Melatonina por mais de um ano eleva chances de falha cardíaca e hospitalização, mostra pesquisaPor Carolina Costa
Atualizado 4 min de leitura
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Um estudo preliminar apresentado na conferência da American Heart Association em Nova Orleans, nos Estados Unidos, analisou registros médicos de mais de 130 mil adultos com insônia crônica. Os pesquisadores identificaram que o uso de melatonina por pelo menos um ano se associa a um risco 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca ao longo de cinco anos.
A pesquisa, liderada por Ekenedilichukwu Nnadi, residente em medicina interna na SUNY Downstate, em Nova York, comparou grupos de usuários e não usuários do suplemento, ajustando por fatores como idade, sexo e condições pré-existentes.
Os resultados indicam que participantes no grupo de melatonina tiveram taxas de 4,6% de diagnóstico de insuficiência cardíaca, contra 2,7% nos não usuários. Especialistas enfatizam que a análise mostra apenas correlação, sem comprovar causalidade direta.
Metodologia da pesquisa e principais achados
Os dados vieram de registros eletrônicos globais na plataforma TriNetX, abrangendo pacientes com idade média de 56 anos diagnosticados com insônia.
Pesquisadores excluíram indivíduos com histórico prévio de insuficiência cardíaca ou uso de outros soníferos, como benzodiazepínicos, para isolar o efeito da melatonina.
- Usuários de melatonina: 90% mais risco de insuficiência cardíaca; 3,5 vezes maior chance de hospitalização (19% vs. 6,6%); quase duas vezes mais probabilidade de morte por qualquer causa (7,8% vs. 4,3%).
- Não usuários: Taxas basais mais baixas, mas ainda relevantes para monitoramento em insônia crônica.
A análise ajustou variáveis como índice de massa corporal, pressão arterial e uso de medicamentos cardiovasculares, mantendo a associação significativa.
Limitações que questionam causalidade
O estudo depende de prescrições registradas, o que pode subestimar uso over-the-counter comum em países como os Estados Unidos e o Brasil.
Faltam detalhes sobre dosagens e gravidade da insônia, fatores que influenciam riscos cardíacos, segundo especialistas como Phyllis Zee, da Northwestern Medicine.
Insônia severa ou condições subjacentes, como apneia do sono não diagnosticada, podem explicar os resultados, atuando como confundidores.
Médicos como Sujay Kansagra, do Duke Health, apontam que o risco absoluto permanece baixo em ambos os grupos, sugerindo cautela sem pânico.
O que é insuficiência cardíaca e sua prevalência
A insuficiência cardíaca ocorre quando o coração não bombeia sangue suficiente para suprir órgãos com oxigênio, afetando 6,7 milhões de adultos nos Estados Unidos, conforme estatísticas da American Heart Association de 2025.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que a condição responde por cerca de 10% das internações hospitalares cardiovasculares anuais, com aumento em populações com distúrbios do sono.
Fatores como hipertensão, diabetes e insônia crônica agravam o quadro, destacando a necessidade de abordagens integradas para saúde cardíaca e sono.
A condição progride silenciosamente em muitos casos, com sintomas como fadiga e falta de ar surgindo tarde, o que reforça a importância de avaliações regulares em usuários de suplementos.
Alternativas seguras para tratar insônia
Terapias comportamentais cognitivas para insônia representam a primeira linha de tratamento, com eficácia comprovada em estudos randomizados para melhorar padrões de sono sem riscos medicamentosos.
Estabelecimento de rotinas noturnas, como evitar cafeína após o meio-dia e manter horários fixos de sono, reduz sintomas em até 70% dos casos, segundo diretrizes da American Academy of Sleep Medicine.
Exercícios moderados diários e exposição à luz natural durante o dia ajudam a regular ritmos circadianos, diminuindo a dependência de suplementos.
Em situações pontuais, como jet lag, doses baixas de melatonina podem auxiliar, mas sempre sob orientação médica para evitar interações.
Regulamentação da melatonina no Brasil
Desde 2021, a Anvisa classifica a melatonina como suplemento alimentar, permitindo venda sem receita em farmácias e lojas especializadas.
A agência recomenda dosagens de até 0,21 mg para adultos, mas o mercado oferece variações maiores, o que levanta preocupações sobre automedicação.
Monitoramento de efeitos adversos é obrigatório, com relatos anuais à Anvisa, mas especialistas cobram mais estudos locais sobre impactos cardiovasculares em populações brasileiras.
O uso deve priorizar orientação profissional, especialmente para quem tem histórico familiar de doenças cardíacas ou insônia persistente.
Perspectivas futuras da pesquisa
Ensaios clínicos randomizados controlados são essenciais para testar causalidade, atribuindo melatonina ou placebo a grupos e medindo desfechos cardíacos em longo prazo.
Nnadi planeja submeter o trabalho para publicação em 2026, visando expandir a amostra e incluir dosagens variáveis.
Estudos prévios contraditórios, como uma análise de março de 2025 que mostrou benefícios em pacientes com insuficiência cardíaca, demandam reconciliação de evidências.
A investigação pode influenciar diretrizes globais sobre suplementos, promovendo equilíbrio entre benefícios para o sono e segurança cardiovascular.







