Vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro derruba o fundo de ações brasileiras nos EUA

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Ibovespa Foto: Ibovespa - Alf Ribeiro/ Shutterstock.com

O fundo de investimentos iShares MSCI Brazil (EWZ), principal ETF (fundo negociado em bolsa) que acompanha ações de grandes e médias empresas brasileiras na Bolsa de Nova York, despencou mais de 26% no pré-mercado desta segunda-feira (26). A desvalorização nos Estados Unidos ocorreu após a confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), puxando o preço da cota para a faixa de US$ 31,30 a US$ 31,51 ante o fechamento de US$ 42,59 na sexta-feira (23).

A queda começou na noite de domingo (25), logo após o anúncio da vitória de Lula por 51,76% a 48,24% dos votos válidos, com vantagem final de 4,43 milhões de votos. No período de negociações pós-mercado (after hours), entre 21h10 e 21h52 pelo horário de Brasília, o fundo já registrava recuo de 18% a 19,63%. “Ainda é cedo para dimensionar esse movimento [de queda dos índices], porque os mercados estão fechados e os contratos futuros têm liquidez menor, mas os sinais apontam para uma queda expressiva, revertendo boa parte do movimento de valorização vista após o primeiro turno”, afirmou o estrategista-chefe da Avenue, William Castro.

Desempenho do EWZ, de ADRs brasileiros e do dólar futuro em 26 de outubro de 2026

Por funcionar nos Estados Unidos enquanto o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira B3, permanece fechado aos domingos e no início da manhã, o EWZ serve de termômetro imediato da percepção de investidores estrangeiros. Ao longo da manhã de 26 de outubro de 2026, o fundo aprofundou as perdas: às 5h34 (horário de Brasília), caía 26,04% (a US$ 31,30); às 6h, chegou a recuar 27,40% na pré-abertura; e às 7h41 marcava US$ 31,51, com baixa entre 26,02% e 26,6% conforme a medição do horário.

O movimento de venda atingiu os recibos de ações de empresas brasileiras negociados nos Estados Unidos, conhecidos pela sigla ADR, além de contratos cambiais e fundos no mercado asiático. Os papéis e indicadores registraram as seguintes variações no exterior antes da abertura do pregão no Brasil:

  • Itaú (ADRs nos EUA): queda entre 25,54% e 28,5% no pré-mercado;
  • Bradesco (ADRs nos EUA): recuo de 26,8% no pré-mercado;
  • Nubank (ações nos EUA): baixa de 24% no pré-mercado;
  • Petrobras (ADRs nos EUA): desvalorização entre 19,5% e 23,17% no pré-mercado;
  • Mercado Livre (ações nos EUA): perda de 10,3% no pré-mercado;
  • Vale (ADRs nos EUA): recuo entre 3% e 5,24% no pré-mercado;
  • Contrato futuro do real para novembro na Chicago Mercantile Exchange (CME): queda de 9,1% a 10,02% na noite de domingo (25), indicando um dólar implícito entre R$ 5,51 e R$ 5,56;
  • Nomura NF Ibovespa Link ETF (fundo que acompanha a bolsa brasileira em Tóquio): baixa de 12,75% nos primeiros negócios, a 285,3 ienes, chegando a cair 15% na sessão asiática.

Rebaixamento pelo JP Morgan e alerta de circuit breaker na B3

Diante do resultado das urnas, o banco americano JP Morgan rebaixou a recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros. A classificação passou de overweight, termo financeiro para exposição acima da média do mercado, para marketweight, que indica posição neutra. Em relatório assinado pelo analista do banco JP Morgan Vinicius Moreira, a instituição apontou que a segunda-feira será marcada por uma forte revisão dos preços dos ativos domésticos, já que parte dos investidores apostava na eleição de Flávio Bolsonaro.

De acordo com a análise de Vinicius Moreira no documento do JP Morgan, três pontos concentram a atenção dos agentes financeiros nos próximos dias: a reação da oposição após o senador Flávio Bolsonaro não reconhecer a derrota e adiantar que vai contestar o resultado eleitoral, a formação da equipe econômica para o novo mandato e o efeito das oscilações do mercado sobre as decisões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O banco também alertou para o risco de acionamento do circuit breaker na B3, mecanismo de segurança que trava temporariamente as negociações quando o Ibovespa sofre quedas bruscas.

Saiba mais: Flávio Bolsonaro não reconhece derrota e pede anulação do 2º turno

Abertura da B3, impacto no crédito e setores mais afetados pela queda do EWZ

Para os investidores e consumidores no Brasil, o primeiro reflexo direto no mercado local ocorre a partir das 10h (horário de Brasília) desta segunda-feira (26), quando começam as negociações do Ibovespa na B3. A cotação de R$ 5,51 a R$ 5,56 apontada nos contratos futuros da bolsa de Chicago não é a taxa oficial de câmbio do país, mas serve de referência para a formação de preços na abertura dos negócios domésticos. Na avaliação do JP Morgan, empresas voltadas ao consumo interno e ao setor de serviços tendem a sofrer perdas maiores na bolsa, enquanto companhias exportadoras podem ter desempenho relativamente melhor, pois a alta do dólar amplia em reais a receita obtida com vendas para fora do país.

No bolso de consumidores e no caixa das empresas, a reação do mercado afeta o custo do dinheiro a médio prazo. Caso os investidores avaliem que há risco maior de descontrole nas contas do governo, passam a cobrar juros mais altos para financiar a dívida pública, movimento que encarece os empréstimos bancários e o parcelamento de compras no país. Além disso, a percepção de risco fiscal somada à desvalorização do real frente ao dólar pode dificultar novos cortes na taxa básica de juros da economia brasileira, mantendo o crédito mais caro por mais tempo.

Reversão da alta pós-primeiro turno e preocupação com dívida de 83% do PIB

O tombo registrado nos mercados internacionais reverte o ciclo de valorização iniciado após o primeiro turno das eleições, quando Flávio Bolsonaro terminou a votação com vantagem de 2,2 milhões de votos sobre Lula. Em 5 de outubro de 2026, primeiro pregão depois daquela disputa, o Ibovespa saltou 7,7%, aos 206.912 pontos, na maior alta diária desde março de 2020, impulsionado pela entrada de R$ 10 bilhões de investidores estrangeiros. Dias depois, o índice atingiu a máxima histórica de 209.067 pontos e, até sexta-feira (23), acumulava ganho de quase 7% desde o primeiro turno e valorização superior a 27% no ano de 2026, encerrando a semana aos 205.082,56 pontos, enquanto o real acumulava alta de quase 5% ante o dólar no mesmo intervalo.

“A vitória do presidente Lula não era o nosso cenário base. Trabalhávamos com um leve favoritismo de Flávio Bolsonaro, e o mercado via a possibilidade de mudança de governo e de uma agenda mais liberal. Essa expectativa se traduziu na melhora da Bolsa, principalmente após o resultado do primeiro turno”, disse o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung.

A dúvida central dos agentes financeiros recai sobre a capacidade do governo reeleito de conciliar a manutenção de gastos em programas sociais e investimentos com o controle da dívida pública brasileira, que deve encerrar o ano de 2026 equivalente a 83% do Produto Interno Bruto (PIB). “Isso deve gerar uma volatilidade bastante grande no câmbio e na curva de juros futura, com possível estresse no mercado de títulos públicos. A segunda-feira pode ser bastante volátil, porque haverá uma correção de rota e de ânimo do mercado”, declarou Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, antes do início do pregão regular da B3 às 10h.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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