Micos-leões-pretos formam novos grupos após manejo em São Paulo

6 min de leitura
Mico-leão-preto - diegograndi/ istockphoto.com Foto: Mico-leão-preto - diegograndi/ istockphoto.com

Nove micos-leões-pretos foram transferidos pelo IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) para um fragmento isolado de Mata Atlântica no Pontal do Paranapanema, no oeste de São Paulo, e formaram dois novos grupos mistos na região. A operação de manejo busca evitar que a população local da espécie desapareça em um prazo estimado de 10 a 20 anos.

Os resultados do trabalho, que teve seus dados atualizados nesta sexta-feira, 23 de outubro de 2026, estão descritos em um artigo publicado na revista científica internacional Global Ecology and Conservation. O documento é intitulado “Translocação como estratégia de conservação para o mico-leão-preto, espécie ameaçada de extinção: resultados, dinâmica social e uma abordagem baseada em indicadores para o manejo adaptativo”. A ação conta com o acompanhamento da Fundação Florestal, órgão estadual responsável pela gestão das unidades de conservação.

Confira também: Dryadobates caissara: cientistas da USP descrevem menor sapo do gênero em mata da Serra

Etapas da translocação de micos-leões-pretos e áreas do manejo

Os animais foram retirados de uma área maior e levados para o fragmento florestal ameaçado em duas etapas distintas, com o uso de técnicas de translocação (transferência planejada de animais de um local para outro visando à conservação). Os dados operacionais e geográficos do estudo concentram-se nos seguintes parâmetros:

Acompanhe: Projeto Jiboia do Ribeira une forças com ONG para proteger espécie em SP

  • Espécie manejada: mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus).
  • Local de origem: Parque Estadual Morro do Diabo, onde vivem cerca de 1.200 indivíduos.
  • Local de destino: fragmento florestal de aproximadamente 500 hectares no Pontal do Paranapanema, a cerca de 30 quilômetros de distância da área de origem.
  • Primeira etapa: janeiro de 2024, com a transferência de 5 animais (um casal reprodutor e três filhos jovens próximos da idade reprodutiva).
  • Segunda etapa: ano de 2025, com o envio de 4 animais (dois adultos e dois jovens).
  • Publicação científica: setembro de 2026, na revista Global Ecology and Conservation.

Morte de fêmea e reorganização social dos micos-leões-pretos

Poucos dias após a soltura do segundo grupo na mata, os pesquisadores encontraram a fêmea dominante morta. A causa exata da morte não pôde ser determinada pela equipe. O episódio alterou o comportamento dos animais e antecipou a dispersão dos indivíduos subadultos, provocando uma reorganização social antes do prazo previsto pelos cientistas.

Leia também: Ubatuba define estratégias de prevenção contra chuvas do El Niño para a temporada de verão 2026/2027

“Embora não tenha sido possível determinar a causa exata da morte, sabíamos que perdas iniciais são um risco possível em ações de manejo como essa. Ainda assim, foi um momento doloroso para todos os envolvidos. A ausência dessa fêmea alterou rapidamente a dinâmica do grupo”, declarou Gabriela Cabral Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto do IPÊ e primeira autora do estudo.

Continue lendo: Campanha Dia Laranja leva prevenção ao Super El Niño em Ilhabela

O acompanhamento dos animais em campo, realizado por meio de radiotelemetria (rastreamento por sinais de rádio) e monitoramento acústico passivo (uso de gravadores de som na mata), confirmou que a dispersão resultou em duas novas formações familiares misturando diferentes origens. O primeiro grupo é um casal composto por uma fêmea jovem transferida em 2025 e um macho levado na operação de 2024. O segundo grupo reúne um macho adulto transferido em 2025 e duas fêmeas, sendo uma vinda na translocação de 2024 e outra nativa que já habitava o fragmento florestal.

Queda populacional desde 2013 e diversidade genética do mico-leão-preto

O fragmento de 500 hectares abriga atualmente uma população estimada em menos de 18 micos-leões-pretos e registra queda no número de habitantes há pelo menos 10 anos. As análises de viabilidade populacional feitas anteriormente pelos cientistas com o software VORTEX (programa de computador que simula o risco de extinção de espécies) já projetavam essa diminuição, que foi confirmada pelas equipes em campo ao longo da última década.

“Em 2013, a gente monitorava cinco grupos no fragmento e, quando a gente fez um levantamento usando gravadores e também todo o monitoramento que a gente faz em campo, a gente começou a ver que o fragmento estava com dois, no máximo, três grupos”, explicou Gabriela Rezende. Segundo a pesquisadora, em uma população reduzida a cerca de 20 indivíduos, com baixa taxa de crescimento ou predação de filhotes, a morte de um ou dois animais por causas naturais representa a perda imediata de 10% do total de habitantes, o que acelera o risco de extinção pelo isolamento da mata.

A preservação desse grupo específico é prioritária porque análises de DNA identificaram características genéticas exclusivas nesses animais em comparação com o restante da espécie. A mistura entre os indivíduos translocados e os nativos busca manter essa variedade biológica, que amplia a capacidade de adaptação do mico-leão-preto diante de mudanças climáticas e ambientais. Até o momento da divulgação dos resultados, ainda não havia registro de acasalamento ou nascimento de filhotes nos novos grupos formados, já que a equipe faz visitas apenas em alguns dias do mês para não interferir no comportamento natural dos animais.

Corredores ecológicos e próximos passos do IPÊ no Pontal do Paranapanema

Enquanto aguardam a reprodução dos animais, que é considerada o principal indicador de adaptação ao novo ambiente, os pesquisadores atuam na conexão definitiva entre as áreas de mata. Paralelamente às transferências, o projeto Corredores de Vida, também conduzido pelo IPÊ, já plantou mais de 14,2 milhões de mudas de árvores na região para ligar fragmentos isolados, como o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto.

“Espera-se que, à medida que esses corredores ecológicos se estabeleçam, o habitat disponível para a espécie aumente mais de oito vezes, facilitando a dispersão natural e o intercâmbio genético. No entanto, até que essa conectividade seja restaurada, o reforço demográfico por meio de translocação constitui uma estratégia de curto prazo necessária”, afirmou a coordenadora do programa.

“A estratégia do manejo populacional permite que a gente ganhe esse tempo, que a gente dê mais tempo de sobrevida da população. Porque é o tempo que ela precisa para que a gente consiga, através de outras ações, garantir a sua sobrevivência no longo prazo”, disse Gabriela Rezende. Além da área atendida, o IPÊ já trabalha com outras três populações isoladas de micos-leões-pretos que necessitam de manejo, em um processo técnico que exige de dois a três anos de avaliação prévia — genética, sanitária e ecológica — das populações de origem e de destino, seguidos por pelo menos dois anos de monitoramento contínuo após a soltura dos animais.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas