Um estudo liderado por pesquisadores brasileiros identificou um conjunto de dez proteínas no sangue que pode ajudar a detectar precocemente o risco de hipertensão pulmonar antes da manifestação dos sintomas. Divulgada nesta sexta-feira (23) e publicada na revista científica Nature Communications, a investigação abre caminho para o desenvolvimento de um futuro exame menos invasivo e aponta novos alvos para tratamentos.
O trabalho foi conduzido por Fernando Rabioglio Giugni, pesquisador do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), durante seu pós-doutorado na University of Texas Southwestern Medical Center, localizada em Dallas, nos Estados Unidos. A iniciativa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Para rastrear os marcadores sanguíneos, a equipe aplicou a técnica de proteômica, método laboratorial capaz de medir milhares de proteínas simultaneamente em uma única amostra de sangue. O grupo adotou uma abordagem classificada como agnóstica, na qual não há uma proteína-alvo previamente escolhida antes do início dos testes.
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“Tradicionalmente, a gente parte de uma hipótese bem formulada e testa especificamente a associação de uma determinada proteína com uma doença. Aqui, a gente não tinha uma hipótese prévia e pôde procurar, entre milhares de proteínas, associações que não teríamos necessariamente como encontrar de outra forma”, afirmou Fernando Rabioglio Giugni.
Etapas da triagem de proteínas na hipertensão pulmonar
Os cientistas realizaram um funil de validação em diferentes grupos populacionais e com métodos distintos de medição para confirmar quais substâncias tinham relação consistente com o desenvolvimento do quadro clínico. Na fase inicial, os níveis encontrados no sangue significavam apenas uma ligação com a pressão da artéria pulmonar, exigindo testes adicionais para comprovar o vínculo direto com a doença.
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O primeiro filtro de confirmação envolveu pacientes submetidos ao cateterismo cardíaco direito, procedimento invasivo no qual um tubo fino e flexível é inserido por uma veia em geral na virilha, no braço ou no pescoço e guiado até o lado direito do coração e à artéria pulmonar para medir diretamente a pressão na circulação. Na etapa seguinte, os dados foram cruzados com registros do UK Biobank, banco de dados britânico que acompanha a saúde de milhares de participantes ao longo do tempo.
- Primeira etapa (proteômica): cerca de 5 mil proteínas analisadas simultaneamente nas amostras de sangue, resultando em 22 associadas aos níveis de pressão da artéria pulmonar.
- Segunda etapa (cateterismo cardíaco direito): 15 proteínas mantiveram associação direta com os valores de pressão medidos durante o exame invasivo.
- Terceira etapa (cruzamento com o UK Biobank, que acompanha cerca de 500 mil pessoas): 10 proteínas estavam disponíveis na base e todas confirmaram associação com o risco futuro da doença, sendo 9 em níveis mais altos no sangue e 1 em nível mais baixo.
Proteína NOTCH3 como possível alvo terapêutico na hipertensão pulmonar
Além de buscar biomarcadores para detecção antecipada, os autores investigaram se alguma das substâncias participava ativamente dos mecanismos biológicos que provocam a doença. Entre as dez proteínas do grupo final, a NOTCH3 foi a que mais se destacou nas análises como potencial alvo para o desenvolvimento de medicamentos.
Para verificar se a NOTCH3 atuava na causa do problema e não apenas como consequência dele, a equipe utilizou a randomização mendeliana, técnica que cruza estatísticas de grandes bancos de dados genômicos para funcionar como um teste de causa e efeito. O cruzamento revelou que indivíduos que nascem com variações no DNA responsáveis por produzir naturalmente mais NOTCH3 apresentam maior risco histórico de desenvolver hipertensão pulmonar ao longo da vida.
Os dados reforçam resultados de estudos experimentais anteriores, feitos em modelos animais e celulares, que já indicavam relação entre a via de sinalização da NOTCH3 e a proliferação celular nas artérias pulmonares na hipertensão arterial pulmonar, forma mais rara da condição ligada diretamente aos vasos dos pulmões. “Essa convergência entre as evidências obtidas a partir da genética e da proteômica em humanos e os estudos experimentais reforça a necessidade de investigar a via como possível alvo terapêutico”, declarou Giugni.
Segundo o pesquisador, caso uma terapia direcionada à proteína NOTCH3 seja criada no futuro, a medição de suas taxas sanguíneas poderá indicar quais pacientes têm maior participação desse mecanismo biológico, selecionando os candidatos ideais para um tratamento personalizado.
Incidência da hipertensão pulmonar e desafios do diagnóstico atual
Caracterizada pelo aumento da pressão nos vasos sanguíneos que transportam o sangue do coração para os pulmões, a hipertensão pulmonar é dividida pela medicina em duas classificações principais. Ela é considerada primária quando não há outra enfermidade associada que explique o quadro, ou secundária, forma mais frequente que surge como consequência de alterações cardíacas, a exemplo da insuficiência cardíaca, ou de problemas respiratórios, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Embora muitas vezes tratada como rara, a condição apresenta taxas relevantes na população mais velha e esbarra na complexidade do diagnóstico clínico, já que seus sintomas costumam ser genéricos. Atualmente, o ecocardiograma levanta a suspeita inicial ao estimar a pressão da artéria pulmonar, mas a confirmação definitiva depende obrigatoriamente do cateterismo cardíaco direito, exame mais caro, invasivo e que não está disponível em todos os serviços de saúde.
Instituições, financiamento e índices da pesquisa sobre hipertensão pulmonar
O levantamento reuniu centros de pesquisa do Brasil e dos Estados Unidos e detalhou a proporção da população afetada pelos diferentes tipos da doença.
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- Data de divulgação: 23 de outubro de 2026.
- Instituições envolvidas: Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor (FM-USP), em São Paulo, e University of Texas Southwestern Medical Center, em Dallas (EUA).
- Financiamento: FAPESP, por meio dos projetos de pesquisa 26/05647-2 e 2025/10898-1.
- Alcance na população geral: afeta entre 0,5% e 1% das pessoas quando contabilizados os diferentes tipos da doença.
- Alcance em idosos: atinge frequência de quase 10% entre pessoas com mais de 65 anos, índice que inclui casos mais leves.
Ainda não há previsão de quando um exame comercial baseado nas dez proteínas poderá estar disponível para uso clínico de rotina. De acordo com Giugni, o teste sanguíneo não existe na prática médica atual porque ainda é necessário desenvolver e validar métodos laboratoriais capazes de medir essas dez proteínas de maneira precisa e reprodutível em larga escala, além de confirmar em novos estudos se o rastreamento dessas alterações permite identificar na prática quem desenvolverá a doença.
