Saúde

Tratamento contra Alzheimer: saiba o preço e como funciona o novo tratamento

Médico modelo de cerebro exame
Foto: Médico modelo de cerebro exame - Foto: Nadzeya Haroshka/istock

Um novo tratamento para a doença de Alzheimer, o medicamento donanemabe, comercializado como Kisunla pela farmacêutica Eli Lilly, começou a ser aplicado no Brasil em setembro de 2025, marcando um avanço significativo no combate à doença neurodegenerativa. Aprovado pela Anvisa em abril deste ano, o fármaco é indicado para pacientes em estágios iniciais, com comprometimento cognitivo leve ou demência leve, e está disponível apenas em clínicas e hospitais particulares, como os da rede Alta Diagnósticos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Administrado por infusão intravenosa mensal, o tratamento tem um custo elevado, estimado entre R$ 8 mil e R$ 30 mil por mês, dependendo da dose e dos serviços associados, como acompanhamento médico e infraestrutura hospitalar. O donanemabe atua na remoção de placas beta-amiloide no cérebro, retardando a progressão da doença em até 35%, segundo estudos clínicos, mas sua acessibilidade é limitada devido ao preço e à ausência de cobertura pelo SUS ou planos de saúde.

O medicamento representa uma esperança para cerca de 1,9 milhão de brasileiros que vivem com Alzheimer, segundo estimativas da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz). No entanto, sua aplicação exige monitoramento rigoroso devido a possíveis efeitos colaterais graves, como edemas e hemorragias cerebrais.

  • Benefícios: Retarda o declínio cognitivo em até 35%, oferecendo mais tempo de autonomia.
  • Limitações: Alto custo e disponibilidade restrita a clínicas particulares.
  • Exigências: Diagnóstico precoce e acompanhamento com exames de imagem.

Como funciona o donanemabe

O donanemabe é um anticorpo monoclonal que age diretamente nas placas beta-amiloide, aglomerados de proteína que se acumulam no cérebro e contribuem para a degeneração neuronal característica do Alzheimer. Diferentemente de tratamentos tradicionais, que apenas aliviam sintomas, o Kisunla modifica a progressão da doença, reduzindo essas placas. Estudos clínicos, como o TRAILBLAZER-ALZ 2, demonstraram que o medicamento removeu placas amiloides em até 76% dos pacientes após 18 meses, com 30% alcançando níveis negativos em apenas seis meses.

A administração ocorre por infusão intravenosa, em sessões de 30 minutos, seguidas de igual período de observação médica. O protocolo inicial prevê 700 mg por mês (duas ampolas) nos três primeiros meses, aumentando para 1.400 mg (quatro ampolas) a partir do quarto mês, por até 18 meses ou até a eliminação das placas, confirmada por exames como PET amiloide.

  • Redução de placas: 61% em seis meses, 80% em 12 meses, 84% em 18 meses.
  • Duração do tratamento: 12 a 18 meses, com possibilidade de interrupção precoce.
  • Monitoramento: Ressonâncias magnéticas regulares para detectar efeitos adversos.

O neurologista Raphael Spera, do Hospital Sírio-Libanês, destaca que o medicamento é um marco após duas décadas sem avanços significativos, mas enfatiza a necessidade de diagnóstico precoce para maximizar seus benefícios.

Custo elevado limita acesso

O preço do donanemabe é um dos principais entraves à sua adoção em larga escala. Cada ampola custa cerca de R$ 5.194,16, conforme definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) em julho de 2025. Com quatro ampolas mensais na fase principal do tratamento, o custo pode chegar a R$ 20 mil a R$ 30 mil por mês, incluindo taxas de aplicação e acompanhamento médico. Em clínicas como as da rede Dasa, o valor inicial é de R$ 8 mil, mas pode aumentar dependendo dos serviços adicionais.

Nos Estados Unidos, o tratamento anual custa cerca de US$ 32 mil (R$ 183 mil), e no Brasil, a ausência de cobertura pelo SUS ou por planos de saúde torna o Kisunla inacessível para a maioria da população. A Eli Lilly informou que está em negociações para ampliar a acessibilidade, mas não há previsão de inclusão no sistema público ou em coberturas privadas.

  • Preço por ampola: R$ 5.194,16 (com ICMS de 18% incluso).
  • Custo mensal: Entre R$ 8 mil e R$ 30 mil, incluindo aplicação.
  • Barreiras: Sem cobertura pelo SUS ou planos de saúde.
  • Negociações: Esforços da Eli Lilly para reduzir custos.

A presidente da Febraz, Elaine Mateus, defende que o acesso ao tratamento não deve ser privilégio de poucos, destacando a importância de políticas públicas para democratizar o uso do medicamento.

Alzheimer
Alzheimer – Foto: superbeststock/ Shutterstock.com

Efeitos colaterais exigem cautela

Embora promissor, o donanemabe apresenta riscos que exigem acompanhamento médico rigoroso. Os efeitos colaterais mais comuns incluem reações à infusão, como febre, tremores e mal-estar, geralmente leves e transitórios. No entanto, os eventos mais preocupantes são as anormalidades de imagem relacionadas à amiloide (ARIA), que podem causar edema cerebral ou micro-hemorragias. Em casos raros, hemorragias maiores foram relatadas, com três óbitos registrados em estudos clínicos devido a complicações relacionadas a ARIA.

O medicamento é contraindicado para pacientes com o gene ApoE ε4 homozigoto ou que usam anticoagulantes, como varfarina, devido ao risco elevado de complicações. Neurologistas recomendam ressonâncias magnéticas frequentes, especialmente nas primeiras semanas, para monitorar alterações assintomáticas.

  • Efeitos leves: Febre, dores de cabeça, mal-estar.
  • Efeitos graves: Edema cerebral, micro-hemorragias, risco de hemorragia maior.
  • Contraindicações: Uso de anticoagulantes e presença do gene ApoE ε4 homozigoto.
  • Monitoramento: Exames de imagem regulares e supervisão neurológica.

A neurologista Claudia Ramos, da USP, reforça que o tratamento exige cautela e não é indicado para todos os pacientes, sendo essencial um diagnóstico preciso com exames como PET ou análise de líquor para confirmar a presença de placas amiloides.

Avanço histórico, mas com desafios

A aprovação do donanemabe é um marco no tratamento do Alzheimer no Brasil, onde a doença afeta cerca de 60% a 80% dos casos de demência em idosos, segundo a OMS. Após mais de 20 anos sem novas terapias, o Kisunla oferece uma abordagem inovadora ao atacar a causa biológica da doença, em vez de apenas aliviar sintomas. Estudos mostram que o medicamento pode retardar o declínio cognitivo em cerca de 4,4 meses, proporcionando mais tempo de autonomia e qualidade de vida.

No entanto, desafios como o alto custo, a necessidade de infraestrutura avançada e a exigência de diagnósticos precoces limitam seu impacto. A identificação de pacientes em estágios iniciais depende de exames complexos, como PET amiloide ou análise de líquor, que não estão amplamente disponíveis. Além disso, a falta de diversidade racial e étnica nos estudos clínicos, que incluíram 91,5% de participantes brancos, levanta questões sobre a eficácia em populações brasileiras.

  • Impacto: Retarda a progressão em até 35% em casos iniciais.
  • Limitações: Exames diagnósticos caros e pouco acessíveis.
  • Diversidade: Estudos com baixa representatividade de populações não brancas.

O neurologista Paulo Caramelli, da UFMG, destaca que o donanemabe não promove melhora clínica significativa, mas reduz a velocidade de progressão, o que é um avanço relevante.

Futuro do tratamento no Brasil

A chegada do donanemabe abre novas perspectivas para o manejo do Alzheimer, mas sua implementação enfrenta barreiras estruturais. Clínicas como as da Dasa já oferecem o tratamento, mas a dependência de centros especializados e equipes multiprofissionais restringe o acesso a grandes cidades. A necessidade de ressonâncias magnéticas regulares e testes genéticos para avaliar riscos adiciona camadas de complexidade ao processo.

A Febraz e especialistas defendem a criação de programas de apoio a medicamentos de alto custo para ampliar o acesso. Enquanto isso, a Eli Lilly trabalha na aprovação de outros tratamentos, como o lecanemabe, que já é usado nos Estados Unidos e pode complementar o arsenal terapêutico. A expectativa é que, com o tempo, novas estratégias reduzam custos e facilitem o acesso a esses avanços.

  • Disponibilidade: Apenas em clínicas particulares de grandes centros.
  • Alternativas: Lecanemabe em análise pela Anvisa.
  • Demanda: Programas de acesso a medicamentos de alto custo.
  • Perspectiva: Mais opções terapêuticas nos próximos anos.

O donanemabe representa um passo importante, mas sua adoção em larga escala dependerá de esforços conjuntos entre governo, planos de saúde e a indústria farmacêutica para torná-lo acessível a todos os brasileiros afetados pelo Alzheimer.