Após IPCA+, Tesouro Selic pode ser próximo a pagar taxa mais alta; entendaPor Carolina Costa
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A dinâmica de captação da dívida pública brasileira tem sofrido alterações significativas, impulsionadas por uma percepção fiscal deteriorada. Atualmente, mais da metade do montante em mercado, especificamente 50,1%, está vinculada à taxa Selic. Esse percentual representa um aumento considerável em relação aos cerca de 41% registrados há três anos. A mudança aponta para uma preferência do Tesouro Nacional em trocar títulos de longo prazo e prefixados por papéis pós-fixados, indexados à taxa básica de juros, o que gera implicações diretas para os investidores na terça-feira, 22 de julho de 2026.
Para atrair novos investidores, o governo deverá oferecer condições mais vantajosas para as LFTs, os títulos do Tesouro Selic. Essa é a projeção de Ricardo Gallo, sócio da Ethica Serviços Financeiros. Ele sugere que esses papéis precisarão pagar entre 102% e 103% do CDI, um valor superior aos aproximadamente 0,10% ao ano que atualmente remuneram acima da Selic. “Eu não estou falando de 110% do CDI, mas estou falando de 102% ou 103%”, destacou Gallo.
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Um indicativo claro dessa mudança de cenário foi o recente cancelamento de leilões, um evento incomum que chamou a atenção do mercado. O UBS aponta que esses episódios ocorrem quando as taxas demandadas pelos investidores divergem da estratégia do Tesouro. Diante disso, o governo se vê compelido a diminuir a oferta e a usar seu colchão de liquidez. Embora não haja uma dificuldade imediata de rolagem da dívida, as condições de financiamento têm piorado de forma progressiva, conforme ressaltado pela equipe de macroeconomia do UBS Wealth Management, liderada por Solange Srour, em um relatório recente.
Conforme dados do Tesouro compilados pelo JPMorgan, o prazo médio da dívida pública em maio estava em 47,5 meses, mostrando-se quase estável em comparação com os 48,9 meses do ano anterior. Esse período se manteve graças às novas emissões de LFT, cujos prazos médios aumentaram de 68,5 para 73,6 meses. Contudo, nas ofertas de títulos prefixados, o prazo médio foi reduzido de 43,3 para 31,8 meses, enquanto nas NTN-B, caiu de 98,5 para 87,8 meses. O Tesouro continua buscando alongar os vencimentos, mas predominantemente por meio de títulos que não fixam o custo da dívida.
Desafios na procura por títulos NTN-B (Tesouro IPCA+) no mercado
No mercado, a demanda pelos títulos NTN-B, os papéis que o Tesouro mais almejava vender, diminuiu consideravelmente. Esses títulos (Tesouro IPCA+) oferecem a inflação somada a uma taxa fixa, que pode chegar a 8% ao ano atualmente. Ricardo Gallo explica que o público-alvo natural para esses papéis sempre foi o dinheiro de aposentadoria, representado por fundos de pensão e previdência, que possuem compromissos de longo prazo e se beneficiam de títulos corrigidos pelo IPCA. Ele estima esse volume de recursos em aproximadamente R$ 3 trilhões. Nos últimos dois anos, no entanto, esses fundos registraram um crescimento quase nulo, em parte devido a alterações na tributação dos planos de previdência.
Além disso, os investidores estrangeiros demonstram maior interesse em papéis prefixados e pouca atração por títulos de longo prazo indexados à inflação brasileira. De acordo com o JPMorgan, estrangeiros detêm cerca de 10% da dívida pública, porém são responsáveis por 42% do estoque de NTN-Fs e 28% das LTNs, em contraste com apenas 3% nas NTN-Bs. Em maio, o banco registrou uma saída de capital estrangeiro justamente dos títulos NTN-B, os mesmos que o Tesouro tenta emitir com prazos mais alongados.
Restam as pessoas físicas e fundos especializados, cujos volumes são insuficientes para absorver a quantidade de títulos que o Tesouro precisa emitir. Somente em NTN-Bs, a emissão líquida atingiu R$ 417 bilhões em 2025 e tem projeção de alcançar R$ 590 bilhões em 2026, segundo o JPMorgan. Gallo esclarece que a questão não reside na desconfiança sobre a solvência do governo. “O pessoal não está falando ‘estou com medo de emprestar para o governo, porque o governo não vai quebrar’. O pessoal simplesmente não tem capacidade de absorver esse risco”, conclui o especialista.















