Brics desenvolve plataforma de pagamentos sem dólar e provoca discussão global sobre autonomia financeira

BRICS

BRICS - Foto: Dilok Klaisataporn / istockphoto

Os países do Brics, grupo que inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e nações associadas, intensificaram em 2025 as discussões para a criação de um sistema de pagamentos desvinculado do dólar em transações internacionais. A iniciativa, que busca reduzir a dependência do sistema financeiro ocidental, dominado pela moeda americana e pelo Swift, ganhou força com o apoio de líderes como o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

A proposta central gira em torno do Brics Bridge, uma plataforma inovadora que pretende facilitar pagamentos baseados em moedas locais e tecnologia blockchain. Esta movimentação reflete um desejo crescente por maior autonomia financeira dentro do bloco, embora especialistas diverjam sobre sua real viabilidade e os potenciais impactos globais.

Brics – Foto: Yau Ming Low/Istock.com
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Este avanço ocorre em um cenário de tensões comerciais com os Estados Unidos, que têm sinalizado a possibilidade de tarifas contra países que desafiem a hegemonia do dólar. O Brics, com sua proposta, busca solidificar um caminho alternativo para o comércio e as finanças mundiais.

O projeto Brics Bridge e a busca por autonomia

A plataforma Brics Bridge, que foi um dos temas centrais da cúpula de Kazan, é o alicerce dessa nova proposta. Em vez de criar uma moeda única, o foco é em transações transfronteiriças com moedas locais, utilizando a segurança e a eficiência da tecnologia blockchain para processar os pagamentos.

Yuri Ushakov, assessor do Kremlin, destacou em março de 2024 que o sistema será “conveniente para governos, empresas e cidadãos, além de livre de pressões políticas”. O projeto mBridge, precursor do Brics Bridge, já alcançou um estágio viável, capaz de realizar transações reais, e conta com a adesão de novos membros, como a Arábia Saudita.

Interesses dos países membros na desdolarização

Cada nação do Brics possui razões específicas para impulsionar a criação de um sistema financeiro independente. A Rússia, por exemplo, busca um mecanismo para manter seu comércio global após o isolamento financeiro imposto pelas sanções ocidentais desde 2022.

A China, detentora da segunda maior economia do mundo, visa a internacionalização do yuan, que hoje representa uma pequena parcela do comércio global em comparação com o dólar. O Brasil, por sua vez, aposta na redução de custos de transação e no fortalecimento de laços com parceiros do Sul Global, promovendo a integração econômica.

A experiência brasileira e a ampliação do modelo

O Brasil já possui experiência com transações em moedas locais através do Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) no Mercosul. Em 2024, o país exportou R$ 3,3 bilhões para a Argentina por meio do SML, um volume ainda modesto diante da predominância do dólar em quase todas as exportações brasileiras.

O governo do presidente Lula vê no Brics Bridge uma oportunidade estratégica para expandir esse modelo, prometendo diminuir os custos de conversão cambial e minimizar a exposição a sanções externas. No entanto, a implementação em larga escala exige ajustes regulatórios e investimentos em infraestrutura.

Tensões geopolíticas e o cenário comercial

A proposta do Brics surge em um período de atritos crescentes entre o Brasil e os Estados Unidos. Em 2025, os EUA impuseram tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, um movimento interpretado como resposta à aproximação do Brasil com nações sob sanções.

O ex-presidente Donald Trump, em novembro de 2024, ameaçou sanções de 100% contra países que desafiem o dólar, intensificando o debate. No Brasil, a oposição critica a postura do governo, alertando para o risco de isolamento no cenário global, enquanto o governo defende a soberania econômica.

Barreiras econômicas e entraves técnicos

A implementação do Brics Bridge enfrenta obstáculos significativos, principalmente devido à falta de sincronia econômica entre seus membros. A China, com um PIB substancialmente maior, domina o comércio intra-bloco, gerando preocupações em países como a Índia, que teme a preponderância do yuan.

A infraestrutura financeira de algumas nações, como a África do Sul, também apresenta limitações que podem dificultar a plena adesão ao sistema. Além disso, a necessidade de sistemas interoperáveis e grandes investimentos em blockchain representa um desafio técnico considerável.

A volatilidade de moedas locais e os desequilíbrios comerciais entre os membros são outros entraves. Especialistas apontam que a ausência de um mecanismo de compensação robusto pode encarecer as transações, afastando o modelo de referências como o euro, que se baseia em uma união bancária e fiscal.

O papel da tecnologia blockchain nas transações

A tecnologia blockchain é um elemento central e inovador do Brics Bridge, permitindo transações seguras e descentralizadas. Isso reduz significativamente a dependência de intermediários financeiros ocidentais. O mBridge, testado em 2024, já demonstrou capacidade para processar transações reais entre bancos centrais.

Contudo, a adoção em larga escala exige uma harmonização regulatória complexa. Cada país precisa adaptar suas leis financeiras, um processo que pode levar anos. A liderança tecnológica da China no blockchain também levanta questões sobre a distribuição de influência dentro do bloco.

O futuro do sistema de pagamentos global

O avanço do Brics Bridge sinaliza uma mudança no equilíbrio financeiro global, com o bloco buscando maior protagonismo. A cúpula de 2026, sob liderança indiana, será determinante para os próximos passos, enquanto o Brasil continua a equilibrar sua posição em um cenário de crescente polarização econômica.

Luís Henrique Costa: Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
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