Aposentadoria especial: TNU julga exposição a pó de madeira

Marceneiro, carpinteiro - milanvirijevic/ istockphoto.com Foto: Marceneiro, carpinteiro - milanvirijevic/ istockphoto.com

A Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais Federais (TNU), órgão da Justiça Federal responsável por padronizar decisões de processos previdenciários de menor valor, afetou o Tema 399 para julgar se a poeira de madeira garante o direito à aposentadoria especial. A decisão, tomada em Brasília em 30 de setembro de 2026, vai estabelecer se a substância é um agente nocivo à saúde e quais requisitos o trabalhador precisa cumprir para comprovar a exposição no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A controvérsia jurídica tem como objetivo oficial: “Saber se a poeira de madeira é agente nocivo à saúde apto ao reconhecimento da especialidade do trabalho, bem assim estabelecer os eventuais requisitos ou condições para sua apuração.” Ao afetar o tema, o colegiado seleciona um processo representativo para fixar uma orientação única que deverá ser seguida pelos Juizados Especiais Federais de todo o país em ações semelhantes.

Dados do processo do Tema 399 na TNU e categorias avaliadas

Aposentadoria Especial INSS
Foto: Aposentadoria Especial INSS – Foto: skynesher/ Istockphoto.com

O processo aguarda análise definitiva do colegiado em Brasília. A seleção do caso como representativo de controvérsia paralisa discussões divergentes nas instâncias inferiores dos juizados até que os magistrados definam os critérios técnicos exigidos para a concessão do tempo especial aos segurados que atuam no beneficiamento de madeira.

  • Tema representativo: Tema 399 da Turma Nacional de Uniformização (TNU).
  • Processo paradigma: Pedido de Uniformização de Interpretação de Lei (PEDILEF) nº 5031713-65.2024.4.04.7000.
  • Relator na TNU: juiz federal Rodrigo Rigamonte Fonseca.
  • Data da afetação: 30 de setembro de 2026.
  • Situação processual: afetado, ainda sem tese final definida e sem data agendada para o julgamento de mérito.
  • Profissionais interessados: marceneiros, auxiliares de marcenaria, carpinteiros e trabalhadores de serrarias, fábricas de móveis e locais onde a madeira é cortada, serrada, torneada, perfurada ou lixada.

Classificação da poeira de madeira pelo INCA e riscos à saúde

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) classifica o pó gerado pelo processamento da madeira como uma mistura complexa composta principalmente de celulose, polioses e lignina, cuja inalação constante deposita partículas diretamente nas vias respiratórias dos operários. Na Lista Nacional de Agentes Cancerígenos para Humanos (LINACH) e na Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde, a poeira de madeira está inserida no Grupo 1, categoria reservada aos agentes confirmados como carcinogênicos para seres humanos.

Saiba mais: Aposentadoria especial do INSS garante benefício com 15 a 25 anos de risco

A exposição ocupacional a essas partículas no ambiente de trabalho está associada pelo INCA ao desenvolvimento de diversas doenças graves no trato respiratório e a tumores malignos em diferentes órgãos.

  • Doenças respiratórias associadas: bronquite crônica, rinite, asma ocupacional e alveolites.
  • Tipos de câncer relacionados pelo INCA: tumores na cavidade nasal, nos seios paranasais, na laringe, no pulmão, no estômago, no cólon e no reto, além de leucemia, linfomas e mieloma múltiplo.

Julgamento da TNU de 2023 e divergência sobre a poeira de madeira

A discussão atual no Tema 399 ocorre após a própria TNU já ter analisado a substância em um processo anterior, julgado em 22 de novembro de 2023 e publicado no Diário da Justiça em 24 de novembro de 2023. Na ocasião, ao avaliar o Pedido de Uniformização de Interpretação de Lei (PUIL) nº 0004718-31.2018.4.03.6324/SP, que tratava do caso de um marceneiro ou auxiliar de marcenaria sob relatoria da juíza federal Lilian Oliveira da Costa Tourinho, o colegiado reconheceu a nocividade do material, mas a falta de critérios detalhados para a perícia técnica levou à abertura do novo debate em 2026.

No julgamento de 2023, a Turma firmou a seguinte tese: “A poeira de madeira é agente nocivo à saúde, estando incluída no rol de agentes confirmados como carcinogênicos, Grupo 1, da Lista Nacional de Agentes Cancerígenos para Humanos – LINACH, publicada pela Portaria Interministerial MPS/MTE/MS n° 09 de 07 de outubro de 2014.” A referida norma foi editada em conjunto pelos ministérios da Previdência Social, do Trabalho e Emprego e da Saúde em 7 de outubro de 2014.

Confira também: Aposentadoria especial no INSS tem critério de 86 pontos e idade mínima de 60 anos para trabalhadores da saúde

Antes da decisão nacional de 2023, o tema enfrentava divergência entre regiões da Justiça Federal. Em 29 de abril de 2022, a Turma Regional de Uniformização (TRU) dos Juizados Especiais Federais da 4ª Região havia fixado tese em sentido contrário, determinando que a exposição à poeira vegetal proveniente do corte de madeira não possibilitava o reconhecimento de atividade especial.

Como comprovar a exposição à poeira de madeira no INSS

A afetação do Tema 399 pela TNU não revoga o entendimento firmado em 2023 nem altera de forma imediata as regras de análise do INSS. O ato judicial também não concede aposentadoria especial automática a todos os profissionais do setor madeireiro, pois o direito ao benefício exige que o segurado comprove as condições efetivas do ambiente laboral e cumpra as demais exigências previdenciárias.

Para demonstrar o contato habitual com agentes prejudiciais à saúde nos pedidos administrativos enviados ao INSS, o trabalhador deve apresentar o Perfil Profissiográfico Previdenciário (PPP). Esse formulário oficial reúne o histórico laboral do empregado e precisa ser preenchido pela empresa com base em avaliações técnicas do local de serviço, especialmente o Laudo Técnico das Condições Ambientais do Trabalho (LTCAT).

Veja também: INSS retoma concessão de aposentadoria especial por tempo de exposição após julgamento no STF

Como a simples anotação do nome do cargo na carteira de trabalho não basta para provar a insalubridade, o segurado deve verificar se o PPP descreve com exatidão as funções executadas, os períodos trabalhados e a presença do agente nocivo. Caso o documento apresente dados incompletos ou divergentes da realidade da fábrica ou marcenaria, o trabalhador pode solicitar a retificação diretamente ao empregador e reunir laudos complementares antes que a TNU marque a sessão de julgamento do Tema 399.

Notícias relacionadas