Um exame experimental de PET/CT que rastreia o câncer de rim por meio da proteína anidrase carbônica IX (CAIX) identificou 97,9% das lesões de carcinoma renal de células claras, o subtipo que responde por 70% a 80% dos casos da doença em adultos. O resultado, apresentado na terça-feira (20) durante o 39º Congresso Anual da Associação Europeia de Medicina Nuclear (EANM’26), em Viena, na Áustria, superou os 47,1% de detecção registrados pelo método convencional na mesma amostra de pacientes.
A pesquisa prospectiva e multicêntrica foi conduzida por cientistas da Turquia, tendo como autora principal da apresentação a médica e professora pesquisadora Esra Arslan, da Universidade de Ciências da Saúde da Turquia, em Istambul, e como coautor o pesquisador Halil Kömek. O trabalho teve publicação prévia online no banco de dados científico PubMed em 17 de setembro de 2026 e avaliou se o uso de um alvo biológico específico melhora a localização de tumores primários e metástases.
Como o radiotraçador [68Ga]Ga-DPI-4452 age no câncer de rim
O PET/CT é um exame de imagem que combina a avaliação da atividade biológica dos tecidos com imagens detalhadas da anatomia do corpo, utilizando uma substância radioativa injetável chamada radiotraçador. Na rotina oncológica convencional, a modalidade mais comum é o 18F-FDG PET/CT, que emprega uma substância semelhante à glicose marcada com flúor-18 para flagrar células tumorais pelo alto consumo de açúcar. No entanto, essa estratégia tem eficácia limitada no câncer renal porque o FDG é excretado pelo trato urinário e se acumula nos rins e na urina, dificultando a visualização de tumores locais, além de alguns tumores renais de baixo grau consumirem pouca glicose.
Para contornar essa barreira, a equipe turca utilizou o agente de imagem experimental [68Ga]Ga-DPI-4452, marcado com o elemento radioativo gálio-68. Em vez de medir o consumo de açúcar, a substância se liga diretamente à proteína CAIX, encontrada em quantidades elevadas na superfície das células do carcinoma renal de células claras.
“A CAIX nos fornece um alvo biológico altamente seletivo. Ela é expressa em uma taxa muito alta no carcinoma renal de células claras, enquanto a expressão no tecido renal normal permanece mínima. Isso nos dá o potencial de distinguir o tumor do tecido saudável ao redor com muito mais clareza”, afirmou Esra Arslan, em tradução livre.
Nos exames realizados durante o estudo, a captação do novo radiotraçador no interior das lesões foi aproximadamente cinco vezes maior do que a registrada com o FDG. O contraste obtido nas imagens entre o tumor e os tecidos saudáveis ao redor também foi cerca de dez vezes superior, tornando os focos da doença mais visíveis.
Desempenho do novo PET/CT na detecção de 492 lesões
Os pesquisadores acompanharam pacientes previamente selecionados em mais de um centro de pesquisa e compararam diretamente as duas modalidades de imagem. Os números consolidados do estudo demonstram a diferença de sensibilidade entre o composto marcado com gálio-68 e o exame tradicional com flúor-18:
- Pacientes avaliados com carcinoma de células renais: 68 adultos;
- Total de lesões consideradas verdadeiras na amostra: 492 (incluindo tumores primários e focos espalhados pelo corpo);
- Detecção no carcinoma renal de células claras: 97,9% com o [68Ga]Ga-DPI-4452 contra 47,1% com o 18F-FDG;
- Detecção considerando todos os subtipos de carcinoma renal analisados: 90,9% com o novo método contra 56,7% com o 18F-FDG;
- Acurácia diagnóstica por paciente no subtipo de células claras (classificação correta do quadro): 98,2% com a nova técnica contra 77,2% no exame convencional;
- Detecção em linfonodos (estruturas do sistema imunológico): 95% pelo novo método frente a 68,9% com o FDG;
- Detecção de metástases cerebrais: 100% pelo novo exame, com proporção mediana máxima de contraste tumor-fundo de 281,3, contra 0,7 do FDG;
- Detecção de metástases pulmonares: 100% das lesões identificadas pelo novo PET, enquanto o FDG localizou cerca de metade.
O fígado foi o único órgão avaliado em que o exame convencional com FDG apresentou desempenho melhor na soma de todos os subtipos de câncer renal investigados. De acordo com os pesquisadores, isso pode ocorrer porque determinados subtipos de tumores renais possuem menor quantidade da proteína CAIX em suas células, reduzindo a fixação do novo radiotraçador nessa região.
Mudança de conduta médica em 30,9% dos pacientes com câncer renal
A localização exata dos focos tumorais define a escolha do tratamento oncológico: enquanto um tumor restrito ao rim pode ter indicação de cirurgia para retirada da lesão, a presença de metástases em linfonodos ou órgãos distantes costuma exigir medicamentos sistêmicos, como imunoterapia e terapias-alvo. Na pesquisa, o uso do [68Ga]Ga-DPI-4452 alterou o estadiamento (classificação da extensão da doença) ou a conduta clínica em 30,9% dos pacientes avaliados, percentual que foi de 5,9% com o PET utilizando FDG. O exame experimental permitiu localizar tumores que restaram após tratamentos prévios, identificar retornos da doença e descobrir metástases até então desconhecidas, reclassificando pacientes que pareciam ter poucos focos como portadores de doença disseminada. Além disso, o novo método descartou resultados falsos-positivos apontados pelo FDG em três pacientes, evitando intervenções médicas desnecessárias.
Limitações frente à tomografia e próximos passos da técnica
Apesar da vantagem sobre o PET convencional, o exame experimental ainda não substitui os métodos usados na rotina hospitalar. Atualmente, as diretrizes da Associação Europeia de Urologia recomendam a tomografia computadorizada com contraste como exame padrão para o estadiamento inicial do câncer de rim, além da ressonância magnética em casos específicos. Como o 18F-FDG PET/CT já não é indicado rotineiramente nessa fase inicial por suas limitações conhecidas no trato urinário, o estudo não comprovou que a nova tecnologia seja superior à tomografia com contraste.
Os cientistas apontam que a tecnologia precisará passar por estudos maiores para validar sua segurança e eficácia em três frentes futuras: avaliar a extensão do tumor antes da cirurgia, investigar suspeitas de recorrência e selecionar pacientes para a chamada aplicação teranóstica. Nessa estratégia em investigação, a proteína CAIX serviria tanto para o diagnóstico por imagem quanto para guiar um tratamento com substância radioativa direcionada diretamente às células tumorais.
Até o momento, não há previsão de aprovação comercial ou de disponibilidade clínica do radiotraçador [68Ga]Ga-DPI-4452 no Brasil, nem comprovação científica de que a maior detecção de lesões pelo novo exame aumente a sobrevida global dos pacientes a longo prazo.
