Diasci cria teste de gota de sangue para câncer em fase inicialPor Luís Henrique Costa
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Um equipamento portátil criado pela startup brasileira Diasci consegue identificar sinais biológicos de câncer de pâncreas, cérebro e pulmão a partir de uma única gota de sangue. O aparelho lembra os medidores de glicemia usados por pessoas com diabetes e reúne nanotecnologia com a biópsia líquida, método que analisa no sangue material liberado por tumores. O resultado sai em pouco tempo e indica se há alterações celulares compatíveis com as doenças investigadas.
A tecnologia foi apresentada em 6 de outubro de 2026 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A instituição financia o projeto pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), em parceria com o Sebrae Startups. O dispositivo foi pensado para a triagem inicial de pacientes na atenção primária, e não para substituir a biópsia de tecido retirado por cirurgia.
Como a fita de eletrodos reage aos sinais dos tumores
Na prática, a gota de sangue é aplicada sobre uma fita com eletrodos descartáveis preparados em laboratório. Quando os biomarcadores liberados pelas células tumorais chegam à superfície do eletrodo, ocorre uma reação química imediata. Essa reação gera uma corrente elétrica, que o aparelho portátil mede na hora e interpreta como padrão compatível ou não com as neoplasias investigadas.
O foco são tumores silenciosos e agressivos, que costumam dar sintomas apenas em fases avançadas. Moléculas ligadas a essas lesões podem circular no sangue de 5 a 10 anos antes que o tumor primário apareça em tomografias computadorizadas ou ressonâncias magnéticas. Detectar essas substâncias cedo permite a investigação médica imediata e aumenta as chances de sucesso das intervenções oncológicas.
Os pesquisadores também observaram que medições eletroquímicas feitas em sequência podem acompanhar a resposta ao tratamento de pacientes já diagnosticados. A cofundadora e diretora executiva da Diasci, Daniela Silvestrini Fernandes, pesquisadora líder do projeto, afirmou que a ferramenta permite monitorar a eficiência de terapias de precisão.
Segundo a executiva, a proposta mudou desde o início do projeto. “No início, falávamos apenas em diagnóstico, mas hoje avaliamos também o monitoramento de pacientes em tratamento com medicamentos-alvo. Exames recorrentes podem indicar se a medicação realmente está sendo efetiva”, afirmou Daniela Fernandes.
Preço do teste portátil frente ao PET-CT no Brasil
O teste foi orçado entre US$ 40 e US$ 50 por análise, valor que inclui a fita descartável, os reagentes usados na leitura e a emissão do laudo técnico. A proposta é oferecer uma triagem acessível a postos de saúde e ambulatórios municipais, levando a busca por lesões malignas para mais perto da população.
Em geral, o mapeamento detalhado de tumores depende de exames de imagem complexos, como a tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada (PET-CT). Na rede privada, o preço médio aproximado de um PET-CT gira em torno de R$ 3,5 mil. Na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o valor de repasse para o mesmo exame é de R$ 2.107,22, o que concentra a oferta em centros de referência das capitais e grandes cidades.
A estimativa de incidência do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta 704 mil novos casos anuais da doença no Brasil. Diante desse número, o modelo descentralizado pretende reduzir as filas de espera e evitar o deslocamento prolongado até hospitais terciários.
Validação com o Icesp e seleção em edital da Anvisa
A validação do dispositivo é feita em cooperação científica com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Os ensaios analíticos e clínicos usam amostras de voluntários e pacientes, sob coordenação de Roger Chammas, professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Icesp.
A pesquisadora Daniela Fernandes destacou o papel da instituição na checagem da sensibilidade das medições. “O Icesp nos abriu as portas quando tínhamos apenas uma ideia e um sonho, e é fundamental nessa construção conjunta”, declarou.
O projeto também foi selecionado para um edital-piloto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O programa apoia a regulação de dispositivos médicos inovadores criados no país. A meta é acelerar a adequação técnica exigida para a certificação sanitária e para a produção em escala industrial.
Onde o aparelho é testado e quem integra a equipe
- Custo por análise: entre US$ 40 e US$ 50, com fita, reagentes e laudo incluídos
- Janela de detecção: moléculas tumorais no sangue de 5 a 10 anos antes de aparecerem em exames de imagem
- Local da pesquisa: Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto, e unidades do Icesp na cidade de São Paulo
- Equipe: Daniela Silvestrini Fernandes, Cristiano Ceron Jayme (CTO) e Roger Chammas (FM-USP/Icesp)
Insumos importados e a aposta na fabricação nacional de eletrodos
A Diasci começou as atividades em 2022, a partir da parceria entre Daniela Silvestrini Fernandes e Cristiano Ceron Jayme durante pós-doutorados na Universidade de São Paulo. A sede funciona incubada no Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto, no interior paulista.
Um dos gargalos da pesquisa é a dependência de insumos estrangeiros. O prazo médio de 60 dias úteis nos trâmites alfandegários para a entrada de insumos biológicos importados levou a equipe a planejar a fabricação nacional dos eletrodos. A meta é reduzir custos de produção e evitar atrasos no cronograma.
As modalidades de biópsia líquida já autorizadas no Brasil e no exterior exigem equipamentos pesados de sequenciamento genético e têm custo alto por amostra. Os sensores eletroquímicos compactos buscam dispensar essa infraestrutura, permitindo a coleta e o resultado preliminar em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Fase atual e prazo previsto para a validação clínica
A tecnologia ainda está em fase pré-clínica e de validação analítica, com amostras de laboratório. Os fundadores estimam concluir todas as etapas de validação clínica em ambiente hospitalar até 30 de junho de 2027.
Não há data definida para a oferta comercial do biossensor na rede pública. A incorporação ao atendimento depende de validações prospectivas em larga escala nos hospitais, do registro definitivo do produto na Anvisa e da avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão que decide sobre a entrada de novas tecnologias no SUS.








