Novo tratamento experimental mantém colesterol alto sob controle por até um ano com aplicação únicaPor Bruna
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Uma pesquisa revolucionária revelou que o controle do colesterol alto, um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, pode ser alcançado por até um ano com uma única dose de tratamento. A descoberta envolve uma técnica de edição genética capaz de desativar um gene associado ao colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, mantendo seus níveis controlados em pacientes por um período prolongado.
A pesquisa inovadora foi apresentada no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia e teve seus resultados publicados no prestigiado New England Journal of Medicine. Para avaliar sua eficácia, a terapia foi administrada a 15 participantes, que foram monitorados por aproximadamente um ano após a aplicação.
A relevância do estudo é sublinhada pelo impacto do colesterol alto, reconhecido como um dos grandes motivadores de problemas cardiovasculares. Dados do Ministério da Saúde indicam que, no Brasil, o infarto e o AVC são responsáveis por mais de 300 mil mortes anuais, com aproximadamente 40% da população sofrendo de colesterol elevado.
Atualmente, o tratamento padrão para o colesterol alto inclui o uso contínuo de estatinas, que, embora eficientes, exigem adesão por toda a vida. Esta nova abordagem representa um avanço significativo, propondo uma solução de dose única para a gestão de uma doença crônica.
Apesar dos resultados promissores, a pesquisa ainda se encontra em estágio inicial, focada principalmente na avaliação da segurança da terapia. No entanto, a próxima fase já começou com um grupo maior de indivíduos, e os novos resultados são aguardados até o fim de 2026, período em que também devem ser iniciadas as negociações com agências reguladoras para um estudo de fase 3.
Esta investigação estabelece um novo paradigma para a terapia genética, um método que modifica diretamente o DNA para combater enfermidades. Historicamente aplicada a condições mais raras, esta tecnologia agora se mostra com potencial para tratar doenças comuns, ampliando seu alcance e impacto.
Para a geneticista Lygia da Veiga Pereira, a terapia genética está rompendo barreiras. Ela explicou que essa abordagem abre caminhos para tratar doenças prevalentes na população, o que intensifica o impacto dos tratamentos genéticos e realça a importância de aprofundar o conhecimento nessas áreas.
Entenda o funcionamento da edição genética que combate o colesterol
O organismo humano gera dois tipos de colesterol, e o LDL atua como o principal condutor de gordura pela circulação sanguínea.
Contudo, o transporte excessivo de LDL pode levar ao depósito de gordura nas artérias, formando placas que obstruem o fluxo sanguíneo e aumentam o risco de infarto e AVC.
A nova terapia emprega a tecnologia CRISPR, descrita como uma “tesoura molecular”. Essa ferramenta localiza uma sequência particular no DNA, realiza um corte exato e, com isso, desativa um gene específico.
Neste contexto, o gene visado é o ANGPTL3, encontrado nas células do fígado, órgão responsável pela maior parte da produção de colesterol e triglicerídeos no corpo.
Normalmente, o ANGPTL3 produz uma enzima que dificulta a eliminação de LDL e triglicerídeos da corrente sanguínea. Ao desativar esse gene com a tecnologia CRISPR, os cientistas conseguiram impedir a formação da enzima, otimizando o metabolismo dessas gorduras pelo organismo.
A inspiração para o tratamento surgiu da observação de uma população na Itália, onde indivíduos nasciam com uma mutação que inabilita o ANGPTL3. Essas pessoas apresentavam níveis consistentemente baixos de colesterol e triglicerídeos durante toda a vida, além de uma ocorrência mínima de doenças cardíacas, um padrão que a terapia genética busca replicar.
O que os resultados preliminares da pesquisa indicam
É importante salientar que os dados são iniciais, mas promissores. Nos pacientes que receberam a dose máxima, observou-se uma redução de quase 80% na enzima ANGPTL3 no sangue, levando a uma diminuição de cerca de 50% nos níveis de LDL e triglicerídeos, mantida por ao menos um ano sem novas aplicações.
A persistência do controle dos índices é considerada um dos pontos mais impactantes do estudo pelos pesquisadores. Esse fato sugere que a edição genética alcançou um volume adequado de células hepáticas para gerar um benefício clínico duradouro.
Adicionalmente, as células modificadas demonstraram a capacidade de se replicar continuamente, transmitindo a alteração genética no ANGPTL3 para novas células. Isso explica a manutenção dos resultados positivos mesmo após um ano da administração do tratamento.
Perspectivas futuras e desafios do novo tratamento

O cardiologista Elzo Mattar, que atua como diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é professor na Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), vê um grande potencial na terapia de dose única para condições crônicas, como a dislipidemia e a hipertensão. Para ele, a grande vantagem seria combater a alta taxa de abandono e a falta de adesão aos tratamentos prolongados.
Mattar afirmou que essa representa uma “terapia dos sonhos” para pacientes que necessitam de tratamentos contínuos, mas frequentemente os interrompem. Ele ressalta que essa interrupção pode levar a graves complicações, que poderiam ser prevenidas ao simplificar o regime de tratamento.
O especialista também indicou que a nova abordagem poderia ser uma alternativa valiosa para pessoas que não reagem satisfatoriamente às medicações orais, a exemplo dos pacientes com hipercolesterolemia familiar, que possuem uma disfunção no receptor de LDL.
Contudo, o cardiologista tempera o otimismo ao mencionar que o processo de aprovação regulatória será demorado, e que o custo inicial do tratamento provavelmente será um fator limitante. Mattar esclareceu que, “mesmo que sua eficácia e segurança sejam comprovadas e aprovado, este é um tratamento caro que não deverá ser acessível de imediato à população”.
Ricardo Kazunori, cirurgião cardiovascular do BP – a beneficência portuguesa de São Paulo, também avaliou a pesquisa. Ele disse que, embora represente um avanço significativo para pacientes crônicos, a terapia ainda está longe de ser uma realidade prática.
Kazunori compartilhou sua experiência, dizendo que atende “pacientes graves, que necessitam de cirurgia devido às consequências do colesterol alto” e precisam de um controle “ainda mais rigoroso” dos índices. Ele concluiu que, embora tal terapia possa revolucionar o tratamento para essas pessoas ao oferecer um controle mais preciso, é crucial aguardar os próximos estágios da pesquisa científica, pois o estudo é apenas inicial.







