O governo federal, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) em 12 de junho de 2025 para suspender processos judiciais relacionados a fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A medida, assinada por Lula e pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, visa conter a judicialização em massa decorrente de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, revelados pela Operação Sem Desconto. A ação também solicita a abertura de crédito extraordinário para ressarcir as vítimas sem impactar as metas fiscais de 2025 e 2026. A iniciativa, protocolada como Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), foi distribuída ao ministro Dias Toffoli. O objetivo é evitar insegurança jurídica e garantir a restituição rápida dos valores desviados, que podem alcançar R$ 6,3 bilhões, segundo estimativas da Polícia Federal.
A decisão de recorrer ao STF reflete a gravidade do esquema fraudulento, que afetou cerca de 9 milhões de benefícios entre 2020 e 2025. A Advocacia-Geral da União (AGU) argumenta que a suspensão dos processos judiciais permitirá uma solução administrativa mais ágil, protegendo aposentados e pensionistas de longas disputas judiciais. A ação também busca uniformizar decisões judiciais, já que interpretações conflitantes têm gerado insegurança.
- Principais pontos da ação no STF:
- Suspensão de processos judiciais contra a União e o INSS.
- Abertura de crédito extraordinário para ressarcimento.
- Uniformização de decisões para evitar insegurança jurídica.
A magnitude do problema exige medidas excepcionais, segundo o governo, que destaca a imprevisibilidade do esquema como justificativa para a liberação de verbas fora do teto fiscal.
Origem do escândalo e impacto nos aposentados
As fraudes no INSS vieram à tona com a Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU) em abril de 2025. Entidades associativas, algumas com ligações suspeitas, cadastravam aposentados e pensionistas sem autorização, descontando mensalidades diretamente de seus benefícios. Em alguns casos, assinaturas eram falsificadas, e serviços prometidos nunca eram entregues.
O esquema, que operou entre 2019 e 2024, gerou prejuízos estimados em até R$ 6,3 bilhões, segundo a PF. Cerca de 4 milhões de aposentados foram diretamente afetados, com descontos indevidos que variavam de pequenas mensalidades a valores significativos. A CGU identificou que, no primeiro semestre de 2024, foram registrados 742.389 pedidos de cancelamento de descontos, sendo 95,6% deles relacionados a autorizações não reconhecidas pelos beneficiários.
A gravidade do caso levou à demissão do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, e à prisão de seis suspeitos ligados a entidades em Sergipe. O governo suspendeu todos os descontos associativos em abril de 2025 e prometeu a devolução de R$ 292 milhões retidos indevidamente até junho do mesmo ano.
Ação no STF e os argumentos do governo
A ADPF apresentada ao STF destaca a necessidade de frear a judicialização em massa. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que mais de 4,1 milhões de ações previdenciárias estão em tramitação no país, e o governo teme que o escândalo do INSS gere milhões de novos processos. A AGU argumenta que decisões judiciais conflitantes, algumas exigindo restituição em dobro com base no Código de Defesa do Consumidor, agravam a insegurança jurídica e sobrecarregam o Judiciário.
O governo propõe que a restituição seja feita por via administrativa, por meio do Portal de Desconto de Mensalidades Associativas (PDMA), lançado em maio de 2025. A plataforma permite que aposentados contestem descontos e solicitem reembolsos sem recorrer à Justiça. Até o momento, 65 mil ações judiciais relacionadas aos descontos foram registradas entre janeiro de 2024 e maio de 2025, com impacto financeiro estimado em R$ 981 milhões.
A solicitação de crédito extraordinário é outro ponto central da ação. A AGU defende que os valores necessários para indenizar as vítimas não devem ser contabilizados no arcabouço fiscal, citando precedentes do STF, como a liberação de verbas para o Rio Grande do Sul após as enchentes de 2024. A medida, segundo o governo, garante agilidade no ressarcimento e protege a sustentabilidade da Previdência Social.
Reações à iniciativa do governo
A decisão de Lula de acionar o STF gerou debates. Alguns setores da sociedade civil elogiaram a tentativa de agilizar a reparação às vítimas, enquanto outros questionaram a suspensão de processos judiciais. Entidades de defesa dos aposentados argumentam que a via judicial é essencial para garantir indenizações justas, especialmente em casos de danos morais.
No Congresso, a oposição protocolou pedidos de instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para investigar o esquema. Um requerimento na Câmara obteve 185 assinaturas, superando o mínimo de 171, mas ainda aguarda análise. No Senado, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) busca apoio para uma comissão mista. O governo, por sua vez, tenta evitar o desgaste político, destacando que as fraudes começaram em 2019, durante a gestão anterior.
- Medidas já tomadas pelo governo:
- Suspensão de todos os descontos associativos em abril de 2025.
- Devolução de R$ 292 milhões até junho de 2025.
- Criação do PDMA para contestações administrativas.
- Bloqueio de R$ 23,8 milhões em bens de suspeitos.
Detalhes da Operação Sem Desconto
A Operação Sem Desconto revelou a complexidade do esquema fraudulento. As entidades investigadas utilizavam táticas como propinas a servidores do INSS para acessar dados de beneficiários, além de criar associações de fachada presididas por laranjas, como idosos e pessoas de baixa renda. Uma das entidades chegou a filiar 1.569 aposentados por hora, segundo a CGU, evidenciando a escala da fraude.
A investigação, iniciada em 2023 pela CGU, ganhou força em 2024 com a atuação da PF. Foram abertos 12 inquéritos, e 11 entidades associativas foram suspensas judicialmente. A operação abrangeu 13 estados e o Distrito Federal, com mandados de busca, apreensão e prisão. Itens de luxo, como carros e dinheiro em espécie, foram confiscados.
Medidas de proteção aos aposentados
Para evitar novas fraudes, o INSS implementou mudanças significativas. O PDMA tornou-se uma ferramenta central, permitindo que beneficiários consultem descontos e solicitem exclusões pelo site ou aplicativo Meu INSS. A Central 135 também foi habilitada para receber denúncias.
O governo orienta que aposentados verifiquem seus extratos regularmente. Caso identifiquem descontos não autorizados, podem:
- Acessar o Meu INSS e usar a função “exclusão de mensalidade de associação ou sindicato”.
- Ligar para a Central 135 e registrar a reclamação.
- Contatar diretamente a entidade responsável pelo desconto, se identificada.
Além disso, o INSS bloqueou novos descontos de empréstimos consignados, medida publicada no Diário Oficial da União em agosto de 2025.
Esforços para responsabilização
A AGU já ajuizou 15 ações para bloquear bens de entidades e seus dirigentes, totalizando R$ 2,56 bilhões. A primeira decisão judicial, em maio de 2025, determinou o congelamento de R$ 23,8 milhões. As ações visam garantir que os responsáveis pelas fraudes arquem com os custos do ressarcimento, embora os valores só sejam liberados após condenações definitivas.
O ministro da Previdência, Wolney Queiroz, afirmou que o governo busca “ir até as últimas consequências” para punir os culpados. A CGU, por sua vez, abriu processos administrativos contra servidores e entidades, prometendo rigor nas investigações.
Perspectiva para o ressarcimento
O governo estima que a fraude envolveu valores entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões, embora os descontos totais entre 2020 e 2025 cheguem a R$ 5,9 bilhões. A diferença inclui mensalidades autorizadas, o que exige triagem detalhada para identificar as vítimas.
A proposta de crédito extraordinário, se aprovada pelo STF, permitirá a devolução imediata de parte dos valores, sem depender do desfecho de processos judiciais. O governo também pediu a suspensão dos prazos de prescrição das indenizações, garantindo que os aposentados não percam o direito de reclamar.
Desdobramentos políticos e judiciais
A ação no STF ocorre em um momento de tensão política. O governo enfrenta críticas por supostamente minimizar a crise, enquanto a oposição explora o escândalo para desgastar a imagem de Lula. A demissão de Carlos Lupi, ex-ministro da Previdência, e a troca no comando do INSS refletem os esforços para conter o impacto político.
No Judiciário, a relatoria de Dias Toffoli será decisiva. A ADPF 1236, vinculada a outra ação sob sua responsabilidade, pode uniformizar o tratamento do caso e evitar decisões conflitantes. A expectativa é que o STF avalie a liminar com urgência, dada a relevância social do tema.
Apoio às vítimas e próximos passos
O governo reforçou a comunicação com os aposentados, ampliando canais de atendimento. Além do Meu INSS e da Central 135, parcerias com defensorias públicas estão sendo articuladas para orientar os beneficiários. O INSS também planeja campanhas educativas para prevenir novos golpes.
A tramitação da ADPF no STF será acompanhada de perto por entidades de classe e pela sociedade civil. A decisão do Supremo pode redefinir a abordagem do governo para crises previdenciárias, priorizando soluções administrativas em detrimento de longos processos judiciais.

