Semaglutida reduz mortes e lesões cardiorrenais em estudos clínicos
Medicamentos da classe dos análogos de GLP-1 consolidaram sua expansão para além do emagrecimento e do controle glicêmico, passando a integrar protocolos de proteção aos rins e ao coração. Evidências de grandes estudos clínicos internacionais e dados de consultórios médicos em São Paulo e em centros globais apontam que os fármacos desaceleram a progressão da doença renal crônica e diminuem o risco de desfechos cardiovasculares graves.
Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (5) pela Ipsos Healthcare revelou que um em cada três pacientes com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca já faz uso de substâncias dessa classe. O estudo consultou 431 médicos especialistas, grupo composto por 220 nefrologistas e 211 cardiologistas, mapeando a rápida adesão à terapia dentro dos consultórios.
“Os dados mostram que o uso do GLP-1 está crescendo de forma consistente na prática clínica, deixando de ser visto apenas como uma terapia para diabetes e obesidade e passando a integrar o cuidado cardiorrenal em combinação com outros tratamentos já estabelecidos”, afirmou Adriana Ghobril, líder da área de healthcare da Ipsos no Brasil.
Estudo FLOW comprova redução de 24% em eventos renais graves
A base científica que sustenta a indicação para a saúde dos rins tem como pilar o ensaio clínico internacional FLOW, que avaliou 3.533 voluntários diagnosticados simultaneamente com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Os participantes receberam a aplicação semanal de 1 mg de semaglutida ou placebo durante o período de monitoramento técnico.
Os resultados demonstraram que o medicamento reduziu em 24% a ocorrência de eventos renais graves, como a perda progressiva da capacidade de filtração do órgão, além de proporcionar uma diminuição de 20% no risco de mortalidade por todas as causas. Adriana Ghobril declarou que o achado tem impacto direto na sobrevida: “Isso significa menos risco de um paciente chegar à diálise, ao transplante ou à falência renal”.
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O FLOW também identificou que a perda de proteína pela urina, quadro clínico chamado de albuminúria, caiu em aproximadamente 40% entre os pacientes que utilizaram a semaglutida. O monitoramento registrou ainda uma queda sustentada de 30% nos níveis da proteína C reativa de alta sensibilidade, a hsCRP, substância que funciona como um dos principais marcadores biológicos de inflamação sistêmica no corpo humano.
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Ensaios clínicos com semaglutida reúnem dados em larga escala
A consolidação do uso cardiorrenal dos agonistas do receptor de GLP-1 apoia-se em parâmetros verificados nos ensaios clínicos FLOW e SELECT ao longo dos últimos anos de pesquisa médica:
- Participantes no ensaio FLOW: 3.533 pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica
- Redução de eventos renais graves no estudo FLOW: 24%
- Redução de mortalidade geral no FLOW: 20%
- Queda da perda de proteína urinária observada no FLOW: 40%
- Redução da proteína C reativa hsCRP no ensaio FLOW: 30%
- Voluntários acompanhados no estudo SELECT: 17.604 pacientes com sobrepeso ou obesidade
- Tempo médio de acompanhamento no ensaio SELECT: 39,8 meses
- Redução de eventos cardiovasculares graves no estudo SELECT: 20%
- Redução da proteína C reativa hsCRP no estudo SELECT: 37,8%
- Queda da pressão arterial sistólica média no SELECT: 3,3 mmHg
Ensaio SELECT avalia impacto cardiovascular em 17.604 pacientes
O impacto das canetas injetáveis sobre o coração foi dimensionado no ensaio clínico SELECT, conduzido com 17.604 voluntários com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular prévia estabelecida, mas sem diagnóstico de diabetes. Sob acompanhamento médio de 39,8 meses, o grupo que recebeu semaglutida na dose semanal de 2,4 mg apresentou uma redução de 20% na taxa de eventos cardiovasculares graves, incluindo infartos e derrames.
Além da proteção cardiovascular expressiva, a dosagem semanal de 2,4 mg gerou uma redução de 37,8% nas taxas da proteína hsCRP e uma redução de 3,3 mmHg na pressão arterial sistólica. Análises complementares do ensaio constataram ainda uma diminuição nas internações hospitalares e nas consultas em prontos-socorros decorrentes de descompensações de insuficiência cardíaca.
O cardiologista Nilton Carneiro, do Hospital Santa Catarina – Paulista, explicou que a melhora clínica decorre de múltiplos fatores biológicos interligados. “Ao melhorar o peso, a glicose e a pressão arterial, o medicamento já diminui parte da sobrecarga sobre esses órgãos. Também há evidências de redução da inflamação, que participa tanto da doença das artérias quanto da lesão renal”, afirmou o médico.
“Então, provavelmente estamos vendo uma combinação de mecanismos. Isso é diferente de afirmar que o remédio age diretamente nas células do coração e dos rins e que essa ação explica tudo. Os estudos mostram com mais segurança o benefício clínico; a participação de cada mecanismo ainda está sendo esclarecida”, acrescentou Nilton Carneiro ao analisar a resposta cardiovascular dos pacientes.
Mecanismos de ação nos tecidos investigados pelo estudo REMODEL
Para desvendar como o fármaco age microscopicamente nas estruturas renais, o estudo REMODEL utilizou exames de ressonância magnética e biópsias teciduais. A pesquisa detectou que a redução de cerca de 40% na proteinúria foi acompanhada por diminuição da gordura perirrenal acumulada, estabilização da fibrose tecidual e menor presença de células inflamatórias nas artérias renais.
Ricardo Cohen, líder do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explicou que as alterações não decorrem de um reparo milagroso da estrutura do órgão. “Um ponto a ser destacado é que as medidas principais desse estudo, oxigenação e fluxo de sangue no rim, não mudaram de forma significativa. Ou seja, o medicamento parece atuar sobretudo reduzindo a inflamação e melhorando os vasos, e não ‘consertando’ o rim de uma vez”, detalhou Cohen.
Cohen ressaltou também a urgência de preservar as estruturas funcionais dos rins logo nos primeiros estágios da doença diagnosticada. “Cada parte do rim que se perde não se recupera. Por isso, quanto antes protegemos o órgão, mais função preservamos ao longo da vida”, disse o especialista, concordando com a posição defendida pelo médico José Moura Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), sobre a indicação precoce da terapia.
A proteção foi observada tanto em fases iniciais quanto em estágios mais comprometidos da disfunção renal, segundo as análises complementares descritas por Cohen. “Quando olhamos os pacientes separados pela gravidade da doença, a proteção foi semelhante em todos os grupos: nos que tinham função renal ainda preservada e nos que já tinham perdido boa parte dela. Nos casos mais avançados, o número de pacientes beneficiados tende a ser até maior, porque o risco de complicações é mais alto”, completou.
Histórico do GLP-1 e limites da indicação médica
Desenvolvidos originalmente para o controle do índice glicêmico no diabetes tipo 2, os análogos do receptor de GLP-1 ganharam projeção mundial pelo estímulo à saciedade e consequente perda ponderal expressiva. Diante dos resultados apresentados pelos ensaios FLOW e SELECT, diretrizes médicas de cardiologia e nefrologia atualizaram suas recomendações para incorporar os fármacos como tratamento auxiliar de proteção cardiorrenal.
A comunidade científica mantém investigações ativas para determinar com exatidão qual parcela dos benefícios decorre de ação direta celular nos tecidos e quanto deriva da perda de peso combinada à melhora metabólica e inflamatória. Os estudos atuais não comprovaram benefício clínico no início do tratamento com agonistas de GLP-1 em pessoas que já se encontram em programa de diálise, etapa em que a indicação permanece restrita pela ausência de comprovação científica.
