Cartão de crédito exige cautela entre pagar à vista ou parcelar compras

Cartão de crédito, compras - whitebalance.space/ istockphoto.com Foto: Cartão de crédito, compras - whitebalance.space/ istockphoto.com

O uso do cartão de crédito exige planejamento detalhado do consumidor para escolher entre quitar compras à vista ou recorrer ao parcelamento, em meio a taxas médias de juros no crédito rotativo que atingiram 444,9% ao ano em agosto de 2026. O dado oficial do Banco Central reforça o alerta de especialistas contra o acúmulo de faturas que possam comprometer a renda familiar.

Um levantamento da Serasa aponta que seis em cada dez brasileiros utilizaram a modalidade de pagamento nos últimos 12 meses, tendo a opção de parcelar como principal motivação para 41% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, 30% das pessoas recorrem às compras parceladas para bancar despesas rotineiras do dia a dia, 29% para aquisições específicas e 18% para suprir emergências de saúde.

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Quando o parcelamento no cartão vale a pena para o consumidor?

Cartão de crédito
Foto: Cartão de crédito – Foto: Prathankarnpap / Shutterstock.com

A decisão de estender o pagamento ao longo dos meses depende diretamente de três fatores: a existência de desconto no valor à vista, a capacidade de honrar os compromissos futuros sem aperto financeiro e a durabilidade do produto adquirido. O economista e professor do mestrado em Administração da Universidade Estácio, José Trigo, pontua que desembolsar o montante total de imediato é vantajoso se não desfalcar as reservas financeiras.

“Se a compra pode ser paga à vista sem comprometer o orçamento e houver desconto, costuma ser a melhor opção. Parcelar pode ser vantajoso quando ajuda a encaixar a compra no orçamento sem apertar as contas do mês”, afirmou José Trigo. O economista explica que mercadorias de consumo rápido, como refeições e mantimentos, não devem ser parceladas, pois geram novas cobranças mensais quando o item já foi utilizado.

Por outro lado, manter o dinheiro aplicado enquanto se paga prestações sem juros pode beneficiar o consumidor organizado. Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, sustenta que o adiamento das parcelas só faz sentido mediante absoluta certeza de liquidez: “Tempo é dinheiro, principalmente quando se trata de recursos financeiros. Às vezes, eu tenho o dinheiro na conta, ele está aplicado, e aí se torna ainda mais vantagem, porque posso parcelar e deixá-lo rendendo”.

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Juros bancários e indicadores do crédito no Banco Central

  • Taxa média do rotativo do cartão de crédito: 444,9% ao ano em agosto de 2026
  • Taxa média do rotativo registrada no mês anterior: 436,2% ao ano em julho de 2026
  • Taxa média cobrada no cartão parcelado: 192,1% ao ano em agosto de 2026
  • Patamar do cartão parcelado no período anterior: 189,3% ao ano em julho de 2026
  • Limite legal de juros acumulados sobre a dívida: 100% do valor original do débito

Gastos acumulados na fatura e risco do crédito rotativo

As estatísticas divulgadas pelo Banco Central em 29 de setembro de 2026 revelam que o custo do crédito encareceu tanto na modalidade rotativa quanto no parcelado convencional emitido pelas instituições financeiras. O rotativo subiu de 436,2% para 444,9% anuais entre julho e agosto, enquanto o parcelado avançou de 189,3% para 192,1% ao ano no mesmo intervalo.

Apesar de a legislação em vigor desde 3 de janeiro de 2024 limitar a cobrança acumulada de juros e encargos em até 100% do principal da dívida, a taxa anualizada calculada pelo Banco Central reflete a rapidez com que débitos não pagos multiplicam o valor original cobrado dos clientes inadimplentes. Especialistas apontam que financiar a fatura gera um endividamento que anula qualquer benefício inicial do parcelamento.

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“O ideal é que a parcela caiba confortavelmente no orçamento e que o consumidor evite acumular várias compras parceladas ao mesmo tempo. O principal risco é perder o controle dos compromissos futuros e acabar recorrendo ao crédito rotativo, que tem juros muito elevados”, declarou José Trigo, reforçando que compras simultâneas de pequeno valor costumam surpreender na data de fechamento.

Controle de despesas no dia a dia

Para Caio Camargo, coordenador de crédito da Serasa e especialista em educação financeira, o cartão não pode ser transformado em um complemento artificial do salário quando a renda fixa se mostra insuficiente para as necessidades mensais. “Os juros podem fazer com que uma solução de curto prazo se transforme em uma dívida de longo prazo. Por isso, o mais importante para o consumidor é ter clareza sobre quanto do orçamento está sendo comprometido com o cartão e conseguir planejar o pagamento da fatura”, disse Camargo.

A agente comunitária de saúde Amanda Barbosa, de 27 anos, utiliza métodos próprios para monitorar as prestações contraídas. “Minha relação com o cartão de crédito já é bem antiga. Eu não compro comida nele, e nada que é básico, a não ser que haja alguma emergência. Só costumo comprar coisas para casa, roupas, maquiagem ou compras muito grandes, como uma TV, que realmente preciso parcelar porque não consigo pagar à vista. Tento parcelar sempre para ter poder de compra e, ao mesmo tempo, não ficar sem nada no mês. Fico ali sempre monitorando meus gastos. Tenho uma conversa comigo mesma no WhatsApp onde vou anotando todas as minhas prestações para ter uma noção do que posso ou não gastar e, assim, não comprometer minha renda mensal sem necessidade”, relatou Amanda Barbosa.

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Para quem já perdeu o controle dos vencimentos, a recomendação de Caio Camargo consiste em mapear o passivo total e buscar linhas de financiamento com custo mais baixo. A lista detalhada das despesas analisadas individualmente pela Universidade Estácio não foi divulgada na íntegra no relatório de recomendações financeiras.

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