Políticos influenciadores superam celebridades na Câmara em 2026

Tiririca (PSD-CE), Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) - Renato Araújo/Câmara dos Deputados/Divulgação Foto: Tiririca (PSD-CE), Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) - Renato Araújo/Câmara dos Deputados/Divulgação

Candidatos conhecidos como políticos influenciadores conquistaram votações expressivas e superaram celebridades tradicionais na disputa pelas 513 cadeiras da Câmara dos Deputados em 2026. Juntos, Nikolas Ferreira (PL-MG), Lucas Pavanato (PL-SP) e Erika Hilton (PSOL-SP) somaram 7.754.228 votos no primeiro turno realizado no domingo (4), assumindo papel decisivo na formação das bancadas partidárias.

Em contraste com o desempenho dos nomes consolidados na internet, candidaturas de personalidades conhecidas pela atuação em canais de televisão, na música ou no futebol não obtiveram vaga. Apresentadores, artistas e ex-atletas que disputaram a preferência do eleitorado ficaram de fora do Legislativo federal, demonstrando uma alteração no perfil dos concorrentes com apelo de massa.

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Entre os candidatos não eleitos em São Paulo estão a apresentadora de televisão Silvia Abravanel (PSD-SP), a empresária Val Marchiori (Republicanos-SP), o ex-jogador de futebol Luiz Fabiano Clemente (MDB-SP) e o cantor Manoel Gomes (Avante-SP). Os dados consolidados após a apuração das urnas não discriminaram a votação nominal exata recebida por essas figuras públicas.

A renovação também atingiu mandatos duradouros originados na cultura popular. O humorista Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca (PSD-CE), não conseguiu se reeleger para um novo período na Câmara dos Deputados após cumprir mandato parlamentar por 14 anos ininterruptos.

Nas eleições gerais de 2010, Tiririca havia chegado ao Congresso Nacional com mais de 1,3 milhão de votos nominais por São Paulo, marca que viabilizou a entrada de outros cinco parlamentares de sua coligação partidária. Aquele desempenho deu origem na época à expressão puxador de votos, estratégia adotada frequentemente por agremiações em pleitos proporcionais.

Desde então, o sistema eleitoral passou por alterações técnicas que proibiram coligações nas eleições proporcionais e passaram a exigir uma votação nominal mínima individual para o preenchimento de cadeiras. Mesmo com as novas exigências legais, votações elevadas continuam definindo o cálculo das sobras eleitorais e a quantidade final de parlamentares por partido.

Nikolas Ferreira e puxadores de votos redefinem bancadas na Câmara

Nikolas Ferreira alcançou 3.119.318 votos e despontou como o deputado federal mais votado do Brasil na disputa de 2026. O total representou 67,6% de todos os votos nominais destinados ao Partido Liberal no estado de Minas Gerais, desempenho que assegurou 13 cadeiras adicionais para o partido na representação mineira.

O segundo nome mais votado para o cargo em âmbito nacional foi o vereador paulistano Lucas Pavanato (PL-SP), que registrou 3.038.438 votos nominais. O resultado obtido pelo parlamentar garantiu a eleição de outros sete deputados federais da mesma legenda na bancada de São Paulo.

No campo da esquerda, Erika Hilton recebeu 1.596.472 votos nominais pelo eleitorado paulista, tornando-se a mulher com a maior votação para a Câmara dos Deputados no país. O volume de sufrágios da parlamentar foi determinante para que o Partido Socialismo e Liberdade obtivesse três vagas extras pelo estado.

A professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pesquisadora de comunicação Issaaf Karhawi explicou as razões que diferenciam os criadores de conteúdo das celebridades forjadas pelos meios tradicionais.

“As redes sociais foram construídas nessa lógica horizontal de comunicação, e isso aparece no discurso dos influenciadores. É muito diferente das celebridades midiáticas que dependiam e dependem da mídia, que dá visibilidade. No digital, existe essa sensação de que a visibilidade é manufaturada, de que cada um produz com as próprias mãos”, afirmou a professora.

Issaaf Karhawi indicou ainda que as disputas políticas exigem adaptação orçamentária dos partidos. “É preciso que a campanha seja feita nas ruas. Também. Nas ruas e, sobretudo, nas redes sociais. É preciso destinar verba de campanha para as redes sociais. É preciso, de fato, considerar que as pessoas estão nesses espaços, gostemos ou não da lógica de funcionamento das redes”, declarou.

Ana Elisa e o alcance eleitoral das campanhas digitais

O impacto das redes alcançou também novas lideranças em Minas Gerais, onde a influenciadora digital Ana Elisa Santos (PT-MG) recebeu 524.219 votos e assegurou uma cadeira no parlamento federal. Com o resultado, ela passou a figurar como a mulher mais jovem eleita para a bancada do estado.

A parlamentar eleita abordou a relevância das ferramentas virtuais no cotidiano da sociedade durante a disputa eleitoral recente.

“A rede social foi tratada como demérito várias vezes, e eu poderia ter feito muito mais se eu não tivesse que estar perdendo tempo provando que rede social elege. Vá a um ponto de ônibus às 18h30, e veja se tem alguém que não está com a mão no telefone. Para as ruas nós já vamos, mas nós precisamos ir para as redes”, afirmou Ana Elisa.

Segundo a análise acadêmica de Issaaf Karhawi, o cenário confirma a centralidade das plataformas no processo político institucional.

“Nos últimos anos, tinha muita gente que dizia coisas como: ‘Não vou debater com tiktoker’. O campo político não está mais na posição de menosprezar a importância das redes”, declarou a pesquisadora da USP.

Com as 513 vagas da Câmara dos Deputados definidas no primeiro turno, o calendário da Justiça Eleitoral estabelece o segundo turno para a escolha dos cargos majoritários do Poder Executivo em 25 de outubro de 2026.

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