Cientistas da USP desenvolvem composto que elimina a malária sem gerar resistência

Malária com máscaras, luvas e amostras de laboratório - Erman Gunes/shutterstock.comMalária com máscaras, luvas e amostras de laboratório - Erman Gunes/shutterstock.com

Malária com máscaras, luvas e amostras de laboratório - Erman Gunes/shutterstock.com

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma molécula sintética contra a malária capaz de erradicar totalmente os parasitas da corrente sanguínea em modelos animais. O composto, denominado 2d, alcançou taxa de sobrevida de 100% em camundongos infectados durante 30 dias de acompanhamento contínuo e não provocou resistência farmacológica nos testes laboratoriais.

O trabalho foi conduzido pelo Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP) em parceria internacional com a empresa norte-americana Collaborations Pharmaceuticals. Os cientistas sintetizaram 18 moléculas derivadas de acridina e acridona a partir de fármacos já existentes, com foco em superar as falhas terapêuticas causadas pela mutação do microrganismo transmissor.

Como o composto 2d atua contra o parasita da malária?

A molécula 2d tem um mecanismo de ação que ataca diretamente o sistema de sobrevivência do microrganismo dentro das células vermelhas. Ao entrar em contato com o sangue infectado, a substância química se concentra rapidamente nas proximidades do vacúolo digestivo do parasita. Essa região é responsável por processar a hemoglobina humana, etapa biológica em que o microrganismo gera resíduos altamente tóxicos para si próprio.

O professor do IFSC-USP e coordenador da pesquisa, Rafael Victório Carvalho Guido, explicou detalhadamente o funcionamento químico observado durante as análises laboratoriais. “Para verificar o mecanismo de ação, imagens de microscopia e ensaios bioquímicos revelaram que o composto 2d age rapidamente e se acumula perto do vacúolo digestivo do parasita. Ele impede que o parasita neutralize um resíduo tóxico gerado durante a digestão do sangue humano, fazendo com que o parasita morra envenenado por esse próprio resíduo”, afirmou Guido.

Eficácia comprovada contra cepas de Porto Velho

Além da ação destrutiva rápida, o composto não permitiu adaptações defensivas do microrganismo nos testes de pressão seletiva realizados em laboratório. “Por fim, nos testes para avaliar a tendência a gerar parasitas resistentes, não houve desenvolvimento de resistência ao composto 2d nos ensaios de laboratório, o que sugere que o medicamento pode manter sua eficácia por longo prazo”, destacou o pesquisador.

Os testes laboratoriais foram executados tanto em linhagens de laboratório de Plasmodium falciparum com histórico de multirresistência a remédios comerciais quanto em amostras clínicas coletadas diretamente de humanos infectados. Pesquisadores recolheram cepas reais de Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax de pacientes atendidos em Porto Velho, no estado de Rondônia, confirmando a alta capacidade do composto 2d em destruir os parasitas nativos da Amazônia.

Nos ensaios com animais, camundongos receberam a substância por administração oral e apresentaram depuração completa do parasita circulante, sem manifestação de efeitos adversos graves. O estudo mapeou ainda o composto 5a, outro membro da mesma família química avaliada no experimento, que apresentou capacidade de atingir as mitocôndrias do parasita, bloqueando a sua produção de energia celular e demonstrando alternativas complementares de combate à infecção.

Foto: pesquisa, cientista – New Africa/Shutterstock.com

Casos de malária superaram 282 milhões no mundo em 2025

O surgimento de novos compostos químicos responde a uma crise sanitária de proporções globais que atinge prioritariamente países tropicais e subtropicais. A Organização Mundial da Saúde registrou mais de 282 milhões de casos de malária no planeta em 2025, além de contabilizar cerca de 610 mil mortes anuais decorrentes da enfermidade, com 75% dos óbitos concentrados em crianças com menos de 5 anos de idade.

O professor Rafael Victório Carvalho Guido ressaltou o peso social da infecção nas regiões mais vulneráveis. “A malária continua sendo uma das doenças infectocontagiosas mais letais e devastadoras do mundo, afetando gravemente a saúde pública e a economia de diversas regiões tropicais e subtropicais, principalmente países do continente africano”, declarou o coordenador.

A primeira linha atual de tratamento baseia-se em terapias combinadas com artemisinina, a exemplo da associação de artesunato com pironaridina, além de medicamentos tradicionais como a cloroquina e a atovaquona. No entanto, mutações genéticas constantes dos plasmódios vêm reduzindo a efetividade dessas combinações clínicas, enquanto as vacinas aprovadas até o momento oferecem apenas proteção parcial aos pacientes vacinados.

Cronologia e dados da pesquisa científica

Os dados do estudo foram consolidados após etapas de síntese molecular, avaliação microbiológica e ensaios pré-clínicos conduzidos entre equipes do Brasil, Estados Unidos, Rússia e Holanda.

  • 26 de maio de 2026: data de publicação antecipada online do artigo na revista ACS Infectious Diseases.
  • 12 de junho de 2026: inclusão formal do artigo no volume 12, número 6 do periódico internacional.
  • 24 de setembro de 2026: apresentação oficial dos resultados pelo IFSC-USP.
  • 18 moléculas sintéticas: total de estruturas químicas derivadas de acridina e acridona projetadas na pesquisa.
  • 100%: taxa de sobrevida verificada nos animais tratados ao fim do período de observação de 30 dias.

Continue lendo: Pesquisa com 80 mil pessoas confirma impacto devastador na saúde dos cuidadores

Etapas necessárias antes dos testes em humanos

Apesar da eficácia atestada nos modelos animais, a molécula 2d ainda precisa percorrer um longo caminho laboratorial antes de se tornar um medicamento comercializável em farmácias ou hospitais. As fases imediatas de desenvolvimento incluem a otimização das propriedades físico-químicas da molécula para aperfeiçoar sua solubilidade e estabilidade dentro do organismo humano, além da conclusão de testes toxicológicos pré-clínicos rigorosos que comprovem a total ausência de toxicidade em doses terapêuticas.

Após essa fase pré-clínica, o composto precisará ser testado em voluntários saudáveis na fase 1 para confirmação de segurança metabólica, antes de seguir para as fases 2 e 3 em pacientes infectados pela doença, etapas que definem dosagens exatas e taxa de cura clínica. A liberação final para uso em humanos dependerá do envio desse dossiê técnico para análise e aprovação regulatória de agências sanitárias, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O estudo acadêmico teve como primeira autora a pesquisadora Sarah El Chamy Maluf, do IFSC-USP, e coordenação dividida entre Guido e Sean Ekins, diretor-executivo da Collaborations Pharmaceuticals. Até o momento, os pesquisadores não definiram uma data oficial ou cronograma público para o início dos ensaios clínicos da molécula 2d em humanos.