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Mix Vale

Todos possuem um prato favorito, frequentemente ligado a lembranças da infância, laços familiares ou à cidade de origem. No entanto, certas localidades e regiões brasileiras se destacam por uma gastronomia tão singular que dificilmente é encontrada em outras partes do mundo.

Muitas dessas iguarias carregam consigo uma rica história e uma cultura local, fazendo com que o verdadeiro sabor e a forma correta de preparo sejam plenamente compreendidos apenas pelos habitantes da região. Contudo, para quem vem de fora, é comum que esses pratos gerem estranhamento devido a ingredientes incomuns ou métodos de preparo singulares.

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Com o objetivo de explorar essa diversidade, um levantamento percorreu o Brasil de norte a sul para apresentar pratos que podem despertar a curiosidade dos visitantes. Uma surpresa adicional espera o leitor ao final da lista.

Quibe de arroz: uma adaptação culinária do Acre com ingredientes locais

Embora a existência do Acre seja por vezes questionada em tom de brincadeira, poucos teriam a chance de experimentar o singular quibe de arroz. Esse salgado acreano, que se inspira no quibe do Oriente Médio, é preparado com arroz, macaxeira e trigo, em substituição ao triguilho original. O recheio mantém a carne bovina moída com ervas e o quitute é moldado e frito por imersão, assim como a versão árabe.

A razão para usar arroz e macaxeira, também conhecida como mandioca ou aipim, em vez do triguilho, é prática. Com a chegada dos primeiros imigrantes ao Acre, que trouxeram influências da culinária oriental, a falta de acesso e recursos para adquirir os ingredientes originais levou à busca por alternativas. O arroz provou ser a melhor adaptação. Uma similar substituição ocorreu com o charuto árabe, onde a folha de uva foi trocada por repolho ou couve na versão acreana, evidenciando a criatividade local diante da escassez.

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Sopa de turu na Ilha de Marajó: o molusco exótico que vira iguaria paraense

O caldo, também chamado de sopa de turu, não possui relação com a famosa canção de Sandy & Junior, mas sim com um alimento ancestral dos indígenas nativo-americanos. O turu, um molusco de aparência vermiforme, é conhecido por outros nomes como teredo, gusano, busano ou cupim-do-mar. Sua característica é alimentar-se da madeira de árvores caídas e em decomposição nos manguezais. Esse hábito alimentar indígena foi transmitido aos moradores do Pará, onde o turu se tornou um ingrediente culinário.

Atualmente, os turus são o destaque desta que é considerada uma das principais iguarias do Pará. Aqueles que se sentem apreensivos em experimentar deveriam reconsiderar, pois muitos que provaram descrevem o sabor como delicioso, superando até mesmo ostras e escargots. O caldo é preparado com alho, cebola, tomate, pimentões, limão e ervas diversas. Além disso, o molusco pode ser consumido cru, acompanhado de sal e limão. A questão é: você teria a coragem de provar?

Sopa de turu na Ilha de Marajó - Instagram/javpavletic
Sopa de turu na Ilha de Marajó – Instagram/javpavletic

A tradicional buchada de bode: um clássico do Nordeste com raízes portuguesas

Para os habitantes do Nordeste brasileiro, o prato é simplesmente ‘buchada’, uma iguaria extremamente típica e valorizada na região. Sua preparação envolve tripas e outras partes do estômago de bode, que são cuidadosamente lavadas, fervidas, picadas e temperadas. Esses miúdos são então inseridos em uma ‘bolsa’ confeccionada com o próprio estômago do animal e cozidos em conjunto. Existem, ainda, variações que utilizam vísceras de boi ou carneiro.

Conforme a tradição, ingredientes como rins, pulmões, baço e fígado não são incluídos, pois são elementos que caracterizam o sarapatel. No entanto, muitos cozinheiros flexibilizam essa regra para enriquecer o sabor, a variedade e o aproveitamento dos miúdos. A técnica de cozinhar as partes do animal dentro de seu próprio estômago foi herdada dos portugueses e adaptada com maestria pela culinária nordestina, mostrando a fusão cultural.

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Arroz-de-cuxá: a receita maranhense com sabor azedo e influências diversas

No Maranhão, o arroz-de-cuxá é um prato que reflete uma rica mistura de influências indígenas, portuguesas e africanas. O termo ‘cuxá’, de origem tupi, significa ‘o que conserva azedo’, um nome apropriado para o molho que o acompanha. Esse molho é feito com vinagreira, gergelim, camarão seco, farinha de mandioca e pimenta-de-cheiro. Todos esses ingredientes são cozidos e socados em um pilão até formar o autêntico molho maranhense, que evoca o sabor azedo característico.

Após o preparo do molho, basta cozinhar o arroz de forma usual e servi-lo com o cuxá. Hoje em dia, alguns cozinheiros adicionam pimentão e cebola à receita, sem, no entanto, alterar o perfil azedo. Apesar disso, o prato continua sendo uma experiência gastronômica valiosa, nutricionalmente rico em carboidratos, lipídios, ferro e cálcio.

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A herança africana no caruru baiano com quiabo e dendê

Ao se deparar com o caruru pela primeira vez, é possível que alguns sintam certa hesitação em provar. Originário da África, esse prato foi prontamente adaptado e integrado à culinária baiana. Na Bahia, estado com a maior população afrodescendente do Brasil, o caruru é um elemento presente na rotina alimentar. Seus componentes essenciais são o quiabo e o camarão seco, complementados por azeite de dendê, pimenta malagueta, cebola, limão, gengibre, entre outros temperos.

De maneira interessante, os povos indígenas do Brasil já possuíam um alimento similar ao caruru, porém elaborado com folhas como a taioba. A semelhança se estendia ao nome: a versão africana era conhecida como kalalu, enquanto a indígena se chamava caá-riru, significando ‘erva de comer’. Por um período, o caruru no Brasil foi um refogado de ervas, mas com o tempo, incorporou mais as características africanas do que as indígenas. Atualmente, é um acompanhamento tradicional do acarajé ou servido com cortes de carne.

Caruru baiano com quiabo e dendê - Instagram/lardacleise
Caruru baiano com quiabo e dendê – Instagram/lardacleise

Arroz com pequi: a controvérsia do fruto do cerrado que divide opiniões

O arroz com pequi representa apenas uma das muitas receitas elaboradas com esse fruto peculiar e debatido, conhecido também como piqui, piquiá, pequiá ou pela expressão popular ‘é pra acabá com os piqui de Goiás’. Amado por alguns e rejeitado por outros, o pequi exige cautela ao ser consumido, pois seu caroço possui espinhos que podem provocar lesões bucais significativas caso seja mordido.

Felizmente, a maioria das pessoas evita morder diretamente o pequi. O fruto é mais frequentemente cozido com arroz, frango, quiabo, ou usado em conservas e até mesmo em preparos doces como bolos e petit gateaus. Dele também se extrai o azeite de pequi. Típico do cerrado, é abundante em toda a região Centro-Oeste e é motivo de uma divertida rivalidade de memes entre Goiás e Minas Gerais. Contudo, para adicionar um fato curioso, o Tocantins é o estado que abriga uma cidade chamada Pequizeiro e celebra um festival dedicado ao fruto.

Arroz com pequi - Reprodução
Arroz com pequi – Reprodução

A empada frita de Salto: um quitute paulista com história e reconhecimento cultural

Embora a empada seja um salgado familiar em padarias e cafés brasileiros, a versão frita é uma especialidade. A história dessa iguaria de Salto, interior de São Paulo, remonta à década de 1940, época em que donas de casa forneciam o quitute para bares, lanchonetes e eventos locais. A tradição se consolidou tanto que foi declarada patrimônio culinário cultural em 2007. Em 2019, a empada frita de Salto foi eleita uma das melhores comidas regionais do estado durante a Feira Gastronômica ‘Feito em SP’.

Caso a curiosidade tenha sido despertada, vale saber que a empada frita se destaca por sua massa, que se assemelha à do pastel, mas com o formato característico da empada assada. Os recheios mais clássicos são de frango e palmito, mas a inventividade brasileira levou à criação de opções como carne seca, camarão, maçã com canela e até sorvete. Para quem deseja provar, a Estância Turística de Salto está localizada no interior de São Paulo, próxima a Campinas, Indaiatuba e Itu. É provável que essa delícia seja encontrada apenas por lá.

Empada frita - Divulgação
Empada frita – Divulgação

Bolinho de frango de Itapetininga: uma tradição caipira com mais de um século

Em Itapetininga, outra cidade do interior paulista, o bolinho de frango é uma iguaria marcante. A massa é preparada com farinha de milho, e o recheio consiste em frango cozido, desfiado e temperado. Algumas variações incluem batatas cozidas ou polvilho na massa, e há também a opção com frango caipira no recheio. Na região de Itapetininga, esse bolinho pode ser encontrado em diversos estabelecimentos, como lanchonetes, bares, padarias, pastelarias e quermesses.

As narrativas sobre a origem do bolinho são variadas; algumas indicam que ele surgiu em São Miguel Paulista e só depois foi levado a Itapetininga. Independentemente de sua exata procedência, o bolinho sustenta os moradores de Itapetininga há mais de um século, sendo reconhecido como Patrimônio Cultural da cidade em 2005. O mais relevante não é quem o criou, mas sim a forte identidade caipira que o bolinho carrega, simbolizando a cultura do interior de São Paulo.

Bolinho de frango - Reprodução/X
Bolinho de frango – Reprodução/X

Farofa de içá: a receita com formigas tanajuras que encanta no Vale do Paraíba

Ainda no interior de São Paulo, um dos pratos mais inusitados que podem causar estranhamento em turistas é a farofa de içá. Ela é preparada com a parte inferior do abdome da tanajura, que é a fêmea da formiga saúva. De fato, trata-se de uma farofa de formigas. Essa espécie, que já integrava o cardápio indígena, continua sendo bastante valorizada. O preparo é simples, incluindo as formiguinhas, farinha de mandioca, sal, salsinha e óleo ou banha de porco para a fritura.

É compreensível que algumas pessoas tenham aversão a formigas, seja por picadas ou por sua representação em desenhos animados e filmes. No entanto, por que não considerar a possibilidade de incluí-las na alimentação? Personalidades como Monteiro Lobato e Maurício de Sousa já afirmaram ter provado e apreciado, o que sugere que o gosto é agradável, dada a sua popularidade contínua. Para os corajosos, as içás podem ser encontradas à venda.

Farofa de içá - Reprodução/YouTube
Farofa de içá – Reprodução/YouTube

O doce chuvisco de Campos dos Goytacazes: uma herança portuguesa tombada como patrimônio

Campos dos Goytacazes também ostenta seu orgulho culinário com o doce Chuvisco, que foi tombado como Patrimônio Cultural e Imaterial em 2011, conferindo-lhe a distinção de ‘doce fino’. Atualmente, é produzido tanto pela indústria alimentícia em larga escala quanto por pequenas confeitarias locais, sendo comercializado em compotas, imerso em calda de açúcar.

Com raízes em Portugal, assim como muitos doces brasileiros à base de ovos, o Chuvisco ganhou notoriedade em Campos graças a Nilze Teixeira de Vasconcellos, que cativou diversas personalidades brasileiras em suas visitas à cidade. Para os apreciadores de doces, o preparo consiste em gemas de ovos batidas que são pingadas com uma colher em calda de açúcar quente para fritar. Esse processo resulta em um formato de gota, que inspirou o nome do quitute.

Doce chuvisco - Reprodução
Doce chuvisco – Reprodução

Torta capixaba: uma tradição da Semana Santa com sabores do mar do Espírito Santo

A torta capixaba é um motivo de grande orgulho gastronômico para os habitantes de Vila Velha e de todo o Espírito Santo. Não é à toa, visto que o prato desembarcou no Brasil há mais de quatro séculos, incorporando influências de Portugal, da África e dos povos indígenas. Atualmente, é um ícone da Semana Santa, apreciado não apenas pelos capixabas, mas por qualquer brasileiro que valorize uma boa receita de frutos do mar.

Com ares de refeição familiar, a torta capixaba inclui peixe tradicionalmente bacalhau, palmito e diversos frutos do mar, como camarão, siri desfiado e sururu. Para quem deseja seguir a receita autêntica, o ideal é prepará-la em uma panela de barro, uma vez que se trata de um prato de ‘panela única’. Basta refogar todos os ingredientes, cobrir com ovos batidos e rodelas de cebola, e levar ao forno. Contudo, na ausência de uma panela de barro, uma assadeira comum ou refratário também resultará em uma torta saborosa.

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O surpreendente X-coração de galinha: um sanduíche gaúcho que inova nos recheios

Sanduíches como misto-quente, cachorro-quente e hambúrguer, populares em todo o Brasil, são carinhosamente chamados de ‘xis’ pelos gaúchos, que os consideram uma verdadeira excelência gastronômica. A principal distinção do ‘xis’ tradicional é seu tamanho avantajado, com diâmetro semelhante ao de um pão sírio, e um recheio generoso. Os ingredientes também surpreendem, podendo incluir costela, linguiça toscana, filé ao molho de vinho, cordeiro ou até mesmo coração de galinha, originando o famoso X-Coração de Galinha.

De fato, o sanduíche mais procurado nas lanchonetes dos pampas é o que leva cerca de 180 gramas de coração de galinha como recheio. Embora esse miúdo de frango seja comum em churrascos pelo Brasil, ele ainda gera opiniões divididas, exceto, talvez, no Rio Grande do Sul. Além do pão e do coração picado, o lanche é complementado com maionese, milho, ervilha, alface e tomate, e é grelhado na chapa dos dois lados para assegurar a crocância do pão. A curiosidade e o apetite estão aguçados?

X-coração de galinha - Consulado Gaúcho/Divulgação
X-coração de galinha – Consulado Gaúcho/Divulgação

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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