Tailândia cria imposto em três níveis para frear importação de carros elétricos chineses sem peças locais

BYD Dolphin G DM-i - Divulgação/ BYD

BYD Dolphin G DM-i - Divulgação/ BYD

O governo da Tailândia aprovou em 10 de setembro de 2026 uma nova estrutura tributária para conter a importação de carros elétricos da China e exigir o uso de autopeças nacionais. A revisão ocorre após a rápida entrada de montadoras chinesas provocar falências de fornecedores locais, fechamento de fábricas japonesas e risco direto para uma cadeia produtiva que emprega cerca de 700 mil trabalhadores no país asiático.

Nos primeiros sete meses de 2026, os modelos elétricos atingiram um terço de todas as vendas de veículos zero-km no mercado tailandês, mas dois terços dessas unidades vieram prontas do exterior, principalmente de fábricas chinesas. “A mudança foi muito mais rápida do que qualquer um previa. Não levamos em conta o impacto global. As consequências para a Tailândia foram muito piores do que imaginávamos”, afirmou Supavud Saicheua, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social da Tailândia.

Como funciona o novo imposto da Tailândia para carros elétricos?

Foto: BYD Ti7 – Divulgação

A cobrança aprovada em princípio pelo Conselho Nacional de Política de Veículos Elétricos da Tailândia reformula o imposto de consumo (excise tax, tributo federal aplicado sobre bens industrializados) para forçar a nacionalização de componentes. A medida responde aos pedidos de montadoras tradicionais como Toyota e Honda, que perderam espaço para marcas chinesas como BYD, Changan, GAC Aion, Neta e Chery. As três faixas de tributação definidas pelo conselho dividem as fabricantes pelo grau de produção no país:

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  • Alíquota menor: aplicada às montadoras que comprovam alto índice de peças fabricadas por fornecedores dentro da Tailândia.
  • Taxa intermediária: cobrada de empresas que realizam a montagem local dos veículos, mas utilizam componentes importados.
  • Taxa máxima: destinada aos veículos totalmente importados de outros países por marcas sem planos de produção nacional.

A reação governamental ganhou força em 20 de agosto de 2026, quando o primeiro-ministro tailandês, Anutin Charnvirakul, ordenou ao vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Ekniti Nitithanprapas, a revisão das regras tributárias para evitar concorrência desleal contra fabricantes do Japão instaladas há décadas no país. No mesmo mês de agosto, o ministro das Finanças da Indonésia, Purbaya Yudhi Sadewa, chegou a convidar a Toyota para transferir sua principal base regional da Tailândia para o território indonésio em troca de incentivos fiscais, o que levou Anutin Charnvirakul a viajar a Tóquio em setembro de 2026 para tranquilizar executivos japoneses.

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Risco de 300 mil demissões na indústria da Tailândia

Mesmo com as barreiras fiscais, estudos conduzidos pelo professor de gestão de cadeia de suprimentos da Universidade Thammasat e ex-assessor do Ministério do Comércio tailandês, Ruth Banomyong, estimam que até 300 mil empregos podem desaparecer em cinco anos caso os veículos elétricos dominem o mercado local. Segundo o pesquisador, as fabricantes chinesas operam em um ecossistema fechado, mantêm o núcleo tecnológico na China e dificultam a contratação de fornecedores tailandeses de autopeças. “O ganho para a economia local é mínimo”, disse Ruth Banomyong.

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O choque na indústria atingiu trabalhadores como a tailandesa Netsana Sakulpolpanya, de 49 anos, que ingressou em 2011 em uma fabricante de sistemas de escapamento e silenciosos na província de Samut Prakan, cujo principal cliente era a japonesa Toyota. Com a queda nas encomendas de carros a combustão, a empresa cortou horas extras, reduziu os vencimentos para 75% do valor original e faliu em 2024, deixando a ex-operária e outros colegas sem pagamento de rescisão. “Culpo o governo por não ter gerido essa transição de forma justa”, declarou Netsana Sakulpolpanya.

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Os dados financeiros e trabalhistas levantados no setor de autopeças mostram a dimensão das perdas para a mão de obra local:

  • Quase 900 trabalhadores: total de funcionários demitidos sem indenização no fechamento da fábrica de escapamentos em Samut Prakan em 2024.
  • US$ 440 por mês: salário mensal que Netsana Sakulpolpanya recebia operando moldes e prensas, além de bônus que chegaram a cinco salários extras mais US$ 740 no ano de 2012.
  • US$ 11 por dia: renda diária atual da ex-operária trabalhando em um supermercado após a falência da fornecedora automotiva.

No setor sindical, o presidente do Congresso dos Trabalhadores Automotivos da Tailândia, Tossophol Kunsri, denunciou ao Ministério do Trabalho que as montadoras chinesas contratam operários locais por períodos curtos, dispensam as equipes sem verbas rescisórias e rejeitam a formação de sindicatos. O ministério informou que vai investigar as acusações. “Estamos em uma encruzilhada. Vamos continuar sendo uma base fabril de verdade ou vamos virar apenas um pátio de descarte de elétricos baratos da China?”, afirmou Tossophol Kunsri.

Fábrica da BYD em Rayong e o fim das plantas de Suzuki e Subaru

O avanço chinês redesenhou o polo industrial de Rayong, onde a BYD inaugurou em 2024 sua primeira fábrica de veículos elétricos de passeio fora da China, em uma área equivalente a 180 campos de futebol que recebeu mais de US$ 1 bilhão em investimentos. A 30 quilômetros do complexo da BYD, uma antiga planta da americana General Motors passou para o controle da chinesa Great Wall Motor, enquanto a dez minutos de distância a Ford assumiu instalações de montagem que pertenciam à japonesa Suzuki, que fechou fábricas no país assim como a também japonesa Subaru.

O diretor-geral da BYD na Tailândia, Benson Ke, afirmou que a unidade de Rayong emprega 5.600 pessoas — sendo 94% de cidadãos tailandeses —, adquire chapas de aço no mercado interno, monta baterias com parceiros locais e exporta veículos para o Sudeste Asiático, Austrália e Europa. Questionado sobre a porcentagem exata de componentes vindos da China, onde ficam os fornecedores das células de bateria e do grupo Midea (controlador dos robôs alemães Kuka usados na linha que produz o SUV elétrico BYD Atto 3 em turnos de 24 horas com meta diária de 4.000 carros), Benson Ke não informou o número: “São muitos componentes, fica difícil detalhar.”

Programas de incentivo de 2022 e 2023 abriram a Tailândia para a China

Conhecida como a “Detroit do Oriente” desde a chegada das montadoras japonesas na década de 1960, a Tailândia abriu seu mercado aos elétricos em 2022, quando o então primeiro-ministro Prayuth Chan-ocha lançou o programa EV 3.0 com a meta de ter 30% da produção nacional composta por carros de emissão zero até 2030. O pacote reduziu o imposto de consumo de 8% para 2%, deu subsídios de compra e isentou tarifas de importação por dois anos antes de cobrar produção local, somando-se a um acordo de livre comércio já existente entre a China e a Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) que zerou a alíquota de entrada para veículos chineses.

Em setembro de 2023, o sucessor no cargo de primeiro-ministro, Srettha Thavisin, foi a Pequim buscar novos aportes de montadoras chinesas sob o argumento de impedir que o capital migrasse para o Vietnã ou a Malásia, embora tenha reconhecido depois a falta de metas rígidas para uso de mão de obra e peças nacionais. Entre os consumidores, porém, a oferta de sistemas de condução autônoma, câmeras de 360 graus e preços menores impulsionou as vendas chinesas, segundo o apresentador automotivo tailandês Nithi Thuamprathom, que soma 1,2 milhão de inscritos na internet. “A era em que as montadoras japonesas nadavam em dinheiro sem esforço na Tailândia acabou. Agora elas vão ter que aprender a competir de verdade”, declarou Nithi Thuamprathom.

Jeronimo Santos: Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing