O Museu do Instituto Evandro Chagas (MEV), em Belém (PA), inaugura nesta terça-feira (20) a exposição gratuita “Sífilis: arte, ciência e cidadania”. Idealizada pelo Laboratório de Infecções Sexualmente Transmissíveis e Tracoma (LBIST) do Instituto Evandro Chagas (IEC), a mostra permanece em cartaz até 15 de dezembro de 2026 com foco na prevenção, na memória e no tratamento da doença.
A programação do dia de abertura começa pela manhã com uma pré-estreia reservada a gestores de instituições de ensino, cultura e saúde, além de patrocinadores e parceiros, e abre ao público geral no período da tarde. “Nossa missão institucional não é só produzir conhecimento, mas traduzi-lo e realizar divulgação científica para a sociedade”, afirmou Daniela Soares, pesquisadora do LBIST e da Seção de Bacteriologia e Micologia (SEBAC) do IEC e uma das idealizadoras do projeto.
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Além de Daniela Soares, a iniciativa conta com o trabalho dos pesquisadores Joana Favacho e Herald Reis, ambos integrantes do LBIST, na instituição dirigida por Lívia Carício Martins. O texto de apresentação da mostra resume a proposta do espaço cultural para os visitantes: “Ciência que se encontra com a arte. Memória que se transforma em diálogo. Um museu que se abre para a sociedade”.
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Avanço dos casos de sífilis no Brasil e dados da OMS
A realização da mostra ocorre diante do crescimento dos índices da infecção, que é causada pela bactéria Treponema pallidum e tem caráter sistêmico, quando o microrganismo se espalha pelo corpo, mas conta com métodos de prevenção e cura. De acordo com o Boletim Epidemiológico – Sífilis 2025, do Ministério da Saúde, e dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo registrou 8 milhões de casos em 2022 entre jovens e adultos de 15 a 49 anos, sendo que 42% dessa incidência mundial ficou concentrada no continente americano.
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No Brasil, a taxa de detecção de sífilis adquirida — transmitida por relação sexual ou por contaminação sanguínea — saltou de cerca de 20 casos por 100 mil habitantes, em 2014, para 120,8 casos por 100 mil habitantes em 2024, número que aparece arredondado para 120 no material de divulgação do museu. O índice nacional havia apresentado declínio anos antes, mas voltou a subir em 2021, quando marcou 82,8 casos por 100 mil habitantes, registrando alta em todos os estados brasileiros.
O levantamento do Ministério da Saúde aponta ainda que o país contabilizou 810.246 casos de sífilis em gestantes entre 2005 e 30 de junho de 2025, atingindo uma taxa de detecção nacional de 35,4 casos para cada 1.000 nascidos. Segundo o boletim oficial, a expansão da doença está ligada a fatores como a “baixa percepção do risco” e “o estigma que ainda envolve as ISTs”.
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Para a pesquisadora Daniela Soares, o combate à infecção passa por ampliar o debate público sobre o diagnóstico e a prevenção. “A gente precisa falar sobre sífilis. Já se fala muito sobre HIV, HPV, mas pouco se fala sobre a sífilis. É uma doença secular”, disse.
A inspiração da mostra no livro sobre sífilis de Mauro Passos
Para abordar uma enfermidade documentada há cerca de 500 anos e cercada por tabus sociais, a equipe do Instituto Evandro Chagas buscou referências no livro “Sífilis – Ou Mal Perpétuo”, escrito por Mauro Romero Leal Passos, pesquisador de infecções sexualmente transmissíveis e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). A publicação resgata diferentes representações da doença ao longo dos séculos, trabalhando desde o nível simbólico da linguagem até os efeitos físicos no corpo humano.
Entre as peças históricas referenciadas na exposição em Belém estão a pintura “Cabeça de um Jovem”, produzida em 1523 por Hans Holbein, e um cartaz espanhol datado de 1900. Na obra literária que inspirou a curadoria, Mauro Passos descreve o conteúdo dessa peça gráfica do início do século 20: “Apresenta uma mulher prostituta que oferece uma flor, transmitindo a aparência da inocência e da beleza. Porém, esconde a terrível desgraça de ser uma portadora da sífilis”.
Atividades no IEC e parceria com a UFPA antes da exposição
O cronograma da mostra começou a ser desenhado no segundo semestre de 2026, quando a inauguração chegou a ser pautada internamente pela direção do IEC, em agosto, para o dia 1º de outubro de 2026, antes da confirmação oficial para 20 de outubro de 2026. O planejamento reuniu membros do projeto e representantes do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará (ICA/UFPA) no prédio do museu em 1º de julho de 2026.
Antes disso, em 29 de junho de 2026, as seções SEBAC, SEEIC e SECMI do IEC organizaram o workshop “Luz, Câmera e Prevenção: estratégias educativas para sífilis”, realizado no Auditório Central do Centro Nacional de Primatas (CENP). O evento incluiu palestras e a exibição do filme “Cobaias”, dirigido por Joseph Sargent em 1997, que retrata o racismo e as violações éticas do estudo de Tuskegee, conduzido nos Estados Unidos em meados do século 20.
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Outra etapa preparatória ocorreu em setembro de 2026, quando 44 alunos do curso de Produção Multimídia do ICA/UFPA participaram de um Hackathon — maratona de desenvolvimento de projetos e soluções criativas — em parceria com a equipe do IEC. A mestranda do Programa de Epidemiologia e Vigilância em Saúde do IEC e integrante do projeto, Thaissa Pantoja, avaliou o resultado do encontro com os universitários.
“Participar do Hackathon foi uma experiência única e ampliou minha visão sobre as possibilidades de fazer educação em saúde. Nós, que atuamos na área da saúde, muitas vezes temos uma visão limitada sobre como comunicar, seja pela linguagem técnica ou pela própria formação. A educação em saúde não precisa ser feita apenas por cartilhas ou pelo medo e alarmismo; ela também pode ser lúdica, divertida e interativa, sem deixar de ensinar e conscientizar”, declarou Thaissa Pantoja.
Como visitar a exposição sobre sífilis no Museu do IEC?
Além da visitação às galerias, o projeto abre o auditório do MEV para que escolas, faculdades, coletivos e organizações sociais promovam oficinas, rodas de conversa e intervenções socioculturais mediante agendamento prévio junto à administração do museu. Duas instituições já estão confirmadas nessa programação de ocupação cidadã no mês de novembro, enquanto o cronograma prevê ainda dois sábados com atividades extras cujas atrações específicas ainda não foram divulgadas pelo instituto.
- Exposição: “Sífilis: arte, ciência e cidadania”.
- Local: Museu do Instituto Evandro Chagas (MEV), na Avenida Almirante Barroso, 492, Belém (PA), com acesso pela travessa Curuzu.
- Período de visitação: de 20 de outubro de 2026 (abertura ao público à tarde) a 15 de dezembro de 2026.
- Dias e horários regulares: terças, quartas e sextas-feiras, das 10h às 17h (entrada permitida até as 16h30).
- Sábados com programação extra: 7 de novembro de 2026 e 5 de dezembro de 2026, das 10h às 17h.
- Ocupações cidadãs agendadas no auditório: Escola Superior Madre Celeste (Faculdade Esmac), em 6 de novembro de 2026, e Santa Casa de Misericórdia do Pará, em 25 de novembro de 2026.
- Ingresso: entrada gratuita, mediante apresentação obrigatória de documento oficial de identidade com foto na portaria.
