Um estudo recente, publicado na revista Nature em 30 de julho de 2025, revelou que infecções por vírus respiratórios, como o Sars-CoV-2 (causador da Covid-19) e o influenza (gripe), possuem a capacidade de reativar células cancerígenas que estavam dormentes no organismo. A descoberta é particularmente relevante para casos de câncer de mama, indicando um mecanismo até então pouco compreendido sobre a recidiva da doença.
Conduzida por cientistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, a pesquisa utilizou camundongos que haviam recebido células humanas de tumores inativos. Observou-se que a exposição a esses vírus levou à proliferação das células malignas, sugerindo um elo direto entre infecções comuns e o retorno do câncer.
Essa revelação ajuda a explicar por que o câncer pode ressurgir anos após um tratamento bem-sucedido e aponta para a necessidade de um monitoramento mais rigoroso em pacientes em remissão, especialmente durante períodos de surtos virais. A investigação, ainda em estágios iniciais, abre novas frentes para o desenvolvimento de terapias preventivas.
A pesquisa aprofunda o entendimento sobre o papel da resposta imunológica na reativação tumoral. Quando o corpo mobiliza suas defesas para combater infecções virais, ele libera uma série de moléculas inflamatórias, como interleucinas e interferons, que paradoxalmente podem estimular as células cancerígenas adormecidas a se multiplicar.
Mecanismos virais na reativação de tumores
A pesquisa da Universidade do Colorado concentrou seus esforços no câncer de mama, mas os resultados obtidos podem ter implicações mais amplas para outros tipos de tumores. Nos experimentos conduzidos, camundongos que haviam recebido células humanas dormentes de câncer de mama apresentaram claros sinais de reativação tumoral após serem infectados por vírus respiratórios.
O biólogo James DeGregori, um dos principais autores do estudo, descreveu os resultados como notavelmente surpreendentes, dada a clareza com que as células malignas responderam. Ele detalhou que as células não apenas despertaram de seu estado de inatividade, mas também iniciaram um processo de multiplicação acelerada, impulsionadas diretamente pela intensa inflamação gerada pelo sistema imunológico do hospedeiro.
Embora os vírus respiratórios não sejam, por si só, agentes causadores de câncer, a resposta inflamatória do corpo a essas infecções cria um ambiente bioquímico propício ao crescimento de células malignas. Esse processo é particularmente preocupante em pacientes com histórico de metástases pulmonares, onde células dormentes podem estar alojadas e se tornarem suscetíveis à reativação.
Os achados indicam que a inflamação sistêmica decorrente de uma infecção viral pode ser um fator determinante na progressão de tumores residuais.
Células dormentes e a persistência do câncer de mama
Células cancerígenas dormentes representam um dos maiores desafios na oncologia contemporânea, pois sua inatividade as torna resistentes a muitas formas de quimioterapia, que agem principalmente em células que estão ativamente se dividindo. Essas células podem permanecer em um estado quiescente por longos anos, aguardando um gatilho biológico específico para reiniciar seu crescimento. O estudo recém-publicado sugere enfaticamente que infecções virais são um desses gatilhos cruciais.
O câncer de mama permanece como o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), com uma estimativa de aproximadamente 73 mil novos casos para o ano de 2025. Embora a doença seja rara em homens, eles também podem ser afetados. A detecção precoce é um fator determinante para aumentar significativamente as chances de cura, contudo, a preocupação com a recidiva da doença persiste como um tema central na pesquisa e tratamento oncológico.
A pesquisa em questão reforça a urgência de aprofundar o conhecimento sobre os diversos fatores que podem desencadear a volta do câncer, mesmo após períodos prolongados de remissão. Além das infecções virais, outros potenciais gatilhos, como altos níveis de estresse crônico ou alterações hormonais significativas, também estão sob intensa investigação por parte da comunidade científica, visando desenvolver estratégias mais eficazes de prevenção e tratamento.
Sinais de alerta e medidas de prevenção
O autoexame das mamas é reconhecido como uma ferramenta fundamental para a detecção precoce de possíveis alterações, permitindo que as mulheres identifiquem nódulos ou outras irregularidades. Mulheres com idade acima de 40 anos, ou aquelas com histórico familiar da doença, devem realizar o autoexame regularmente, além de se submeterem a exames clínicos e de imagem, como a mamografia, conforme orientação médica. É importante ressaltar que homens também podem realizar o autoexame, uma vez que a doença, embora rara, pode afetá-los e exige atenção.
Os principais sinais e sintomas que podem indicar a presença de câncer de mama incluem:
– Nódulos endurecidos e palpáveis, que geralmente não causam dor.
– Alterações visíveis na pele da mama, como uma aparência enrugada ou de “casca de laranja”.
– Secreção incomum ou espontânea pelos mamilos, especialmente se for sanguinolenta.
– Retração ou inversão do mamilo, que antes era protuberante.
– Nódulos ou inchaços perceptíveis nas axilas ou na região do pescoço.
A prevenção do câncer de mama envolve a adoção de um estilo de vida saudável, que inclui uma alimentação equilibrada, a prática regular de exercícios físicos e a moderação no consumo de álcool. Adicionalmente, vacinas contra vírus respiratórios, como a da influenza e a da Covid-19, podem oferecer uma proteção indireta, ao reduzir o risco de inflamações sistêmicas que, segundo o estudo, podem ativar células cancerígenas dormentes.
Novas abordagens terapêuticas e monitoramento
Apesar de o estudo atual ainda se encontrar em uma fase inicial de desenvolvimento, seus resultados já abrem novas e promissoras perspectivas para a prevenção da recidiva do câncer. Os cientistas envolvidos no projeto estão agora focados em investigar e desenvolver terapias que possam bloquear eficazmente os sinais inflamatórios desencadeados por infecções virais, impedindo que atuem como gatilhos para as células dormentes.
Outra linha de pesquisa de grande potencial é a avaliação da capacidade das vacinas contra vírus respiratórios de reduzir o risco de reativação tumoral. Se confirmada, essa estratégia teria uma relevância significativa, especialmente para pacientes com histórico de câncer de mama ou outros tipos de tumores que apresentaram metástases, oferecendo uma camada adicional de proteção.
Os resultados obtidos também reforçam a importância crucial de um monitoramento mais intensivo e cuidadoso de pacientes em remissão, sobretudo durante períodos de surtos de doenças respiratórias. Estratégias como exames médicos regulares e um acompanhamento clínico mais próximo podem ser decisivos para detectar uma possível recidiva precocemente, aumentando as chances de intervenção bem-sucedida. A vigilância contínua é um pilar fundamental no manejo desses pacientes.
A importância do diagnóstico precoce do câncer de mama
O câncer de mama, quando diagnosticado em seus estágios iniciais, apresenta significativamente altas chances de cura, muitas vezes superando 90%. No entanto, a doença pode manifestar-se de forma agressiva caso atinja estágios avançados ou quando já formou metástases, espalhando-se para outras partes do corpo. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), essa neoplasia continua sendo a principal causa de morte por câncer entre as mulheres no Brasil, ressaltando a urgência da detecção precoce.
O autoexame das mamas deve ser realizado em três etapas distintas: primeiramente, em frente ao espelho, observando qualquer alteração visual; em seguida, em pé, idealmente durante o banho, palpando as mamas cuidadosamente; e, por fim, deitada, para uma palpação mais profunda. Qualquer alteração percebida, como a presença de nódulos, endurecimentos ou secreções atípicas, deve ser imediatamente investigada por um médico especialista. A mamografia, por sua vez, é recomendada anualmente para mulheres acima de 50 anos ou para aquelas que possuem fatores de risco específicos, como histórico familiar da doença.
Além disso, a presença de fatores como idade avançada, histórico familiar de câncer de mama, obesidade e o uso prolongado de terapias hormonais aumentam consideravelmente o risco de desenvolver a doença. É fundamental que homens com casos de câncer de mama na família também estejam atentos a quaisquer sinais incomuns e busquem orientação médica preventiva.
Próximos passos da pesquisa científica
Os cientistas responsáveis pela pesquisa enfatizam que os resultados obtidos, embora promissores, ainda são preliminares e necessitam de validação em estudos adicionais e mais abrangentes. Contudo, essa descoberta representa um avanço significativo para a compreensão da dormência tumoral, um fenômeno complexo que há muito desafia a oncologia. A interação intrincada entre o sistema imunológico e as células cancerígenas é multifacetada, e as infecções virais são apenas um dos muitos fatores que podem influenciar esse processo.
Futuras pesquisas estão sendo planejadas para explorar outros potenciais gatilhos inflamatórios que possam reativar células tumorais dormentes. O objetivo é desenvolver estratégias mais eficazes para proteger pacientes em remissão, minimizando o risco de recidiva. Até que novas terapias sejam desenvolvidas e validadas, a recomendação primordial para todos os pacientes é manter um acompanhamento médico regular e adotar medidas preventivas rigorosas contra infecções respiratórias, como a vacinação e a higiene pessoal.
– Novos estudos: A condução de pesquisas aprofundadas em humanos é o próximo passo essencial para confirmar os achados preliminares.
– Outros gatilhos: Fatores como estresse crônico e desequilíbrios hormonais também são investigados como potenciais reativadores de células tumorais.
– Prevenção viral: O uso contínuo de máscaras em ambientes de risco e a adesão às campanhas de vacinação podem reduzir indiretamente os riscos.


