomendações. Isso criava um caminho rápido e fácil para que o dinheiro fluísse diretamente para as plataformas de apostas”, acrescentou o secretário.

Operação de grandes proporções

A terceira fase da operação “Integration” resultou na emissão de 19 mandados de prisão e 24 de busca e apreensão, cumpridos em seis estados. Entre os presos estavam figuras públicas e empresários ligados ao esquema de apostas, como Darwin Henrique da Silva Filho e sua esposa, além da influenciadora Deolane Bezerra e sua mãe. A operação mobilizou agentes de segurança em Pernambuco, São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Paraíba e Paraná.

Deolane, que foi detida em um hotel no Recife durante uma viagem com a família, afirmou em carta que está sendo vítima de uma grande injustiça. Ela nega qualquer envolvimento em crimes e declarou ser alvo de preconceito por sua origem e estilo de vida. No entanto, a Polícia Civil segue apurando seu papel no esquema de lavagem de dinheiro e jogos de azar ilegais.

A continuidade das investigações

As investigações ainda estão em curso, e as autoridades continuam analisando os bens e transações financeiras dos suspeitos. Até o momento, as apreensões somam milhões de reais em imóveis, veículos, joias e dinheiro em espécie. A Esportes da Sorte, envolvida diretamente no esquema, afirmou em nota que está colaborando com as autoridades e que seus negócios são conduzidos de maneira transparente e dentro da legalidade.

Por outro lado, as autoridades buscam entender melhor as conexões entre as atividades legais da plataforma e as práticas ilícitas detectadas, que continuam sendo exploradas dentro da mesma estrutura empresarial.

O mercado de apostas sob investigação

As apostas esportivas online no Brasil estão regulamentadas desde 2023, mas a falta de fiscalização adequada permitiu que organizações criminosas se infiltrassem no mercado. A operação “Integration” expôs como empresas que já operavam em atividades ilegais, como o jogo do bicho, conseguiram migrar para o mercado online, mantendo suas práticas ilícitas.

O governo brasileiro está sendo pressionado a endurecer as fiscalizações sobre essas empresas e a criar mecanismos mais eficazes para impedir que o mercado de apostas seja usado para lavagem de dinheiro.

O que esperar a seguir

Com a expansão das investigações, espera-se que mais figuras influentes e empresas sejam implicadas no esquema. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que outras fases da operação podem ser deflagradas em breve, à medida que novos elementos surgem e a rede criminosa é desmantelada.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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