O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, iniciaram as articulações para atrair os cerca de 9,3 milhões de eleitores que escolheram concorrentes eliminados na primeira etapa da eleição presidencial de 2026. A margem que separou os dois finalistas no domingo (4) foi inferior a dois pontos percentuais, o que coloca os eleitores de legendas de centro e de direita no centro estratégico das duas campanhas.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, somando 56.104.503 votos, enquanto Lula alcançou 45,16%, o equivalente a 53.879.538 votos. Os quatro nomes mais votados fora da polarização receberam parcelas expressivas: o escritor Augusto Cury, candidato pelo Avante, alcançou 2,89% dos válidos, com 3.448.466 votos; Renan Santos, do partido Missão, registrou 2,24%; o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, do PSD, somou 2,18%, com 2.605.148 votos; e Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais e candidato pelo Novo, obteve 0,27%, somando 326.488 votos.
Adesões de Romeu Zema e Ronaldo Caiado fortalecem palanque de Flávio Bolsonaro
As primeiras movimentações explícitas vieram de Romeu Zema e Ronaldo Caiado, que direcionaram forças contra o projeto petista. O candidato do Novo declarou apoio público logo na segunda-feira (5), justificando sua escolha pela rejeição à continuidade do atual governo: “Não vou me omitir, nem ficar em cima do muro nesse momento tão importante. Voto contra o PT, voto no Flávio Bolsonaro. O Brasil não aguenta mais quatro anos de Lula“, declarou Zema em pronunciamento.
Em movimento coordenado com lideranças regionais do Centro-Oeste, Ronaldo Caiado e o governador reeleito de Goiás, Daniel Vilela, do MDB, convocaram uma entrevista coletiva em Goiânia nesta terça-feira (6) para oficializar a adesão conjunta à campanha de Flávio Bolsonaro. A decisão ocorreu depois de o PSD, partido comandado nacionalmente por Gilberto Kassab, adotar neutralidade formal e liberar diretórios e mandatários estaduais para decidirem seus rumos individualmente na disputa.
Ainda não há confirmação sobre eventuais negociações de cargos ministeriais em um futuro governo de Flávio Bolsonaro para aliados de Ronaldo Caiado ou Romeu Zema. Os acordos firmados no início desta semana concentram-se na unificação de palanques regionais e na tentativa de consolidar os votos da centro-direita em estados com grande peso eleitoral.
Augusto Cury e Renan Santos anunciam neutralidade no segundo turno
Na direção oposta às alianças partidárias tradicionais, Augusto Cury e Renan Santos decidiram não orientar votos nem manifestar preferência pessoal entre os dois postulantes que avançaram. Terceiro colocado no pleito, Augusto Cury afirmou que se afastará completamente da militância político-partidária e proibiu integrantes de sua equipe de falarem por ele nesta etapa.
“Eu me silencio completamente em relação àqueles que estarão no segundo turno, dizendo o seguinte, que ninguém está autorizado em meu nome e nem em nome do Júlio a pedir ou dizer que vai apoiar qualquer um dos candidatos. E eu gostaria de me silenciar em relação a isso. Não quero responder nada em relação ao segundo turno”, afirmou Cury a jornalistas. Em manifestação posterior, complementou: “Quero que um conservador consiga ouvir um progressista sem odiá-lo; que um progressista consiga conversar com um conservador sem desumanizá-lo; que possamos criticar ideias sem destruir pessoas. Quem ganhar torço para que governe pensando em um Brasil de esperança”.
Renan Santos também recusou qualquer alinhamento com Flávio Bolsonaro ou com Lula, transferindo a decisão integralmente para a base de sua legenda: “Façam o que vocês quiserem. Quer votar em um, quer votar no outro? Fique à vontade”, declarou o candidato do Missão, que descartou indicar voto nulo de forma institucional.
Pesquisas de intenção de voto mostram dispersão de apoios entre os eleitores
Os levantamentos realizados antes do primeiro turno indicam que os eleitores não reproduzem automaticamente as posições adotadas pelas lideranças políticas. O analista Bruno Soller, especialista da Real Time Big Data, explicou que a motivação dos eleitores que fugiram da polarização é variada: “É um voto mais afirmativo, é um voto meio que contra tudo e contra todos. Não é um voto de posicionamento ideológico”.
Segundo a análise de Bruno Soller, o eleitorado de Romeu Zema já apresentava inclinação para o voto útil em Flávio Bolsonaro antes do encerramento das urnas, enquanto o grupo de Ronaldo Caiado dividia simpatias, mantendo parcelas mais velhas da população permeáveis a discursos sociais de Lula. No caso de Augusto Cury, eleitores mais alinhados à direita migraram ainda durante a campanha, restando no grupo remanescente cidadãos abertos a votar no candidato petista ou a optar pelo voto nulo. Já os apoiadores de Renan Santos concentravam postura de resistência aos dois grupos polarizadores.
A cientista política Cila Schulman pontuou que o cenário exige esforço maior do atual presidente para avançar além de sua base consolidada: “O mercado de votos para o Lula é muito restrito, porque ele está sozinho no campo da esquerda, então ele não tem como abarcar votos de um Ciro, de uma Simone ou de uma Marina como ele teve em outras eleições”. Schulman apontou que o petista depende de atrair eleitores que aprovam sua gestão governamental, mas que não manifestaram o voto na primeira etapa.
Um levantamento prévio da Quaest detalhou como se desenhava essa transferência potencial antes do primeiro turno:
- Eleitores de Renan Santos: 60% apontavam preferência por Flávio Bolsonaro, 11% por Lula e 27% declaravam voto em branco, nulo ou intenção de abstenção.
- Eleitores de Ronaldo Caiado: 43% indicavam escolha por Flávio Bolsonaro, 19% por Lula e 36% oscilavam entre votos em branco, nulos e abstenções.
- Eleitores de Augusto Cury: 34% manifestavam intenção de apoiar Flávio Bolsonaro, 23% pretendiam votar em Lula e 41% optavam por brancos, nulos ou indecisão.
Cronologia das decisões e datas do processo eleitoral de 2026
O processo decisório dos candidatos eliminados e a formalização das novas frentes de campanha obedecem ao calendário eleitoral deste mês de outubro de 2026:
- 4 de outubro de 2026 — Realização do primeiro turno das eleições presidenciais, consolidando a disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula.
- 5 de outubro de 2026 — Romeu Zema anuncia apoio a Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado acerta ato político em Goiânia.
- 6 de outubro de 2026 — Reunião às 14h30 em Goiânia onde Ronaldo Caiado e Daniel Vilela oficializam apoio conjunto a Flávio Bolsonaro.
- 25 de outubro de 2026 — Votação do segundo turno das eleições presidenciais em todo o território nacional.
A definição sobre o destino desses 9,3 milhões de votos passa agora pelos atos de campanha de rua e pela propaganda eleitoral no rádio e na televisão até o encerramento do período de votação no dia 25 de outubro de 2026.
