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A retatrutida, um promissor medicamento para tratamento da obesidade, está sendo comercializada ilegalmente no Brasil, apesar de não possuir aprovação para venda em nenhum país do mundo. Atualmente, a única forma legítima de receber uma dose da substância é participar de um dos estudos clínicos conduzidos pela Eli Lilly, a farmacêutica responsável pela molécula, que ainda está em fase de pesquisa.

Canetas supostamente contendo retatrutida são anunciadas em plataformas online, redes sociais e têm sido alvo de apreensões nas fronteiras brasileiras. Este comércio paralelo acontece meses antes de a própria empresa finalizar as pesquisas necessárias para o registro oficial do produto.

As apreensões realizadas pela Receita Federal e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), principalmente na fronteira de Foz do Iguaçu, demonstram a escalada do problema. Somente nos primeiros três meses de 2026, o valor de R$ 11 milhões em produtos foi retido, superando o total apreendido em todo o ano de 2025 e indicando a rápida expansão desse mercado clandestino.

Em março de 2026, antes mesmo de a Eli Lilly divulgar resultados consolidados dos estudos, uma empresa no Paraguai já promovia a produção de canetas com a substância em um evento com influenciadores brasileiros.

Os primeiros dados substanciais sobre a retatrutida foram divulgados em junho de 2026. Um estudo publicado na revista The Lancet apontou uma perda média de 28,3% do peso corporal em pacientes com diabetes tipo 2 que receberam a dose mais alta do medicamento.

Durante a apresentação desses resultados no congresso da Associação Americana de Diabetes, os representantes da própria Eli Lilly já expressavam preocupação com a circulação ilegal da substância antes de sua existência oficial.

O alerta formal da Anvisa veio em 24 de julho de 2026, quando a agência confirmou que a retatrutida permanece em desenvolvimento clínico e não teve pedido de registro apresentado nem no Brasil nem em qualquer outro país.

Processo de aprovação da retatrutida e as etapas que faltam

Estar em fase avançada de testes não significa que o medicamento está próximo de ser disponibilizado ao público nas farmácias.

Conforme a Anvisa, antes de solicitar a aprovação a qualquer órgão regulador, a Eli Lilly precisa concluir uma série de estudos. Essas pesquisas são fundamentais para determinar a dose ideal que equilibra benefício e risco, identificar todos os efeitos adversos, incluindo complicações raras em grupos maiores, definir contraindicações e interações com outros remédios, além de confirmar a manutenção do efeito sobre o peso a longo prazo.

Somente após a conclusão dessas etapas a empresa pode iniciar o processo de registro. As agências reguladoras, então, analisam a composição do produto, o método de fabricação e os padrões de controle de qualidade da planta produtora. Até o momento, nenhuma dessas exigências foi cumprida, o que significa que qualquer produto vendido atualmente como retatrutida precede a própria legalidade do medicamento.

Em comunicado enviado em 24 de julho de 2026, a Eli Lilly corroborou o estágio atual da pesquisa, afirmando que a retatrutida está na fase 3 dos estudos clínicos e “ainda não foi avaliada ou aprovada por nenhuma autoridade regulatória no mundo”. A empresa enfatizou que “ninguém pode comercializar o produto”.

A farmacêutica considera prematuro especular sobre os prazos de aprovação ou comercialização, reiterando que a molécula “somente será considerada para submissão regulatória após a conclusão e avaliação dos estudos clínicos”, deixando claro que não há previsão para o lançamento do medicamento no mercado.

Entenda o funcionamento e a composição da retatrutida

A retatrutida pertence à mesma categoria de medicamentos que inclui o Ozempic, o Wegovy e o Mounjaro, mas seu mecanismo de ação é distinto, o que a torna um avanço na área.

Enquanto a semaglutida atua no hormônio GLP-1 e a tirzepatida combina GLP-1 e GIP, a retatrutida opera simultaneamente em três receptores, adicionando o glucagon aos outros dois.

Os hormônios GLP-1 e GIP são liberados pelo intestino após as refeições, sinalizando saciedade ao cérebro e auxiliando o pâncreas no controle da insulina. O glucagon, por sua vez, é o diferencial da retatrutida, pois estimula o organismo a consumir mais energia, mesmo em repouso.

Os pesquisadores acreditam que essa ação tripla pode amplificar tanto a redução de peso quanto os efeitos metabólicos, superando os resultados de medicamentos que agem em apenas um ou dois desses mecanismos.

O estudo de fase 3 TRIUMPH-1, que investigou mais de 2,3 mil adultos com obesidade ou sobrepeso associado a alguma comorbidade, oferece os dados mais consistentes até o momento. Entre os participantes que receberam a dose mais elevada, de 12 mg, observou-se uma perda média de 28,3% do peso corporal em 80 semanas, o que corresponde a até 31,9 kg.

Quase metade do grupo alcançou uma redução de pelo menos 30% do peso inicial, um patamar comparável a certas cirurgias bariátricas. Aproximadamente 65% dos participantes deixaram de ser classificados com obesidade pelo Índice de Massa Corporal (IMC) ao término do período. Em pacientes com obesidade mais severa que continuaram em uma extensão do estudo por 104 semanas, a perda média chegou a 38,5 kg.

Um estudo adicional, publicado na Lancet, envolvendo 930 adultos com diabetes tipo 2, revelou resultados semelhantes de perda de peso e uma redução do açúcar no sangue que foi mais que o dobro da observada no grupo placebo.

A mesma pesquisa apontou melhorias significativas em outras condições, como reduções de 60,6% na gravidade da apneia do sono e de até 73,1% na dor da osteoartrite no joelho entre os participantes afetados. Houve também melhorias em indicadores de risco cardiovascular, incluindo circunferência abdominal, triglicerídeos, pressão arterial e inflamação sistêmica.

Os efeitos adversos mais frequentemente relatados foram de natureza gastrointestinal, como náusea, diarreia, constipação e vômitos. A taxa de abandono do tratamento aumentou proporcionalmente à dose administrada: 4,1% para 4 mg, 6,9% para 9 mg e 11,3% para 12 mg, em comparação com 4,9% no grupo placebo.

Foram também notadas alterações sensoriais leves e um aumento na incidência de infecções urinárias em alguns participantes, efeitos que foram classificados pela fabricante como leves a moderados.

Riscos de segurança e origem desconhecida das doses ilegais

Fora dos testes oficiais, a retatrutida não é fabricada industrialmente em nenhum país, o que transforma completamente os perigos associados ao seu uso clandestino.

Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que a principal preocupação reside na composição e na origem do produto comercializado. Ele destaca que a retatrutida é uma molécula complexa e um composto estéril, o que levanta sérias dúvidas sobre a segurança dos produtos ilegais.

Segundo o especialista, o problema não se restringe à ausência de eficácia. Envolve riscos de contaminação por outras substâncias, a presença de componentes desconhecidos, contaminação bacteriana – um perigo particular para um composto que exige esterilidade – e a imunogenicidade, ou seja, a capacidade do organismo de desenvolver uma resposta alérgica ou imunológica severa à molécula.

Macedo recorda que toda nova molécula dessa categoria é submetida a testes rigorosos e obrigatórios para verificar a formação de anticorpos contra a própria substância, pois reações podem ser graves.

“Existe a síndrome de Stevens-Johnson, que faz uma reação cutânea grave, descamativa, que pode acontecer por causa de medicamentos”, alerta ele.

O médico também menciona os riscos relacionados à cadeia de conservação térmica. Sem a refrigeração adequada, o produto pode ter suas substâncias precipitadas, gerando reações alérgicas ou produzindo compostos tóxicos que afetam órgãos como fígado, coração e cérebro, além de causar inflamações locais.

Para Macedo, o ingrediente farmacêutico ativo utilizado nessas canetas clandestinas geralmente provém de produções alternativas em países que desconsideram as exigências de patente. Ele classifica a situação como “um absurdo, porque é uma medicação com potencial absurdo e é a bola da vez”, em referência ao interesse gerado pela substância.

Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da SBEM, enfatiza que a retatrutida ainda não foi lançada nem mesmo pelo laboratório detentor da patente.

“Realmente não dá para ter ideia do que tem lá dentro dessa caneta”, afirma. “Não há como saber a concentração real, se há resíduos do processo de fabricação nem se a substância presente na caneta é, de fato, a retatrutida.”

Valente aponta que os riscos mais imediatos incluem:

  • sintomas gastrointestinais importantes;
  • possível mistura com outras substâncias (como semaglutida, tirzepatida ou até vitaminas que alterem a velocidade de absorção);
  • risco aumentado de pancreatite, já que uma perda de peso superior a 1 kg por semana pode elevar a probabilidade de formação de cálculos na vesícula.

Ele reforça que o uso da substância sem acompanhamento médico agrava ainda mais a situação, dada a ausência de avaliação laboratorial, monitoramento da composição corporal e orientação sobre alimentação e hidratação – cuidados essenciais em tratamentos com medicamentos já aprovados.

Empresa confirma impurezas e perigos em versões falsificadas

A própria Eli Lilly, por meio de nota, confirma os riscos descritos pelos médicos especialistas, reiterando a gravidade do cenário.

A farmacêutica qualifica o mercado ilegal de produtos falsificados para tratamento de obesidade como “criminoso e perigoso”, aconselhando “enfaticamente” que os pacientes o evitem e solicitando às autoridades que intensifiquem as ações de combate.

Segundo a empresa, os indivíduos que optam por esses produtos “não têm qualquer garantia sobre o que esses produtos contêm ou sobre as condições de segurança em que foram fabricados”, expondo-se a perigos desconhecidos.

A Eli Lilly já identificou, em produtos falsificados para obesidade, contaminação bacteriana, endotoxinas —substâncias tóxicas presentes na membrana de certas bactérias— e outras impurezas. A empresa ressalta que problemas relacionados à segurança, esterilidade e eficácia “têm sido amplamente reportados”.

A farmacêutica recomenda que os medicamentos sejam adquiridos exclusivamente de fontes confiáveis, como farmácias licenciadas, e afirma que continua colaborando com as autoridades públicas, incluindo a Anvisa, para combater a promoção e a venda desses produtos irregulares.

O Paraguai permanece como a principal origem do mercado paralelo de medicamentos da classe GLP-1 – um grupo de hormônios intestinais que influenciam o apetite e a saciedade – que chega ao Brasil, resultando em apreensões diárias pela Receita Federal e Anvisa na fronteira de Foz do Iguaçu.

Nos três primeiros meses de 2026, o montante apreendido de produtos irregulares já ultrapassou R$ 11 milhões, valor superior ao registrado em todo o ano de 2025. A Anvisa alerta que adquirir ou utilizar medicamentos sem registro sanitário representa não apenas um risco à saúde, mas a comercialização de produtos irregulares também pode configurar crime.

Recomendações da Anvisa e da Lilly enquanto não há liberação

Para aqueles que buscam tratamento para obesidade ou diabetes tipo 2 atualmente, a orientação conjunta da Anvisa e da Eli Lilly é clara: não comprar nem utilizar, sob nenhuma circunstância, produtos vendidos como retatrutida fora dos estudos clínicos oficiais.

Medicamentos da mesma classe que já são aprovados e registrados no Brasil – como os que contêm semaglutida (Ozempic, Wegovy) ou tirzepatida (Mounjaro) como princípio ativo – continuam sendo as opções disponíveis, devendo ser avaliados por um médico, considerando o histórico de saúde, outras condições e riscos individuais de cada paciente. Nenhuma informação atualmente disponível sobre a retatrutida substitui essa avaliação profissional.

A Eli Lilly não divulgou uma data para a conclusão de seu programa de estudos nem para a apresentação do pedido de registro às agências sanitárias. Até que isso ocorra, a lacuna entre o que a pesquisa científica já demonstra e o que o mercado ilegal promete continuará a ser preenchida por produtos sem qualquer controle de origem, dose ou segurança, representando um grave perigo à saúde pública.

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Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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