Casos de metanol em vodca e gin sobem para 59 no Brasil; governo reforça etanol farmacêutico contra mortes em São PauloPor Luís Henrique Costa
Atualizado 7 min de leitura
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O Ministério da Saúde registrou 59 notificações de intoxicação por metanol no Brasil até esta quinta-feira (2), concentradas principalmente em São Paulo. A maioria dos casos, 53, ocorreu no estado paulista, seguido por cinco em Pernambuco e um no Distrito Federal. O ministro Alexandre Padilha destacou, em coletiva de imprensa em Brasília, que 11 desses registros já contam com confirmação laboratorial da substância tóxica.
Autoridades ligam os incidentes ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas, como vodca, gin e whisky, vendidas em adegas e bares. O governo federal instalou uma sala de situação para coordenar respostas, envolvendo ministérios da Saúde, Justiça e Agricultura, além de conselhos de secretários de saúde e a Anvisa. Essa medida visa mapear a disseminação e agilizar intervenções.
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- Principais regiões afetadas: São Paulo (53 casos), Pernambuco (5) e Distrito Federal (1).
- Casos confirmados por exame: 11, com um adicional suspeito em Brasília aguardando laudo.
A ação ocorre em meio a um aumento atípico, pois o país registrava cerca de 20 ocorrências anuais antes de agosto deste ano.

Ação imediata para distribuição de antídoto
O etanol farmacêutico atua como antídoto principal, competindo com o metanol no metabolismo hepático e reduzindo a formação de ácido fórmico, substância que agrava danos neurológicos e visuais. Padilha anunciou a compra de mais 4.300 ampolas para reforçar estoques em hospitais universitários federais. Esses suprimentos ficam disponíveis para estados e municípios que acionarem o sistema de emergência.
A Anvisa identificou 604 farmácias de manipulação aptas a produzir o etanol em grau puro para uso médico. O ministro orientou gestores locais sobre protocolos de acesso, priorizando centros de referência em toxicologia. Em São Paulo, nove desses centros já operam com capacidade ampliada.
Essa rede garante resposta rápida, especialmente em capitais, onde duas ou três farmácias por estado foram designadas para entregas urgentes.
Efeitos tóxicos demandam detecção precoce
O metanol, substância industrial usada em solventes, causa sintomas iniciais como náusea e tontura em poucas horas, evoluindo para dor abdominal intensa, confusão mental e alterações visuais entre 12 e 24 horas. A metabolização no fígado gera compostos que afetam o nervo óptico, medula e cérebro, podendo resultar em cegueira permanente, insuficiência renal ou coma.
Pacientes com suspeita devem receber atendimento em até seis horas para maximizar chances de recuperação sem sequelas. Exames laboratoriais confirmam a presença da toxina, e a hemodiálise remove resíduos em casos graves. O Brasil conta com 32 Centros de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) para orientação inicial.
Histórico de casos em São Paulo
Desde junho, São Paulo notificou 37 ocorrências, com 10 confirmadas por laudo e 27 em apuração. Seis mortes foram registradas no estado, uma delas comprovadamente ligada a bebida adulterada: um homem de 54 anos da capital que consumiu vodca em casa. Outras cinco seguem sob investigação, incluindo três na capital e duas em São Bernardo do Campo, envolvendo homens de 45 a 70 anos.
Autoridades apreenderam mais de 50 mil garrafas suspeitas em operações este ano, além de 15 milhões de selos falsos. A Vigilância Sanitária interditou seis estabelecimentos, como um bar nos Jardins e uma adega na Zona Sul, após relatos de consumo em eventos sociais.
- Bebidas mais citadas: vodca (em combos de suco), gin (em garrafas compradas) e whisky (em festas).
- Ações policiais: Lacração de 128 mil garrafas em Barueri e 802 unidades em fiscalizações gerais.
O governador Tarcísio de Freitas criou uma força-tarefa para rastrear a cadeia de distribuição.
Respostas de vítimas em internações graves
Rafael Anjos Martins, 28 anos, entrou em coma após ingerir gin comprado em adega da Cidade Dutra, na Zona Sul de São Paulo, durante reunião com amigos em 30 de agosto. Ele permanece na UTI de hospital em Osasco, dependente de aparelhos respiratórios, enquanto os demais participantes relataram visão turva e falta de ar após exames positivos para metanol.
Radharani Domingos, designer de 43 anos, consumiu caipirinhas de vodca em bar da Alameda Lorena e perdeu a visão completamente. Internada na UTI com convulsões e intubada, ela recebeu alta para quarto comum em 29 de setembro, mas segue sem previsão de recuperação oftalmológica. A irmã acompanha tratamentos experimentais para reverter o quadro.
Bruna Araújo de Souza, 30 anos, sentiu dor corporal e visão embaçada após show de pagode em São Bernardo do Campo, onde bebeu vodca com suco de pêssego. Transferida entubada para o Hospital de Clínicas local, ela permanece em estado grave, com o namorado também hospitalizado por sintomas semelhantes.
Investigação aponta rede de adulteração
A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a origem do metanol, com indícios de importação ilegal via Paranaguá e possível desvio de lotes usados em combustíveis falsificados. A Associação Brasileira de Combate à Falsificação sugere ligação com fechamento recente de distribuidoras ligadas a organizações criminosas, que podem ter redirecionado o produto para bebidas.
Em Pernambuco, três mortes suspeitas elevaram o alerta nacional, com casos ligados a consumo em festas. O Ministério da Justiça coordena com estados para mapear distribuição interestadual, enquanto a Anvisa emite alertas sobre selos fiscais e rótulos irregulares em estoques.
Autoridades recomendam evitar bebidas sem lacre de segurança ou de preço abaixo do mercado, priorizando compras em fontes verificadas.
Alternativas ao etanol em debate técnico
O fomepizol, antídoto listado pela OMS, inibe diretamente a enzima que converte metanol em toxinas, facilitando o manejo sem efeitos colaterais intensos. Não registrado no Brasil, ele exige importação, e o Ministério da Saúde negocia com produtores internacionais para criar reserva estratégica via Opas.
Essa opção complementaria o etanol, disponível em 32 CIATox, mas com estoques limitados em hospitais comuns. Notas técnicas federais orientam administração intravenosa ou oral sob supervisão, com foco em correção de acidez sanguínea.
Pesquisas globais, como na Turquia e Rússia, onde surtos semelhantes causaram centenas de mortes em 2025, reforçam a necessidade de vigilância contínua.
Prevenção em estabelecimentos comerciais
Bares e adegas devem capacitar equipes para inspecionar embalagens, rejeitando itens com tampas soltas ou coloração atípica. O Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe) rastreia lotes legítimos, e denúncias ao Disque 136 agilizam fiscalizações.
Clubes recreativos em Campinas suspenderam vendas de destilados por precaução, seguindo recomendações sindicais. Consumidores recebem orientação para relatar compras suspeitas, contribuindo para a rede de alerta rápido.
Essa abordagem coletiva visa reduzir riscos em cenas sociais, onde a adulteração ocorre sem detecção imediata.
Casos isolados revelam padrões comuns
Wesley Pereira, 31 anos, consumiu whisky em festa na Zona Sul em agosto e sofreu pneumonia, falência renal e AVC após coma. Internado no Hospital do Campo Limpo, ele luta contra perda visual permanente, com sedação reduzida para testes de despertar.
Marcelo Lombardi, advogado de 45 anos do Sacomã, faleceu por parada cardiorrespiratória após vodca comprada em adega local. O laudo confirmou metanol como causa, destacando falência múltipla de órgãos em 24 horas.
Esses episódios, de agosto a outubro, envolvem compras em pontos variados, de bairros nobres a periferias, indicando ampla circulação de produtos contaminados.















