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O uso regular de extensões de cílios favorece a proliferação acelerada do ácaro microscópico Demodex folliculorum e eleva a probabilidade de irritações e disfunções na superfície dos olhos. O alerta ganhou sustentação com um estudo científico internacional apresentado no 44º Congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Refração, sediado em Londres, e com orientações clínicas emitidas nesta quarta-feira (30) por médicos especialistas.

Na avaliação laboratorial conduzida por pesquisadores, a presença do parasita foi constatada em 24 de 25 mulheres examinadas que colocavam os fios sintéticos com constância. Entre essas voluntárias com o parasita confirmado, 18 já demonstravam quadros clínicos evidentes de demodicose, com manifestação de crostas cilíndricas ao redor dos pelos, inchaço palpebral, vermelhidão local e fios colados entre si por secreções acumuladas.

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Pesquisa internacional na ESCRS mapeia incidência do ácaro

Córnea, olhos
Foto: Córnea, olhos -Garna Zarina/shutterstock.com

Os dados apresentados durante o encontro científico em território britânico foram liderados pela médica oftalmologista Tetiana Zhmud, pesquisadora vinculada ao Departamento de Oftalmologia da Universidade Médica Nacional Comemorativa Pirogov, situada na Ucrânia. O levantamento envolveu a aplicação de questionários a 345 participantes com idades situadas entre 16 e 28 anos, além de coletas de material biológico nos folículos ciliares para observação direta em microscópio.

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A médica pesquisadora destacou que a intenção da análise não é impor uma proibição ao procedimento estético, mas conscientizar a população para os cuidados necessários. “Nossos achados não sugerem que as pessoas devam evitar completamente as extensões de cílios. No entanto, eles destacam a importância da higiene adequada das pálpebras, da conscientização sobre os sintomas e da avaliação oportuna quando os sintomas surgirem”, afirmou Tetiana Zhmud, em tradução livre.

O trabalho acadêmico revelou padrões de comportamento entre o público avaliado e quantificou a frequência com que intercorrências pós-aplicação ocorrem na rotina das adeptas da técnica:

  • Participação total de 345 mulheres e jovens na etapa de triagem e entrevistas da pesquisa científica.
  • Índice de 24,9% do grupo de entrevistadas com histórico prévio de aplicação de extensões de cílios, equivalente a 86 participantes.
  • Frequência de 58% entre as usuárias que realizavam sessões de manutenção ou nova colocação a cada três ou quatro semanas.
  • Relato de 47,6% de mulheres com desconforto, queixas de vermelhidão, lacrimejamento contínuo ou coceira após a fixação dos fios.
  • Detecção de 85% de alterações funcionais nas glândulas de Meibômio entre aquelas submetidas ao procedimento por dez ou mais vezes.

Proliferação do Demodex folliculorum e disfunção glandular

O ácaro Demodex folliculorum integra a microbiota natural que habita a pele humana e permanece nos folículos pilosos em quantidades equilibradas ao longo da vida sem provocar quadros inflamatórios em indivíduos sadios. No entanto, a fixação de hastes artificiais e camadas densas de resinas adesivas impede a descamação fisiológica da epiderme e dificulta a oxigenação, transformando a borda palpebral em um depósito contínuo de sebo e restos celulares queratinizados.

Esse desequilíbrio na base dos pelos propicia uma multiplicação descontrolada dos ácaros, desencadeando manifestações como a blefarite, caracterizada pela inflamação crônica das pálpebras, e a própria demodicose. O acúmulo de colaretes, anéis cerosos formados por detritos orgânicos e fezes dos próprios micro-organismos, costuma ficar escondido pela massa de cola escura utilizada nos procedimentos estéticos, atrasando a identificação do problema pelas pacientes.

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Paralelamente à ação direta do ácaro, os dutos das glândulas de Meibômio sofrem compressão mecânica pelo peso da extensão e pelo excesso de secreção sebácea retida. Como essas estruturas glandulares desempenham a função de secretar a camada lipídica que impede a evaporação precoce da lágrima, sua obstrução prolongada favorece o aparecimento do olho seco evaporativo, episódios de ceratite por atrito e sensibilidade extrema ao vento ou à luminosidade externa.

Substâncias químicas e riscos da cola com cianoacrilato

A composição química dos adesivos utilizados na colagem dos fios artificiais também figura como elemento primário nas reações adversas registradas nos consultórios. A médica dermatologista Débora Cardial, da clínica Terra Cardial e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explicou em orientações divulgadas em 30 de setembro de 2026 que produtos sem procedência certificada amplificam as agressões teciduais na face.

“Muitos produtos usados em extensões contêm cianoacrilatos, substâncias que podem causar irritação e, em algumas pessoas, dermatite de contato alérgica. Além disso, os vapores liberados durante a aplicação podem irritar a superfície ocular”, advertiu a médica dermatologista Débora Cardial.

A profissional pontua que o desprendimento gasoso dos compostos sintéticos no instante da aplicação agride o epitélio da córnea e a conjuntiva, criando microlesões superficiais que servem de porta de entrada para infecções bacterianas oportunistas associadas ao Demodex. Usuárias com histórico de dermatite atópica ou sensibilidade cutânea prévia possuem propensão superior a quadros de eczema palpebral com descamação e fissuras dolorosas.

Quais cuidados evitam complicações nas extensões de cílios?

A adoção de medidas preventivas de assepsia e a escolha consciente de prestadores de serviço certificados reduzem significativamente o risco de desenvolvimento de superpopulações parasitárias e reações imunes nas pálpebras. Muitas consumidoras deixam de higienizar a área dos olhos intencionalmente pelo receio de amolecer a cola e antecipar a queda das extensões, comportamento reprovado pelos profissionais de saúde.

“Por isso, é importante combinar uma boa higiene com a escolha de um profissional capacitado, o uso de materiais adequados e cuidados rigorosos durante a aplicação e a manutenção”, orientou Débora Cardial. A médica ressaltou que a rotina deve abranger espumas e soluções de limpeza indicadas especificamente para a região ocular, que removam impurezas sem comprometer a integridade da barreira epitelial.

Para quem já realiza o procedimento ou planeja aplicar as extensões, a ocorrência de determinadas alterações fisiológicas exige imediata interrupção e procura por suporte especializado:

  • Dor aguda contínua na região ocular ou na borda da pálpebra durante ou após as sessões.
  • Presença de secreção amarelada ou esbranquiçada que forme crostas densas e cole os cílios durante a noite.
  • Sensibilidade excessiva à luz em ambientes claros ou desconforto visual sob iluminação solar direta.
  • Sensação permanente de corpo estranho, ardência intratável e lacrimejamento abundante que não cesse.
  • Visão embaçada, turva ou qualquer grau de oscilação na nitidez ocular.

“Dor, secreção, sensibilidade à luz ou alteração da visão não devem ser considerados reações normais às extensões de cílios. Nesses casos, é importante interromper o uso e procurar avaliação médica, de preferência com um oftalmologista quando houver sintomas oculares”, reforçou a dermatologista Débora Cardial.

Limitações metodológicas da análise científica

Apesar de os resultados confirmarem a correlação direta entre o uso de fios postiços colados e a concentração populacional do ácaro Demodex folliculorum, os próprios pesquisadores da Universidade Médica Nacional Comemorativa Pirogov apontaram ressalvas estruturais no estudo. O projeto acadêmico não incluiu um grupo controle formado por voluntárias da mesma faixa etária que jamais tenham se submetido a técnicas de extensão de cílios.

Em razão dessa ausência, os autores do estudo destacaram a necessidade de conduzir novas pesquisas clínicas comparativas com amostragens populacionais ampliadas para estabelecer com precisão estrita a causalidade e determinar em que medida a presença do ácaro decorre do procedimento estético ou da falha de higienização do usuário.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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