Seishi Sato caminhava por uma trilha na floresta da província de Iwate quando notou um arbusto se mexer. Dois ursos asiáticos surgiram de repente. Um deles partiu para cima dele enquanto o homem de 57 anos tentava se defender.
O incidente ocorreu em setembro. Sato escapou com arranhões profundos no braço e na coxa. Ele filmou parte do confronto e compartilhou o vídeo, que ganhou atenção nas redes. O caso ilustra o aumento acentuado nos encontros entre humanos e ursos no país.
Ataques superam todos os anos anteriores desde 2006
O Ministério do Meio Ambiente do Japão contabilizou 212 pessoas atacadas por ursos em 2023 até dezembro. Seis vítimas morreram. O número ultrapassou o recorde anterior de 158 ataques registrado em 2020. Os dados cobrem o ano inteiro, com o total ainda faltando um mês para fechar quando os números foram divulgados.
Avistamentos também cresceram. Em novembro, autoridades registraram 19.191 ocorrências em todo o território. A província de Iwate liderou com 5.158 casos, seguida por Akita, com cerca de 3.000.
- Iwate concentrou o maior número de ataques e avistamentos
- Akita registrou alta incidência de incidentes próximos a residências
- Regiões do norte do país acumularam a maioria dos registros
- Ursos asiáticos e marrons aparecem com mais frequência perto de áreas habitadas
Seishi Sato relata o momento do confronto
Sato colhia cogumelos a cerca de meia hora de caminhada da loja que administra. Ele sentiu uma presença antes de ver os animais. “Quando os vi, estava tão perto e pensei que estava em apuros”, contou à CNN.
Um urso avançou. Sato usou um galho para afastá-lo e subiu em uma árvore. O animal recuou após alguns minutos. Ele atribui a sobrevivência à reação rápida. O vídeo mostra os gritos e o esforço para repelir o ataque.
Moradores da região relatam maior tensão. Ataques ocorreram até perto de casas em vilarejos. Pessoas evitam sair sozinhas em áreas verdes.
Especialistas apontam escassez de alimento como causa principal
Ursos buscam comida com mais frequência fora das florestas tradicionais. A dieta inclui bolotas de faia, frutas e insetos. A colheita fraca de bolotas neste ano forçou os animais a descerem para áreas humanas, segundo Maki Yamamoto, professora associada da Universidade de Tecnologia de Nagaoka.
Yamamoto explica que anos de má produção acontecem, mas o padrão se repete com maior intensidade. Ursos precisam acumular gordura antes da hibernação. A falta de recursos naturais os leva a lixeiras e plantações.
Koji Yamazaki, da Universidade de Agricultura de Tóquio, reforça que os ursos evitam humanos normalmente. Mães com filhotes reagem com mais agressividade quando sentem ameaça.
Fatores demográficos ampliam o risco nas áreas rurais
O Japão enfrenta envelhecimento populacional acelerado. Muitos jovens migram para grandes cidades. Vilarejos no norte perdem moradores. Terras abandonadas viram matas densas, facilitando a aproximação dos ursos.
Em outubro, das 71 pessoas atacadas, 61 tinham mais de 60 anos. Vinte e uma tinham mais de 80. Idosos realizam atividades como coleta de cogumelos e agricultura em regiões montanhosas.
O ministro do Meio Ambiente, Shintaro Ito, anunciou apoio emergencial. O plano inclui captura de animais próximos a comunidades e assistência às províncias mais afetadas.
Medidas locais tentam conter os incidentes
Na província de Akita, autoridades oferecem recompensa de 5 mil ienes por urso capturado. Elas estudam fundo de até 15 milhões de ienes para transporte dos animais. Em Karuizawa, na província de Nagano, moradores patrulham florestas com cães.
Especialistas defendem abordagem combinada. Captura sozinha não resolve o problema, afirma Yamazaki. É preciso mapear idade, sexo e padrões de movimentação dos ursos.
Dois tipos principais habitam o país. Ursos marrons vivem em Hokkaido e podem pesar até 400 quilos. Ursos asiáticos negros, mais comuns em Honshu, pesam entre 40 e 100 quilos.
Vídeo do ataque serve como alerta
Sato mantém canal no YouTube sobre aventuras na natureza. Ele continua cauteloso após o incidente. “As pessoas estão ficando muito alertas para esta situação”, disse.
O caso ocorreu em área conhecida por presença de ursos. Especialistas recomendam fazer barulho ao caminhar, evitar sair sozinho e não deixar lixo exposto.
O fenômeno não se restringe a 2023. Avistamentos e ataques cresceram nos anos seguintes em várias prefeituras do norte. Autoridades monitoram o comportamento animal e preparam respostas adaptadas.
O equilíbrio entre conservação de ursos e segurança humana ganha relevância. O Ministério do Meio Ambiente mantém registros mensais desde 2006 para orientar políticas públicas.

