Biossensor portátil custa US$ 40 a US$ 50 por teste de câncerPor Carolina Costa
6 min de leitura
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O biossensor portátil criado pela startup brasileira Diasci identifica sinais biológicos de câncer de pâncreas, cérebro e pulmão em uma única gota de sangue. O aparelho funciona de modo parecido com os medidores de glicemia usados por diabéticos. Ele combina nanotecnologia e biópsia líquida para dar uma resposta rápida sobre alterações nas células.
A tecnologia foi apresentada em 6 de outubro de 2026 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A instituição financia o projeto pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), em conjunto com o Sebrae Startups. O dispositivo foi desenhado para a triagem inicial de pacientes na atenção primária da saúde, sem substituir procedimentos invasivos como a biópsia de tecido retirado por cirurgia.
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Como a leitura elétrica da gota de sangue acontece
A gota é aplicada sobre uma fita com eletrodos descartáveis preparados em laboratório. Quando encontra os biomarcadores secretados por células tumorais, a superfície do eletrodo sofre uma reação química imediata. Essa reação gera uma corrente elétrica que o aparelho portátil lê na hora e indica se há padrão compatível com os tumores investigados.
A metodologia foca em tumores de comportamento silencioso e agressivo, cujos sintomas costumam aparecer só em estágios avançados. Moléculas ligadas a essas lesões podem circular no sangue de 5 a 10 anos antes de um tumor primário ficar visível em exames como tomografia computadorizada e ressonância magnética. Para os pesquisadores, identificar essas substâncias cedo possibilita a investigação médica imediata e aumenta as chances de sucesso das intervenções oncológicas.
Teste portátil custa entre US$ 40 e US$ 50 por análise
Além do diagnóstico precoce, os cientistas observaram que a medição eletroquímica seriada também pode acompanhar pacientes já diagnosticados. A pesquisadora líder do projeto, Daniela Silvestrini Fernandes, cofundadora e diretora executiva da Diasci, afirmou que a ferramenta permite monitorar a eficiência de terapias de precisão. Segundo ela: “No início, falávamos apenas em diagnóstico, mas hoje avaliamos também o monitoramento de pacientes em tratamento com medicamentos-alvo. Exames recorrentes podem indicar se a medicação realmente está sendo efetiva”.
O teste foi orçado entre US$ 40 e US$ 50 por análise. O valor inclui a fita de eletrodo descartável, os reagentes químicos usados na leitura e a emissão do laudo técnico. A proposta é oferecer uma triagem acessível a postos de saúde e ambulatórios municipais, descentralizando a busca por lesões malignas.
No país, o rastreamento detalhado de tumores depende em grande escala de exames complexos de imagem, como a tomografia por emissão de pósitrons associada à tomografia computadorizada (PET-CT). Na rede privada, o preço médio aproximado de um PET-CT gira em torno de R$ 3,5 mil. Na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), o valor de repasse fixado para o mesmo exame é de R$ 2.107,22, o que restringe a oferta a centros de referência nas capitais e grandes cidades.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta 704 mil novos casos anuais da doença no Brasil. Diante desse volume, o modelo descentralizado busca reduzir as filas de espera e evitar o deslocamento prolongado de usuários até hospitais terciários.
Icesp valida as medições e Anvisa seleciona projeto-piloto
A validação ocorre por meio de cooperação científica formalizada com o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). Os ensaios analíticos e clínicos usam amostras de voluntários e pacientes sob coordenação de Roger Chammas, professor titular de Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e coordenador do Centro de Investigação Translacional em Oncologia da instituição. Daniela Fernandes destacou o papel do Icesp na verificação da sensibilidade das medições: “O Icesp nos abriu as portas quando tínhamos apenas uma ideia e um sonho, e é fundamental nessa construção conjunta”.
O desenvolvimento também foi selecionado para um edital-piloto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O programa apoia a regulação de dispositivos médicos inovadores criados no país. O foco é acelerar a adequação técnica necessária para a certificação sanitária e a produção em escala industrial.
Sede em Ribeirão Preto e equipe da pesquisa
- Localização da pesquisa: Supera Parque de Inovação e Tecnologia, em Ribeirão Preto, e unidades do Icesp na cidade de São Paulo
- Equipe responsável: Daniela Silvestrini Fernandes (CEO), Cristiano Ceron Jayme (CTO) e Roger Chammas (FM-USP/Icesp)
Como a Diasci nasceu de um pós-doutorado e enfrentou a importação de insumos
A Diasci começou as atividades em 2022. A empresa surgiu da colaboração entre Daniela Silvestrini Fernandes e Cristiano Ceron Jayme durante pós-doutorados na Universidade de São Paulo. Um dos gargalos identificados nos trabalhos experimentais foi a dependência de insumos internacionais.
O prazo médio de 60 dias úteis nos trâmites alfandegários para a entrada de insumos biológicos importados levou a equipe a planejar a nacionalização da fabricação dos eletrodos. A meta é reduzir custos e evitar paralisações no cronograma. As modalidades de biópsia líquida autorizadas no Brasil e no exterior dependem de maquinário pesado para sequenciamento genético e têm custo elevado por amostra. Os sensores eletroquímicos compactos buscam dispensar essa infraestrutura e permitir coleta e resultado preliminar em Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Prazo para o fim da validação clínica e etapas que faltam
A tecnologia segue nas fases pré-clínica e de validação analítica, com amostras de laboratório. Os fundadores da startup esperam concluir todas as etapas de validação clínica em ambiente hospitalar até 30 de junho de 2027.
Ainda não há cronograma definido para a oferta comercial do biossensor na rede pública do SUS. A incorporação ao atendimento depende de validações em larga escala nos hospitais, do registro definitivo do produto na Anvisa e da avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).















