A abertura dos negócios no mercado financeiro brasileiro registrou forte correção nesta segunda-feira (26), em reação à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O dólar comercial saltou 8,65%, cotado a R$ 5,42, maior valorização intradiária desde janeiro, enquanto o índice futuro da B3 (Bolsa de Valores de São Paulo) despencou 15% logo após o início das operações às 9h (horário de Brasília), atingindo o limite de baixa e acionando o circuit breaker, mecanismo de interrupção das negociações.
O movimento ocorreu no dia seguinte ao segundo turno da eleição presidencial, realizado no domingo (25), quando Lula venceu a disputa com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL). O resultado contrariou a aposta majoritária dos investidores no candidato da oposição. “Vai ser um dia duro. O mercado vai reprecificar tudo o que foi prometido”, disse Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, gestora que administra R$ 1,1 trilhão em ativos. “Todo mundo foi pego de surpresa. Todo mundo está tentando entender”, afirmou o executivo.
Ações brasileiras e o fundo EWZ recuam até 27% no exterior
A aversão ao risco começou a derrubar os preços dos ativos brasileiros nas bolsas internacionais antes mesmo da abertura do mercado local em 26 de outubro de 2026. No pré-mercado dos Estados Unidos, às 6h50, o fundo de índice (ETF, fundo negociado em bolsa que replica uma cesta de ativos) iShares MSCI Brazil (EWZ), principal termômetro das ações brasileiras em Nova York, chegou a cair 27%. Na bolsa de derivativos CME, em Chicago, o dólar futuro atingiu R$ 5,55 após ter tocado o pico de R$ 5,68 na noite de domingo (25), enquanto na bolsa de Tóquio, no Japão, o fundo NEXT Funds Ibovespa Linked recuou cerca de 14% a 15%.
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No início das negociações nos Estados Unidos e na Europa, os ADRs (recibos de ações de empresas estrangeiras negociados no mercado americano) e papéis de companhias com operações no Brasil também sofreram perdas expressivas. Ações de empresas como Petrobras, Itaú Unibanco, Bradesco e XP registraram quedas superiores a 20%, sendo que XP e Itaú Unibanco recuaram pelo menos 26% nos primeiros negócios em Nova York. Já os papéis do Banco Santander e da Telefónica caíram mais de 5%. Diante do novo quadro político, o banco JP Morgan rebaixou a recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros de overweight (exposição acima da média do mercado) para marketweight (neutra).
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B3 altera limites de oscilação diária e regras de paralisação no pregão
Para lidar com a volatilidade esperada pelos operadores, a B3 anunciou pouco antes das 9h alterações exclusivas para o pregão desta segunda-feira (26) nos túneis de negociação, que são os limites diários de oscilação de preços dos contratos futuros. Quando essas travas são atingidas, o ativo entra em leilão. Já no mercado à vista de ações, cujo início das negociações está previsto para as 10h, vigoram as regras tradicionais de paralisação geral da bolsa caso o Ibovespa registre quedas sucessivas em relação ao fechamento de sexta-feira (23), quando marcou 205.082,56 pontos e o dólar comercial encerrou a R$ 4,99.
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- Ibovespa futuro (IND) e mini-índice (WIN): o limite inferior de oscilação diária foi ampliado preventivamente pela B3 de -10% para -15%, patamar atingido logo após a abertura das 9h.
- Dólar futuro (DOL) e minidólar (WDO): o limite superior de alta diária nos contratos futuros subiu de 6% para 8,4%.
- Estágio 1 do circuit breaker no mercado à vista: acionado se o Ibovespa cair 10% em relação ao fechamento anterior, paralisando as negociações por 30 minutos.
- Estágio 2 do circuit breaker no mercado à vista: se a queda atingir 15% após a reabertura dos negócios, ocorre uma nova pausa de uma hora.
- Estágio 3 do circuit breaker no mercado à vista: caso o recuo chegue a 20%, as negociações podem ser suspensas por prazo indeterminado.
Reversão da aposta em Flávio Bolsonaro após alta desde o 1º turno
A dimensão do ajuste nas cotações reflete o desmonte do chamado trade eleitoral, movimento em que investidores montaram posições apostando na vitória de Flávio Bolsonaro após o candidato liderar a votação no primeiro turno, realizado em 4 de outubro de 2026. Entre aquela data e o fechamento de 23 de outubro de 2026, a expectativa do mercado por um aperto fiscal que permitisse a queda dos juros futuros impulsionou a entrada de bilhões em fluxo estrangeiro, fazendo o Ibovespa subir quase 7% e o real se valorizar quase 5%, período em que instituições como UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase e Citigroup emitiram recomendações otimistas para o país.
Com a confirmação do resultado das urnas em favor do presidente reeleito, operadores passaram a reverter essas posições. “É inevitável que os mercados revertam uma parcela significativa do rali de Bolsonaro que começou há algumas semanas, e a volatilidade vai persistir no curtíssimo prazo”, declarou Homin Lee, estrategista do banco Lombard Odier em Singapura. Antes da votação, uma pesquisa do Citigroup publicada na sexta-feira (23) com 73 investidores apontava que a maioria projetava uma desvalorização de pelo menos 5% do real e alta superior a um ponto percentual nas taxas de juros futuros (contratos de swap) em caso de derrota do senador do PL, enquanto a corretora Monte Bravo estimava queda de 10% a 11% para o Ibovespa na primeira hora de pregão.
Perspectivas para o Orçamento de 2027 e o novo ministério de Lula
Para Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da gestora PGIM — braço da americana Prudential com US$ 1,5 trilhão sob gestão —, a vitória de Lula faz com que “todos deem um passo atrás” para uma reprecificação relevante, embora ela avalie que o quadro acabará se estabilizando. Já Guilherme Abbud, CEO da Persevera Asset Management, afirmou que movimentos de queda costumam envolver ordens motivadas por emoções e que, mesmo que o presidente adote cautela com os gastos públicos, é improvável que o mercado conceda o benefício da dúvida inicialmente. Na mesma linha, o estrategista sênior para mercados emergentes da Macro Hive, Simon Quijano-Evans, projetou recuperação gradual do real após o estresse inicial, amparada nos elevados juros reais brasileiros, no diferencial de taxas em relação aos Estados Unidos, na postura cautelosa do Banco Central e nos limites para uma política fiscal mais expansionista.
A médio prazo, a atenção dos agentes financeiros deve migrar do choque eleitoral para a definição da equipe econômica e das regras para as contas públicas a partir do próximo ano. “Mesmo com esse pessimismo prevalecendo a curto prazo, é preciso observar como as pautas econômicas vão avançar no médio prazo. Após a eleição de 2022, houve um certo pessimismo com o retorno de Lula. Mas 2023 foi positivo para a Bolsa após a aprovação do novo arcabouço fiscal. O projeto foi aprovado, o ânimo melhorou e, depois, a Bolsa foi bem. Por isso, precisamos acompanhar como o governo vai se organizar para 2027. Esse é o ponto para o qual mais chamamos atenção”, afirmou em relatório Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Em relatório assinado pelos economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka, o banco americano Goldman Sachs apontou que Lula terá capital político limitado por não poder disputar a reeleição em 2030 e governará com um Congresso de maioria conservadora. Segundo os economistas, após o ajuste de preços desta segunda-feira (26), o rumo dos ativos dependerá das escolhas para o ministério — especialmente o titular do Ministério da Fazenda —, da estratégia de consolidação fiscal para os próximos quatro anos e da divulgação do custo das promessas de campanha e das revisões necessárias no Orçamento de 2027.
