Ben & Jerry’s processa Unilever por demitir CEO e bloquear ativismo em apoio aos palestinosPor Luís Henrique Costa
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A Ben & Jerry’s, famosa marca de sorvetes conhecida por seu ativismo social, entrou em um novo embate com sua controladora, a Unilever. Em uma petição judicial apresentada na terça-feira, 18 de março de 2025, a empresa acusa a gigante de bens de consumo de demitir ilegalmente seu CEO, David Stever, em retaliação às posições progressistas da marca. O conflito, que ganhou força nos últimos anos, reflete uma relação cada vez mais tensa entre as duas companhias, marcada por divergências sobre questões como o apoio aos palestinos na guerra de Gaza e a venda de produtos em territórios ocupados por Israel. A disputa agora está nas mãos da Justiça, em um tribunal federal de Nova York, onde a Ben & Jerry’s busca proteger sua autonomia e missão social.
No cerne da acusação está a alegação de que a Unilever violou o acordo de fusão firmado em 2000, quando adquiriu a Ben & Jerry’s por US$ 326 milhões. Esse pacto garantia à marca de Vermont, nos Estados Unidos, um conselho independente com poder sobre sua missão social e decisões estratégicas, como a escolha de seu CEO. Segundo a petição, a Unilever informou ao conselho da Ben & Jerry’s, em 3 de março, sobre a substituição de Stever, sem consultar o comitê consultivo exigido pelo acordo. A marca de sorvetes vê a medida como uma tentativa de silenciar seu ativismo, que inclui críticas ao governo de Donald Trump e posições firmes sobre justiça social e direitos humanos.
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A história entre as duas empresas, que começou como uma parceria promissora, azedou ao longo do tempo. Nos últimos anos, a Ben & Jerry’s tomou decisões que desafiaram os interesses da Unilever, como a suspensão das vendas em assentamentos israelenses na Cisjordânia em 2021. Esse posicionamento gerou reações da controladora, que, em 2022, vendeu seu negócio de sorvetes em Israel a uma empresa local, permitindo a continuidade das vendas sob a marca Ben & Jerry’s em hebraico e árabe. O novo capítulo desse confronto reacende o debate sobre até que ponto uma empresa adquirida pode manter sua identidade e valores diante das prioridades corporativas de sua controladora.
Escalada do conflito entre Ben & Jerry’s e Unilever
Demissão de CEO gera nova crise judicial
A substituição de David Stever como CEO da Ben & Jerry’s é o estopim de uma crise que já se arrasta há meses. No documento apresentado ao tribunal, a empresa alega que a decisão da Unilever foi motivada pelo desconforto com as postagens e declarações públicas da marca sobre temas sensíveis. Entre os exemplos citados está uma tentativa frustrada de publicar, em janeiro de 2025, um texto nas redes sociais destacando desafios do segundo mandato de Donald Trump, como aborto, mudanças climáticas e saúde universal. A Unilever teria vetado a publicação por mencionar explicitamente o nome do presidente americano, uma ação que a Ben & Jerry’s classifica como censura direta à sua liberdade de expressão.
Esse não é o primeiro caso em que a Unilever intervém nas ações da marca. Em novembro de 2024, a Ben & Jerry’s já havia aberto um processo contra a controladora, acusando-a de bloquear declarações em apoio aos palestinos durante a guerra de Gaza. Na ocasião, a empresa tentou defender um cessar-fogo, o acolhimento de refugiados palestinos no Reino Unido e a suspensão de ajuda militar americana a Israel. A Unilever, segundo a petição, ameaçou dissolver o conselho independente da marca e processar seus membros caso as declarações fossem publicadas. A emenda judicial de março de 2025 reforça essas denúncias, apontando um padrão de interferência que, para a Ben & Jerry’s, compromete sua essência progressista.
O acordo de fusão de 2000 foi projetado para proteger a identidade da Ben & Jerry’s, permitindo que seu conselho independente mantivesse o controle sobre a missão social da marca. A aquisição pela Unilever, na época, foi vista como uma oportunidade de expansão global sem sacrificar os valores que tornaram a empresa de Vermont um ícone. No entanto, as recentes ações da controladora, como a demissão de Stever e os vetos a posicionamentos públicos, sugerem uma mudança de postura. A Ben & Jerry’s argumenta que essas medidas violam diretamente os termos estabelecidos há 25 anos, colocando em xeque a autonomia que deveria ser garantida.
Histórico de tensões no mercado israelense
As divergências entre Ben & Jerry’s e Unilever ganharam destaque em 2021, quando a marca anunciou que deixaria de vender seus sorvetes nos assentamentos israelenses na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental. A decisão, alinhada aos valores da empresa, que considera a ocupação ilegal sob o direito internacional, gerou controvérsia e críticas de investidores e consumidores. A Unilever respondeu em 2022 vendendo seu negócio de sorvetes em Israel a uma empresa local, que continuou comercializando os produtos da Ben & Jerry’s na região, agora com rótulos em hebraico e árabe. A medida foi vista pela marca como uma traição ao seu posicionamento, levando a um processo judicial que acabou em um acordo temporário.
A resolução, porém, não apaziguou os ânimos. Em 2024, o conflito em Gaza reacendeu as tensões, com a Ben & Jerry’s tentando novamente expressar solidariedade aos palestinos. A Unilever bloqueou essas iniciativas, incluindo doações a organizações como Jewish Voice for Peace e Council on American Islamic Relations, que apoiam causas humanitárias na região. A justificativa da controladora foi manter uma postura “neutra” no conflito, mas a Ben & Jerry’s apontou contradições, como a doação de 500 mil euros a um serviço médico israelense ligado às Forças de Defesa de Israel. Esses episódios expõem uma luta de poder que vai além de questões comerciais, envolvendo valores éticos e posicionamentos políticos.
Impactos e próximos passos do embate
Cronologia de uma relação conturbada
A trajetória da Ben & Jerry’s sob o guarda-chuva da Unilever é marcada por altos e baixos. Veja os principais momentos:
- 2000: Unilever adquire a Ben & Jerry’s por US$ 326 milhões, com um acordo que preserva o conselho independente e a missão social da marca.
- 2021: Ben & Jerry’s suspende vendas nos assentamentos israelenses, iniciando uma crise com a controladora.
- 2022: Unilever vende o negócio de sorvetes em Israel a uma empresa local, gerando um processo da Ben & Jerry’s contra a decisão.
- Novembro de 2024: Marca processa a Unilever por bloquear apoio aos palestinos na guerra de Gaza.
- Março de 2025: Petição acusa a Unilever de demitir o CEO David Stever sem consulta prévia, em mais uma escalada do conflito.
Essa linha do tempo reflete como a parceria, inicialmente vista como uma fusão de interesses, transformou-se em um campo de batalha. A Unilever, que planeja desmembrar seu negócio de sorvetes até o final de 2025, incluindo a Ben & Jerry’s, enfrenta agora o desafio de gerenciar uma marca que se recusa a abandonar suas convicções. O desmembramento, anunciado no mês passado, deve listar a divisão de sorvetes em Amsterdã, mas o processo pode ser complicado pelas disputas judiciais em curso.
Negócio de sorvetes da Unilever em xeque
A divisão de sorvetes da Unilever, que inclui marcas como Magnum e Breyers além da Ben & Jerry’s, gerou uma receita de 8,3 bilhões de euros em 2024. A Ben & Jerry’s, embora represente apenas uma fração desse total, é uma peça-chave por sua relevância cultural e apelo entre consumidores progressistas. A decisão de separá-la do portfólio reflete uma mudança estratégica da Unilever, que já foi líder no movimento ESG (Environmental, Social and Governance), mas agora busca simplificar suas operações sob pressão de investidores. A venda ou listagem da divisão em Amsterdã está prevista para o final de 2025, mas as ações judiciais da Ben & Jerry’s podem atrasar ou alterar esses planos.
Enquanto isso, os fundadores da marca, Ben Cohen e Jerry Greenfield, acompanham o embate de longe. Em fevereiro de 2025, surgiram relatos de que eles consideravam recomprar a empresa, avaliada em bilhões de dólares, para restaurar sua independência. A Unilever, porém, declarou que a Ben & Jerry’s não está à venda, reforçando sua intenção de manter o controle até a conclusão do desmembramento. A disputa judicial em Nova York será decisiva para determinar se a marca conseguirá preservar sua autonomia ou se a Unilever conseguirá impor sua visão corporativa.
O que está em jogo na batalha judicial
O processo movido pela Ben & Jerry’s vai além da demissão de David Stever. A marca busca uma ordem judicial que garanta a continuidade de seu conselho independente e obrigue a Unilever a cumprir compromissos financeiros, como US$ 25 milhões em doações a grupos escolhidos pela empresa. Esses recursos incluem US$ 5 milhões para organizações de direitos humanos e US$ 20 milhões ao longo de dez anos para apoiar agricultores de amêndoas palestinos. A Unilever teria bloqueado parte desses pagamentos, alegando neutralidade, o que a Ben & Jerry’s considera uma quebra de contrato.
A batalha também levanta questões sobre o futuro do ativismo corporativo. A Ben & Jerry’s construiu sua reputação defendendo causas como justiça racial, mudanças climáticas e direitos LGBTQ+, mas sua integração a uma multinacional como a Unilever expôs os limites dessa abordagem. O desfecho do caso pode influenciar outras empresas que buscam equilibrar propósito social e interesses comerciais. Por ora, a Justiça americana será o palco onde essas tensões serão resolvidas, com implicações que vão desde a governança corporativa até o impacto geopolítico das decisões de uma marca de sorvetes.














