Discord detalha medidas à ANPD após ordem para suspender lives no Brasil
A plataforma Discord encaminhou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) na noite de 14 de agosto de 2026 as informações solicitadas pela entidade reguladora. O envio ocorreu após a deliberação da agência pela interrupção das transmissões ao vivo da plataforma em território brasileiro.
Em seu comunicado, o aplicativo garantiu que trabalha constantemente para oferecer um ambiente digital seguro e propício à saúde dos usuários, repudiando qualquer conduta que envolva violência, automutilação ou estímulo a ações prejudiciais.
Entre os pontos levantados à agência, o Discord defende que a criptografia utilizada em suas comunicações inviabilizou o bloqueio prévio de conteúdo. Além disso, a empresa aponta que avaliações técnicas preliminares indicam que o desfecho trágico do suicídio da adolescente de 13 anos não teria sido consumado na própria plataforma.
O Discord representa uma ferramenta de comunicação muito popular entre os entusiastas de jogos online e jovens. A empresa tem enfrentado diversas críticas e investigações ligadas a deficiências na moderação de conteúdo e na fiscalização da idade dos participantes.

Em 12 de agosto de 2026, a ANPD havia estabelecido a interrupção das transmissões ao vivo do Discord em todo o Brasil. Essa medida não implica a suspensão completa da plataforma, mas restringe-se exclusivamente à funcionalidade de “lives”.
Mais sobre o assunto: ANPD suspende lives do Discord por falta de segurança após morte de adolescente
A empresa dispunha até 14 de agosto de 2026 para acatar a resolução da agência e suspender as transmissões. Além disso, foi concedido um prazo de 10 dias adicionais para a apresentação de um recurso e para detalhar os sistemas de proteção a crianças e adolescentes implementados no aplicativo.
A ANPD, órgão regulador ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, possui entre suas competências a responsabilidade de assegurar a proteção dos dados pessoais dos cidadãos.
Principais justificativas enviadas pela plataforma à agência
No documento enviado, os representantes legais da empresa listaram os seguintes métodos de controle e segurança:
- Mecanismos de verificação de idade: o Discord assegura que, em casos de verificação etária não conclusiva, as contas são automaticamente submetidas às “restrições padrão aplicáveis ao público adolescente”.
- Ferramenta de controle parental: a empresa menciona a “Central da Família”, um recurso que, conforme o Discord, possibilita aos responsáveis supervisionar servidores integrados, contatos de amigos e o tempo de utilização dos jovens, além de impor limites a operações financeiras e contatos com pessoas desconhecidas.
Em relação às questões levantadas pela agência e ao episódio de uma adolescente de 13 anos supostamente induzida ao suicídio dentro da plataforma, o Discord apresentou as seguintes alegações:
- As transmissões que levaram à medida preventiva aconteceram em um grupo privado, e o Discord atuou de forma célere após ser notificado pelas autoridades policiais.
- Para justificar a ausência de bloqueio prévio das imagens, o aplicativo afirmou que as chamadas de voz e vídeo possuem criptografia, o que impede o acompanhamento direto do conteúdo transmitido ao vivo.
- A empresa salientou que depende de notificações de usuários, sistemas de inteligência artificial e alertas de autoridades para identificar conteúdos problemáticos.
- O Discord solicitou que a ANPD considerasse o evento como um caso isolado, argumentando ter implementado todas as ações emergenciais pertinentes.
Investigação sobre caso de suicídio de adolescente de 13 anos
Na semana anterior aos fatos, a primeira-dama Janja da Silva havia se manifestado, defendendo a remoção “imediata” da plataforma Discord.
Ela mencionou o episódio de uma jovem de 13 anos que, supostamente, foi coagida por um grupo de adolescentes a cometer suicídio durante uma transmissão ao vivo dentro do aplicativo.
O incidente resultou em uma operação da Polícia Federal, iniciada em 4 de agosto de 2026. A ação policial deteve cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, e um homem de 18 anos. O líder do grupo criminoso, um jovem de 14 anos, foi apreendido no Rio de Janeiro.
O Discord forneceu explicações sobre o ocorrido e alegou no documento que houve a “remoção integral do canal e a suspensão das contas envolvidas em menos de 25 minutos”.
A empresa reiterou que avaliações técnicas iniciais apontam que o ato consumado não foi veiculado pela plataforma, e que foram compartilhados dados e registros com os responsáveis pela investigação.
Crescimento de denúncias e crimes associados ao Discord
Entretanto, documentos do Ministério da Justiça e Segurança Pública revelam que a utilização do Discord em atividades criminosas não se limita ao episódio que motivou a decisão da ANPD.
Conforme um documento remetido pelo ministério ao Congresso há aproximadamente duas semanas, foram contabilizadas pelo menos sete operações policiais, entre 2023 e 2026, relacionadas a crimes que envolveram o uso da plataforma.
O documento detalha que o Ciberlab, uma estrutura do Ministério da Justiça dedicada à análise de ameaças no espaço digital, tem constatado repetidamente a utilização de servidores e comunidades do Discord para a troca de materiais vinculados a crueldade contra animais, automutilação, estímulo ao suicídio, exibição de violência explícita, propagação de ideologias extremistas, cyberbullying organizado e coerção psicológica.
Adicionalmente, o ministério mencionou transmissões ilegais que envolviam vítimas em situação de vulnerabilidade, incluindo menores de idade.
O documento do Ciberlab, órgão do Ministério da Justiça, afirma: “O CIBERLAB tem identificado, de forma recorrente, a utilização de servidores e comunidades hospedadas na plataforma Discord para compartilhamento e conteúdos relacionados a crueldade contra animais, automutilação, incitação ao suicídio, exposição de violência gráfica, disseminação de ideologias extremistas, cyberbullying organizado, coerção psicológica e transmissões ilícitas envolvendo vítimas vulneráveis, inclusive menores de idade”.
O Ministério da Justiça informou, ainda, que, segundo a Polícia Federal, há investigações em curso sobre a utilização de plataformas digitais, incluindo o Discord, para a execução de variados delitos.
Dentre os crimes mencionados, encontram-se delitos de ódio, instigação à automutilação, exploração sexual, cyberbullying e outras ações violentas. O ministério ressaltou que crianças e adolescentes frequentemente figuram nas investigações tanto na condição de vítimas quanto de perpetradores.
Decisão da ANPD sobre a suspensão das transmissões ao vivo
A ANPD havia determinado em 12 de agosto de 2026 a interrupção das transmissões ao vivo do Discord em território nacional. A medida, de caráter preventivo, concedeu à plataforma um prazo de três dias úteis para o cumprimento da determinação.
É importante esclarecer que essa ação não representa a suspensão total do Discord no Brasil, mas foca exclusivamente na ferramenta de transmissões ao vivo.
Conforme a agência, a interrupção permanecerá em vigor até que o Discord demonstre ter implementado ações eficazes para proteger crianças e adolescentes durante a utilização de seus serviços.

















