Esquerda x Direita: entenda como a vitória de Lula altera a balança política da América do Sul

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Lula - Reprodução/YouTube Foto: Lula - Reprodução/YouTube

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conquistou o quarto mandato presidencial neste domingo (25) e manteve a América do Sul dividida entre sete governos de direita e cinco de esquerda. Com 100% das urnas apuradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o candidato petista superou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno e interrompeu uma sequência recente de vitórias de grupos conservadores na região.

O resultado no território brasileiro reverteu a vantagem obtida pelo candidato do PL na primeira etapa da votação. Com a definição nas urnas, Lula tornou-se o primeiro candidato da história presidencial do Brasil desde a redemocratização a terminar o primeiro turno em desvantagem e alcançar a virada na disputa final. Chefes de Estado de diferentes espectros ideológicos do continente reconheceram o resultado ainda na noite de domingo, incluindo o presidente do Equador, Daniel Noboa. “Nossa região tem inimigos comuns, desafios compartilhados e muito a ganhar quando trabalhamos juntos”, afirmou o mandatário equatoriano.

Placar e números da eleição de 2026 entre Lula e Flávio Bolsonaro

Flavio Bolsonaro e Lula - Reprodução/ Renato Pizzutto/Band
Foto: Flavio Bolsonaro e Lula – Reprodução/ Renato Pizzutto/Band

A reversão do cenário eleitoral ocorreu a partir da ampliação do eleitorado petista entre as duas etapas do pleito. A apuração oficial registrou um crescimento da candidatura do PT equivalente a quase o triplo dos novos eleitores somados pelo adversário do PL no mesmo intervalo.

  • Placar oficial do segundo turno (25 de outubro de 2026): 51,79% dos votos válidos para Luiz Inácio Lula da Silva contra 48,21% para Flávio Bolsonaro.
  • Placar oficial do primeiro turno: 47,03% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro contra 45,16% para Lula, uma vantagem inicial de 2.224.965 votos para o senador.
  • Crescimento de Lula entre os turnos: acréscimo de 10,3 milhões de votos na etapa final.
  • Crescimento de Flávio Bolsonaro entre os turnos: acréscimo situado na faixa entre 3,6 milhões e 3,7 milhões de votos.
  • Órgão responsável pela totalização: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 100% das seções apuradas no Brasil.

Como fica a divisão entre direita e esquerda na América do Sul?

A manutenção do PT no comando do Executivo brasileiro impediu a ampliação do bloco conservador sul-americano, que havia vencido as disputas presidenciais realizadas nos últimos três anos no continente. Em 2023, cinco das principais economias da América Latina eram administradas por forças de esquerda: Brasil, Argentina, México, Colômbia e Chile.

Saiba mais: Flávio Bolsonaro ficará sem cargo eletivo e sem foro pela primeira vez em 24 anos após derrota no segundo turno

Desde então, candidatos de direita e extrema-direita venceram pleitos sucessivos na América do Sul, alterando a correlação de forças em cinco nações que antes integravam o campo oposto ou passavam por transições políticas. Na Bolívia, a eleição de Rodrigo Paz encerrou o ciclo de governos do partido Movimento ao Socialismo (MAS). No Chile, José Antonio Kast venceu a disputa em dezembro de 2025 e tomou posse em março de 2026.

Veja também: Lula vence Flávio Bolsonaro de virada e conquista quarto mandato

  • Governos de direita na América do Sul (7 países): Argentina (presidente Javier Milei), Bolívia (presidente Rodrigo Paz), Chile (presidente José Antonio Kast), Colômbia (presidente eleito Abelardo de la Espriella), Equador (presidente Daniel Noboa), Paraguai (presidente Santiago Peña) e Peru (presidente eleita Keiko Fujimori).
  • Governos de esquerda e centro-esquerda na América do Sul (5 países): Brasil (presidente Luiz Inácio Lula da Silva), Uruguai (presidente Yamandú Orsi), Guiana (presidente Irfaan Ali), Suriname (presidente Jennifer Simons) e Venezuela (comandada pela presidente interina Delcy Rodríguez após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em 3 de janeiro de 2026).

Avanço da direita em 2026 nas eleições da Colômbia e do Peru

Antes do segundo turno brasileiro, as disputas presidenciais de 2026 na Colômbia e no Peru consolidaram a maioria numérica da direita na América do Sul. Em ambos os países, o processo eleitoral teve votações polarizadas e pautas concentradas na área de segurança pública e no alinhamento diplomático.

Na Colômbia, cujo calendário eleitoral teve primárias interpartidárias e eleições legislativas realizadas em 8 de março de 2026, o candidato de direita Abelardo de la Espriella venceu a corrida presidencial com 12.960.166 votos. Ele derrotou o senador de esquerda Iván Cepeda e vai suceder o presidente Gustavo Petro. A plataforma de governo de Espriella prevê a construção de megaprisões, o fortalecimento das Forças Armadas colombianas e a aproximação diplomática com os Estados Unidos.

No Peru, a candidata de direita Keiko Fujimori superou o concorrente de esquerda Roberto Sánchez, em um pleito cujo resultado oficial foi confirmado quase um mês após a votação em segundo turno. O plano de segurança de Fujimori estabelece a criação de centros de comando e vigilância interligados em território nacional, equipados com mapas de criminalidade em tempo real e sistemas de inteligência artificial voltados para análises preditivas e coordenação de emergências.

Repercussão no continente, relação com os EUA e contestação no Brasil

O desfecho da votação brasileira gerou manifestações imediatas de governantes de ambos os blocos políticos. Os presidentes de direita José Antonio Kast, Santiago Peña, Keiko Fujimori, Daniel Noboa e Rodrigo Paz, além do líder de centro-esquerda uruguaio Yamandú Orsi, reconheceram a vitória de Lula e enviaram cumprimentos ao presidente reeleito. Fora da América do Sul, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, também saudou o resultado nas urnas. “Viva a democracia, ganhou o povo do Brasil”, declarou Sheinbaum. O presidente da Argentina, Javier Milei, manteve silêncio sobre o pleito brasileiro na noite de domingo.

No campo geopolítico, a divisão regional reflete o posicionamento dos países diante de Washington. Os governos de direita da Argentina, da Colômbia, do Peru, da Bolívia e do Chile aderiram recentemente ao Escudo das Américas, uma coalizão internacional de segurança liderada pelos Estados Unidos sob a administração do presidente Donald Trump. Para o professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP), Gunther Rudzit, o novo mandato petista impacta o relacionamento bilateral com a Casa Branca. “As tensões com os Estados Unidos devem voltar”, afirmou o docente.

Confira também: Flávio Bolsonaro não reconhece derrota e pede anulação do 2º turno

No plano doméstico, a eleição presidencial ainda enfrenta desdobramentos jurídicos anunciados pela oposição. Na noite de domingo (25), o senador Flávio Bolsonaro recusou-se a reconhecer a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e declarou a intenção de apresentar um pedido de anulação do pleito, sob o argumento de questionar a prorrogação do horário de votação determinada pelo ministro do TSE, Cristiano Zanin.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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