Vincent van Gogh pintou céu de julho de 1889 em A Noite Estrelada, apontam astrônomos

7 min de leitura
Estrelas brilhantes em um fundo abstrato do céu azul no estilo de pinturas - WhataWin/shutterstock.com Foto: Estrelas brilhantes em um fundo abstrato do céu azul no estilo de pinturas - WhataWin/shutterstock.com

Pesquisadores sul-coreanos identificaram que a pintura A Noite Estrelada, do artista pós-impressionista holandês Vincent van Gogh, retrata o céu real observado antes do amanhecer de 22 de julho de 1889 sobre o município de Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França. O estudo, conduzido pela Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee e pela empresa de ciência espacial SLLAB, foi publicado na revista científica Scientific Reports na quinta-feira (22).

A descoberta altera a cronologia tradicional da história da arte, que situava a criação da tela em meados de junho daquele mesmo ano. O trabalho foi liderado por Elijah Jeong-hyun Kim, diretor-executivo (CEO) da fabricante de telescópios robóticos SLLAB e doutorando na Universidade Kyung Hee, que analisou a disposição dos astros na tela. “Estou confiante de que 22 de julho é a melhor data. Eu apostarei nesta data”, afirmou Kim, em tradução livre.

Como os astrônomos identificaram a data de A Noite Estrelada?

Para determinar o momento exato que inspirou o pintor holandês há 137 anos, o grupo formado por Elijah Jeong-hyun Kim e pelos coautores e pesquisadores Ho Jin, Suna Kang e Jungwoo Song examinou a configuração astronômica da madrugada de 22 de julho de 1889. Naquelas primeiras horas do dia, o campo de visão do artista reunia, próximos uns dos outros, uma fina Lua minguante, o planeta Vênus e o aglomerado estelar das Híades, localizado na constelação de Touro.

A identificação do grupo de estrelas partiu da experiência direta com o céu noturno. Segundo Kim declarou, quando astrônomos observacionais como ele e astrônomos amadores veem um fragmento de um céu estrelado, eles querem resolver o quebra-cabeça, e ele foi simplesmente alguém que perseguiu esse processo de forma um pouco mais ativa.

Os cientistas isolaram cinco estrelas espalhadas pela pintura de van Gogh. Ao conectar esses pontos e ajustar parâmetros como tamanho, orientação e ângulo, a equipe verificou que o desenho formado coincide com a estrutura real do aglomerado das Híades. O método combinou geometria observacional, simulações astronômicas computacionais, cartas redigidas pelo próprio pintor e registros meteorológicos e astronômicos do século XIX.

Além dos cálculos em laboratório em Seul, na Coreia do Sul, os pesquisadores realizaram duas viagens de campo a Saint-Rémy-de-Provence ao longo de 2019. As visitas ocorreram em meados de junho e por volta do dia 22 de julho, permitindo à equipe observar presencialmente o horizonte francês nas mesmas épocas do ano analisadas no estudo.

Mulher pendurando quadro, Noite Estrelada de Van Gogh - Rawpixel.com/ shutterstock.com
Foto: Mulher pendurando quadro, Noite Estrelada de Van Gogh – Rawpixel.com/ shutterstock.com

Medições estelares e dados da publicação sobre A Noite Estrelada

A verificação matemática feita pelos pesquisadores comparou a geometria das estrelas pintadas por van Gogh com a posição real dos astros no espaço, utilizando outra tela do mesmo autor como referência de precisão. Os números medidos pelo estudo e as informações institucionais da publicação estão detalhados a seguir:

  • Diferença morfológica em A Noite Estrelada: variação de 8,17% entre a disposição das cinco estrelas pintadas na tela e o formato real do aglomerado das Híades.
  • Diferença morfológica em desenho posterior: variação de 6,62% em relação às Híades medida em um esboço a bico de pena da mesma obra feito mais tarde por van Gogh.
  • Parâmetro de comparação artística: variação morfológica de 6,54% registrada no quadro Noite Estrelada Sobre o Ródano, obra em que o pintor retratou a constelação da Ursa Maior.
  • Iluminação lunar em junho de 1889: cerca de 63% da superfície da Lua estava iluminada por volta de 19 de junho, configurando uma fase gibosa minguante.
  • Publicação e autoria: artigo divulgado em 22 de outubro de 2026 na revista Scientific Reports, do grupo Nature Portfolio, assinado por pesquisadores da Escola de Pesquisa Espacial da Universidade Kyung Hee e da SLLAB.

Confira também: Estudo liga passos diários a maior atenção e foco em adultos

Por que a datação tradicional de junho de 1889 para A Noite Estrelada foi revisada

Durante décadas, historiadores da arte dataram a execução de A Noite Estrelada em meados de junho de 1889, com propostas que variavam entre 25 de maio e 19 de junho daquele ano. Essa estimativa baseava-se em uma carta enviada por Vincent van Gogh ao seu irmão Theo por volta de 18 de junho de 1889. Na época, o pintor havia acabado de ingressar voluntariamente no asilo psiquiátrico Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, instituição onde morou entre maio de 1889 e maio de 1890.

O principal obstáculo para a tese de junho sempre foi o formato da Lua na pintura. Na tela, o satélite aparece como uma fina meia-lua ou foice, característica visual da fase minguante fina antes do amanhecer. No entanto, por volta de 19 de junho de 1889, a Lua apresentava aspecto muito mais cheio no céu francês, incompatível com o traço estreito deixado pelo artista.

As primeiras tentativas de usar a astronomia para decifrar o quadro ocorreram na década de 1980, mas tiveram resultados divergentes. Em 1984, o historiador da arte Albert Boime e o astrônomo George Abell, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), analisaram a tela, seguidos em 1986 pelo astrônomo Charles Whitney, da Universidade Harvard. Esses trabalhos anteriores associavam as estrelas da pintura à constelação de Áries, hipótese agora contestada pelos sul-coreanos.

Acompanhe: Cacatuas sabem o tamanho do próprio corpo? Pesquisa avalia a percepção das aves

Ao explicar a motivação para refazer os cálculos, Kim disse que, para um astrônomo observacional, o aglomerado de estrelas em A Noite Estrelada são as Híades em Touro, mas que no momento em que leu os estudos anteriores explicando isso como Áries, sentiu como se ouvisse a pintura o chamando.

Limitações da pesquisa sobre o quadro de Vincent van Gogh

Apesar da correspondência matemática e astronômica encontrada no céu de 22 de julho de 1889, não há prova documental absoluta de que a pintura tenha sido executada exclusivamente naquele único dia. Os próprios autores do artigo apontam que a data é a mais provável para o cenário retratado, mas ponderam que van Gogh pode ter composto a obra combinando observações feitas também nos dias imediatamente anteriores e seguintes.

Sobre o processo de observação do pintor holandês, o primeiro autor do estudo afirmou que não há dois céus iguais, pois algo sempre muda, e que acredita que Vincent notou essas mudanças e as colocou na pintura.

Para o físico José Luis Aragón, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), que já pesquisou a obra de van Gogh mas não integrou a equipe do novo levantamento, o trabalho sul-coreano trata de um enigma real ao explicar o formato fino da Lua na tela. O pesquisador mexicano classificou a indicação de julho de 1889 como uma hipótese intrigante, embora ressalte que o resultado não representa uma conclusão definitiva sobre o dia exato da pintura.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

Notícias relacionadas