O balanço de vítimas dos potentes terremotos que atingiram a Venezuela subiu para 235 mortos, enquanto Estados Unidos e México, entre outras nações, intensificam o envio de apoio. Milhares de cidadãos ficaram feridos e centenas ainda são consideradas desaparecidas ou presas sob os escombros, gerando uma corrida contra o tempo.
A chegada de mais equipes internacionais de resgate à Venezuela foi confirmada na manhã de sexta-feira, em um esforço urgente para localizar sobreviventes e recuperar corpos das estruturas colapsadas. Os dois abalos sísmicos devastadores resultaram em um cenário de destruição generalizada e um número crescente de fatalidades.
As equipes de resgate mexicanas foram as últimas a desembarcar, conforme informado pela presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, nas redes sociais, ainda na madrugada de sexta-feira. Poucas horas antes, um major-general do Corpo de Fuzileiros Navais americano chegou a Caracas com a missão de coordenar a assistência militar dos Estados Unidos, de acordo com o Comando Sul dos EUA.
O desastre natural impõe um desafio adicional a um país que já enfrenta uma profunda crise econômica de uma década. A corrupção e a má gestão prévia deixaram a infraestrutura, o sistema de saúde e os serviços de resgate em condições extremamente precárias. A recuperação de sobreviventes é severamente prejudicada pela escassez de maquinário pesado, como tratores e escavadeiras estatais, muitos deles inoperantes devido à falta de peças e manutenção.
Os estados densamente povoados na região norte da Venezuela foram os mais atingidos. Imagens transmitidas ao vivo pela emissora estatal na sexta-feira mostraram as operações de salvamento em andamento na cidade portuária de La Guaira, capital de um estado ao norte de Caracas, onde a maioria das vítimas foi registrada, segundo autoridades de saúde.
Cenas de angústia foram observadas em La Guaira e na cidade portuária de Catia La Mar, com sobreviventes lamentando a perda de familiares e amigos. Em diversos pontos, corpos permaneceram expostos nas ruas, aguardando remoção.
📹 Un hombre busca a su hijo bajo los escombros tras los fuertes terremotos que azotaron Venezuela: "Esto es lo que quedó del edificio donde vivía mi hijo" pic.twitter.com/nkkO1yVoLW— EL PAÍS América (@elpais_america) June 26, 2026
Organizações humanitárias preparam uma resposta de grande escala para fornecer moradia provisória, água potável e itens essenciais para até 200 mil pessoas deslocadas no norte do país, conforme apurado por um representante de uma organização não governamental em Caracas.
Aumento no número de vítimas e os desafios das operações de resgate
O ministro da Saúde, Carlos Alvarado, confirmou que pelo menos 235 pessoas perderam a vida e mais de 4.300 ficaram feridas após os dois terremotos de quarta-feira, em atualização na quinta-feira. Informações anteriores do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, indicavam que mais de 200 indivíduos estavam presos sob os escombros e outros 157 continuavam desaparecidos.
A catástrofe deve testar a recente aliança entre os Estados Unidos e o governo interino da Venezuela, estabelecida após uma operação militar americana em janeiro que resultou na saída de Nicolás Maduro do poder. O Departamento de Estado americano anunciou a destinação de US$ 150 milhões para grupos de ajuda humanitária no país. Além disso, as Forças Armadas dos EUA estão mobilizando recursos na região, incluindo aeronaves e um navio de transporte anfíbio, para apoiar as ações de socorro.
A “janela dourada” para resgates é um fator crítico. O Dr. Jarone Lee, professor associado da Harvard Medical School e especialista em resposta a desastres, ressaltou que as primeiras 24 a 48 horas após um terremoto são cruciais para encontrar sobreviventes, embora a resistência possa se estender. Outros especialistas apontam para uma janela de 72 horas como o período de maior chance de salvar vidas.
Cientistas apontaram que diversos fatores geológicos contribuíram para a força destrutiva dos tremores. Os abalos ocorreram em rápida sucessão, em um fenômeno raro conhecido como “doblete”, e atingiram um vale preenchido com sedimentos soltos, o que intensifica as vibrações e, consequentemente, os danos.
O governo chinês, junto com a Cruz Vermelha da China, anunciou que fornecerá assistência humanitária de emergência à Venezuela. A informação foi divulgada por Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, durante uma coletiva de imprensa na sexta-feira.
O major-general Kevin J. Jarrard, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, chegou a Caracas para coordenar e liderar o apoio militar americano aos esforços de socorro, conforme o Comando Sul dos EUA informou nas redes sociais. O comando havia declarado anteriormente que estava mobilizando recursos significativos, como aviões de transporte e helicópteros, para auxiliar as equipes de busca e salvamento e entregar ajuda.
Regiões costeiras da Venezuela enfrentam vasta destruição após os abalos sísmicos
Evidências em fotos e vídeos revelam que a área costeira ao norte de Caracas sofreu alguns dos mais severos impactos dos terremotos que atingiram a Venezuela na quarta-feira.
O ministro da Saúde, Carlos Alvarado, atualizou o número de mortos para 235 até as 19h, informando à emissora estatal VTV que mais de 4.300 pessoas ficaram feridas, a maioria com lesões leves. Ele destacou que a maior parte das vítimas estava concentrada no estado de La Guaira, um dos mais atingidos.
O Comando Sul dos militares americanos comunicou a mobilização de forças disponíveis na região para apoiar as operações de socorro na Venezuela. A declaração incluiu o envio do USS Fort Lauderdale, um navio de transporte anfíbio, e do USS Billings, uma embarcação de combate projetada para operar em águas costeiras rasas.
Aviões de transporte C-17 e C-130, acompanhados de helicópteros e ativos de reconhecimento, darão suporte a essas iniciativas. O SOUTHCOM esclareceu em comunicado que a missão envolveria a avaliação de danos, a localização de sobreviventes e a distribuição de assistência humanitária.
Em um gesto de solidariedade, jogadores e técnicos venezuelanos da Major League Baseball usaram bonés de seus times bordados com “VZ” na quinta-feira, em homenagem às vítimas. Mais de 6% dos atletas nos elencos do Opening Day deste ano nasceram na Venezuela, um país que nutre grande paixão pelo beisebol e conquistou o título mais recente do World Baseball Classic, um momento de orgulho nacional.
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, informou a jornalistas que 68 cidadãos espanhóis estão desaparecidos na Venezuela após os tremores.
O Vaticano anunciou a doação de 100 mil euros em auxílio à Venezuela, segundo o Vatican News. O montante, coordenado por meio de autoridades eclesiais locais, constitui um “primeiro passo”, e novas ajudas serão enviadas “em resposta às necessidades identificadas pela Igreja local”.
Entenda os fatores que influenciam a sobrevivência sob escombros
Não existe um prazo exato e definitivo sobre o tempo que uma pessoa pode sobreviver presa sob escombros após um terremoto, de acordo com pesquisas e orientações de especialistas.
Para indivíduos que ficam presos em edificações colapsadas, as chances de sobreviver dependem de uma variedade de fatores, como a gravidade dos ferimentos, a disponibilidade de alimentos e água, a altura da estrutura e a possibilidade de respirar.
As autoridades venezuelanas estimam que centenas de pessoas ainda podem estar soterradas sob os escombros após os potentes terremotos de quarta-feira. Organizações comunitárias locais e socorristas, auxiliados por familiares, vizinhos e voluntários, buscam incessantemente por sobreviventes, enquanto equipes adicionais de várias nações se unem aos esforços.
As primeiras 24 a 48 horas após um tremor são consideradas cruciais para encontrar pessoas com vida, segundo o Dr. Jarone Lee, professor associado da Harvard Medical School e experiente em respostas a desastres. Outros especialistas defendem uma “janela dourada” de 72 horas para salvar o maior número possível de vidas.
Contudo, a esperança por vezes supera essas projeções. Em 2023, dois irmãos turcos foram resgatados após resistirem cerca de oito dias sob os escombros. Naquele ano, um terremoto na fronteira entre a Síria e a Turquia causou a morte de mais de 50 mil pessoas, conforme estimativas da Organização das Nações Unidas.
“As probabilidades de encontrar sobreviventes em um prédio que desabou após cinco a sete dias são raras, mas não impossíveis”, afirmou o Dr. Lee, reforçando a complexidade dos resgates.
Em alguns casos, o colapso de edifícios pode criar “bolsões” ou “vazios” onde os sobreviventes ficam presos sem serem esmagados. Nesses espaços, dependendo da disponibilidade de ar, água e alimentos, as pessoas podem resistir por dias ou até semanas, embora tais ocorrências sejam incomuns. Aqueles que ficam presos sem ferimentos graves ainda enfrentam riscos como a exposição aos elementos e a falta de recursos básicos. O ar saturado de poeira também pode causar asfixia.
O clima da Venezuela, relativamente quente, minimiza a preocupação com mortes por hipotermia para quem está sob os escombros, como observou Ilan Kelman, professor que pesquisa desastres e saúde no University College London. No entanto, os recursos médicos do país, que já sofriam com escassez frequente de bens básicos nos últimos anos, estavam sobrecarregados mesmo antes dos abalos.
O Dr. Lee também alertou que algumas mortes podem ocorrer imediatamente após os tremores, quando indivíduos tentam resgatar familiares, adentrando estruturas que ainda estão instáveis.
Outro risco significativo para as equipes de socorro é a possibilidade de réplicas. Com base em dados históricos de décadas, o Serviço Geológico dos Estados Unidos previu a probabilidade de pelo menos uma réplica de magnitude 5,0 ou superior na próxima semana.
A qualidade da infraestrutura desempenha um papel fundamental na letalidade do colapso de um edifício. Imagens da destruição na Venezuela sugerem que muitas das edificações que desabaram eram construídas com concreto frágil, sem o devido reforço de aço, explicou Christian Málaga-Chuquitaype, engenheiro estrutural do Imperial College London com especialização em resiliência sísmica.
O Dr. Kelman defendeu que as mortes em terremotos devem ser vistas mais como consequência de decisões políticas anteriores do que como tragédias naturais inevitáveis.
“Terremotos não matam pessoas, o colapso da infraestrutura sim”, declarou ele, enfatizando a importância de estabelecer e fazer cumprir padrões de segurança em construções e de preparar a população para tais eventos.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários previu um aumento no número de vítimas à medida que as equipes de emergência prosseguem com as operações de busca ininterruptas. O apoio internacional, segundo a agência, está sendo mobilizado rapidamente, com equipes de busca e salvamento a caminho de diversos países.
Abrigos temporários foram montados para os moradores deslocados, informou a ONU, mencionando grandes interrupções nos serviços de eletricidade, água e telecomunicações, além dos sistemas de transporte.
A Virginia Task Force 1, uma equipe de busca e resgate sediada em Fairfax, nos EUA, ainda não havia partido para a Venezuela, conforme John Morrison, porta-voz da força-tarefa. O atraso ocorreu porque o Departamento de Estado americano, responsável por coordenar o envio de equipes de resposta a desastres, ainda não confirmou se aeronaves de grande porte poderiam pousar no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, próximo a Caracas.
Vídeos verificados pelo Times mostraram cenas de tumulto no aeroporto na quarta-feira, quando o terremoto sacudiu a estrutura, levantando nuvens de poeira e causando a queda de tetos. O aeroporto, que possui três pistas, está localizado em La Guaira, a província mais afetada pelo tremor. A equipe da Virgínia inclui 80 pessoas e seis cães de busca.
Desastre natural na Venezuela testa aliança recente com os Estados Unidos
O pior desastre natural que a Venezuela enfrenta em décadas coloca à prova a complexa aliança do país com os Estados Unidos. A tragédia surge como um obstáculo inesperado na estratégia de Washington para reconfigurar a nação sul-americana em um protetorado econômico.
Anteriormente, o ex-presidente Donald Trump havia classificado a operação militar que afastou o presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder como um sucesso, afirmando que ela redirecionou o fluxo de petróleo e ouro venezuelanos para os Estados Unidos.

