TSE enfrenta abstenção de 27,9% em cidades afastadas das urnas
A taxa de abstenção eleitoral alcançou 27,9% nos municípios brasileiros onde ao menos 5% dos habitantes vivem a mais de 40 quilômetros do local de votação mais próximo, superando a média nacional em sete pontos percentuais nas eleições de 2022. O índice reflete um cruzamento inédito entre as coordenadas geográficas das seções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a grade estatística do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Em 147 municípios onde pelo menos 10% da população reside a 20 quilômetros ou mais da seção eleitoral, o não comparecimento atingiu 26,5% no último pleito geral, abrangendo um contingente de cerca de 1,1 milhão de eleitores aptos. Segundo o professor Daniel de Azevedo, da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Geografia Política e Eleitoral, a obrigação de votar tem peso reduzido quando o cidadão precisa percorrer dezenas de quilômetros para exercer o direito.
Distância das urnas afeta 1,1 milhão de eleitores em municípios isolados
O levantamento aponta que a dificuldade logística atinge principalmente áreas rurais, que concentram 97% dos brasileiros situados a mais de dez quilômetros do seu local de voto. Essa barreira geográfica se manifesta de forma crítica na Região Norte do país, onde viagens fluviais e estradas de terra tornam o deslocamento demorado e oneroso para as famílias que residem longe dos centros urbanos.
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No município de Maraã, no Amazonas, onde cerca de 38% dos moradores vivem a mais de 20 quilômetros e 30% a mais de 50 quilômetros dos pontos de votação, a abstenção chegou a 39,4% em 2022. Em Barcelos, também no estado amazonense, 36% dos habitantes estão a pelo menos 20 quilômetros de uma urna eletrônica, com distâncias em linha reta que chegam a 288 quilômetros, resultando em uma ausência de 35,9% dos eleitores no pleito passado.
A servidora da Funai Sidiane da Cruz Sampaio, moradora da comunidade Ramal dos Três, em Óbidos, no Pará, relata as dificuldades enfrentadas pelos eleitores locais. “Para o pessoal da nossa comunidade é um pouco complicado votar, porque as urnas são longe, é um dia todo. Do jeito que a estrada está, com mais de dois anos sem entrar maquinário lá para arrumar os buracos, vai continuar difícil”, afirmou Sidiane sobre o trajeto até a cidade vizinha de Oriximiná.
Dados do levantamento sobre abstenção e distâncias eleitorais em 2022
- 27,9% foi o índice de abstenção em cidades onde ao menos 5% dos moradores estão a mais de 40 quilômetros da seção eleitoral;
- 20,8% foi a taxa média nacional de não comparecimento registrada em todo o Brasil no pleito de 2022;
- 147 cidades reúnem cerca de 1,1 milhão de eleitores com ao menos 10% da população situada a 20 quilômetros ou mais da urna;
- 97% das pessoas que vivem a mais de dez quilômetros de sua seção eleitoral estão localizadas em áreas rurais.
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Regras de transporte em 2026 e procedimentos para justificar a ausência
Os eleitores que não comparecerem às urnas no domingo, 4 de outubro de 2026, têm prazo legal para justificar a falta perante a Justiça Eleitoral ou efetuar o pagamento da multa de R$ 3,51 por turno ausente. Para amenizar o absenteísmo provocado pela distância, o TSE instituiu para o pleito geral de 2026 o programa “Seu Voto Importa“, voltado ao transporte especial gratuito de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida, populações indígenas, quilombolas e moradores de comunidades tradicionais.
O envio de seções e urnas eletrônicas para novas localidades segue a exigência de um contingente mínimo de 50 eleitores cadastrados na área. Em declaração sobre os preparativos, o presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, declarou que o transporte de equipamentos para locais distantes ocorre em parceria com Executivo, Judiciário estadual e Forças Armadas. Em 1 de setembro de 2026, o TSE e o Tribunal Superior do Trabalho formalizaram um acordo de cooperação logística para reforçar a iniciativa.
Decisão do STF de 2023 e o histórico de investimentos em logística
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal fixou a obrigatoriedade de transporte público municipal e intermunicipal gratuito em dias de eleição, com níveis de oferta similares aos de dias úteis, para combater a abstenção. No entanto, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com dados de 470.467 seções revelou que a gratuidade tarifária utilizada por 75,8 milhões de pessoas no segundo turno de 2022 não gerou aumento estatisticamente significativo no comparecimento.
O coautor da pesquisa e técnico do Ipea, Rafael Pereira, avaliou que a tarifa zero facilita a mobilidade de quem já votaria, mas não elimina a falta física de condução. “O passe livre só ajuda quem tem um serviço de transporte que efetivamente permita chegar às urnas. A solução mais direta é aproximar os locais de votação da população. Onde isso não for viável, a alternativa seria oferecer transporte específico no dia da eleição para comunidades mais distantes”, afirmou Pereira.
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Os investimentos operacionais acompanham a complexidade geográfica brasileira. Os Tribunais Regionais Eleitorais do Acre, Amazonas, Maranhão e Rondônia previram R$ 11 milhões para o transporte de urnas em 2026, superando os R$ 6,3 milhões empenhados em 2024 e os R$ 8,8 milhões corrigidos gastos em 2022. O primeiro turno das eleições gerais acontece em 4 de outubro de 2026, a partir das 8 horas pelo horário de Brasília.
