Câncer de pâncreas atinge 10.980 pessoas por ano no país, aponta INCAPor Luís Henrique Costa
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Cerca de 10.980 pessoas recebem diagnóstico de câncer de pâncreas por ano no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença responde por 4% das mortes por câncer no país. Ela costuma ser identificada tarde, quando o tumor já avançou, e isso reduz as chances de cura.
Entre 70% e 80% dos casos são descobertos depois que o tumor já se espalhou. O chef Edu Guedes foi um exemplo: o câncer apareceu após uma crise renal, em estágio que exigiu cirurgia. Fatores como tabagismo, obesidade e histórico familiar aumentam o risco, e a medicina segue buscando formas de enfrentar a doença.
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A gravidade está na combinação entre uma biologia agressiva e a falta de sinais no início. Muitos pacientes descobrem o tumor por acaso, durante exames feitos para outros problemas de saúde, como ocorreu com Edu Guedes. Além disso, o pâncreas fica profundo no abdômen, o que dificulta exames preventivos de rotina.
- Diagnóstico tardio em 70% a 80% dos casos.
- Disseminação rápida para órgãos como o fígado e os linfonodos.
- Ausência de exames de rastreamento considerados eficazes.
- Sobrevivência de 10% após cinco anos do diagnóstico.
A doença atinge principalmente pessoas acima dos 60 anos. O tipo mais comum é o adenocarcinoma, que representa 90% dos casos e se origina nas células glandulares exócrinas. Esse tumor é difícil de tratar porque consegue invadir vasos sanguíneos e tecidos próximos.
Por que a biologia do tumor avança tão depressa
As células cancerosas se multiplicam com rapidez e formam tumores que atingem outros órgãos, como o fígado, em até 50% dos casos já no diagnóstico. A ausência de sintomas específicos agrava o problema. Quando aparecem icterícia, dor abdominal ou perda de peso, o tumor geralmente já comprometeu estruturas vitais.
A oncologista Mariana Bruna Siqueira, da Oncologia D’Or, afirmou que mesmo tumores pequenos podem invadir vasos sanguíneos, o que complica a cirurgia. A textura fibrosa do tumor também reduz a eficácia da quimioterapia, porque o medicamento tem dificuldade para penetrar no tecido. Nos Estados Unidos, a estimativa é que o câncer de pâncreas se torne a segunda maior causa de morte por câncer nas próximas décadas, com 64.050 novos casos por ano.
Outro entrave é a falta de um método de rastreamento amplamente disponível, como a mamografia no câncer de mama. Exames de tomografia computadorizada (TC) e de ressonância magnética (RM) são indicados quando há suspeita clínica, o que contribui para o diagnóstico tardio.
Quem corre mais risco de desenvolver a doença
Vários fatores aumentam a chance de adoecer, e muitos estão ligados ao estilo de vida. O tabagismo é o principal fator evitável e triplica o risco entre fumantes regulares. A obesidade, problema crescente no Brasil, também eleva a probabilidade, sobretudo quando associada ao diabetes tipo 2.
- Tabagismo: fumantes têm três vezes mais risco.
- Obesidade: aumenta a probabilidade em até 20%.
- Diabetes tipo 2: pode ser um sinal precoce da doença.
- Pancreatite crônica: inflamação prolongada eleva o risco.
- Histórico familiar: 10% a 15% dos casos têm origem genética.
Estudos apontam que até 88% dos pacientes recebem diagnóstico de diabetes nos 24 meses anteriores à descoberta do tumor. Mutações genéticas, como as dos genes BRCA1 e BRCA2, aparecem em até 15% dos casos. A exposição prolongada a produtos químicos, como solventes e agrotóxicos, também pesa, especialmente para trabalhadores da indústria do petróleo.

Sinais do corpo que pedem investigação
Os sintomas são inespecíficos, o que dificulta a identificação precoce. A icterícia, com pele e olhos amarelados, é um dos sinais mais comuns, sobretudo nos tumores da cabeça do pâncreas, que obstruem o ducto biliar. Dor abdominal ou nas costas, perda de peso sem explicação e falta de apetite também são frequentes.
Alguns pacientes percebem urina escura, fezes claras ou oleosas e coceira na pele, por causa do acúmulo de bilirrubina. Em casos raros, o tumor destrói células produtoras de insulina e provoca diabetes de forma súbita. Esses sinais são comuns a outras condições, mas devem ser investigados, principalmente em pessoas com fatores de risco.
Exames usados para chegar ao diagnóstico
A detecção exige mais de um exame. Imagens de TC ou RM identificam massas no pâncreas com até 90% de precisão. Um exame de sangue para o marcador tumoral CA19-9 costuma ser feito, mas não é conclusivo, já que 10% a 15% dos pacientes com a doença não apresentam níveis elevados. A biópsia, obtida por ultrassom endoscópico, é o método definitivo para confirmar o diagnóstico e definir o tipo de tumor.
Leia também: Tumor no pâncreas atinge 10.980 brasileiros ao ano e diagnóstico tardio reduz chances de cura
A localização influencia os sintomas. Tumores na cabeça do pâncreas, que representam 80% dos casos, causam icterícia precoce. Já os localizados no corpo ou na cauda só provocam sintomas em estágios avançados, quando a disseminação já aconteceu.
Cirurgia, quimioterapia e cuidados paliativos
O tratamento depende do estágio da doença e da saúde do paciente. A cirurgia de Whipple, indicada para tumores na cabeça do pâncreas, é a única opção com potencial de cura, mas apenas 20% dos pacientes são elegíveis por causa da disseminação. Técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia robótica, reduziram complicações, embora continuem sendo procedimentos complexos.
Quando a cirurgia não é viável, a quimioterapia, muitas vezes associada à radioterapia, controla sintomas e prolonga a sobrevida. A quimioterapia neoadjuvante, aplicada antes da operação, mostrou benefícios em casos limítrofes. Para pacientes em estágio avançado, cuidados paliativos, como bloqueios nervosos para aliviar a dor, ajudam a melhorar a qualidade de vida.
Terapias-alvo e imunoterapia em estudo
A pesquisa avança em terapias-alvo, que atacam mutações genéticas específicas do tumor, e em imunoterapia, que estimula o sistema imunológico a combater as células cancerosas. Ensaios clínicos nos Estados Unidos e na Europa testam medicamentos que podem tornar a quimioterapia mais eficaz nos tumores fibrosos. O mapeamento genético também passou a ser rotina para identificar pacientes com predisposição hereditária, o que permite intervenções mais cedo. Mesmo assim, a sobrevivência em cinco anos continua em torno de 10%.
Hábitos que ajudam a reduzir a chance da doença
A causa exata do câncer de pâncreas não é conhecida, mas alguns hábitos podem diminuir o risco. Evitar o tabagismo é a medida mais eficaz, seguida de uma dieta equilibrada, rica em frutas, vegetais e grãos integrais. O controle do peso e a prática regular de exercícios também são recomendados, principalmente para quem tem diabetes ou pancreatite crônica.
- Parar de fumar: reduz o risco em até 50% após 10 anos sem tabaco.
- Manter peso saudável: diminui a probabilidade de diabetes e de câncer.
- Limitar o álcool: evita a pancreatite, que é um fator de risco.
- Fazer check-ups regulares: essenciais para quem tem histórico familiar.
Pessoas com síndromes genéticas, como a de Peutz-Jeghers, devem manter acompanhamento médico regular, com exames de imagem a partir dos 40 anos. Conhecer os sintomas também ajuda a procurar atendimento sem demora.
Edu Guedes e Tony Bellotto tornaram o tema público
O diagnóstico de figuras públicas trouxe o câncer de pâncreas para o centro das discussões. Edu Guedes, de 51 anos, descobriu o tumor após uma infecção renal. Tony Bellotto identificou a doença em exames de rotina. Os dois casos reforçam a importância de check-ups, sobretudo para pessoas acima dos 50 anos ou com fatores de risco. A cirurgia de Edu Guedes, realizada no Hospital Israelita Albert Einstein, foi bem-sucedida, mas ele ainda enfrenta um longo período de recuperação.
A repercussão desses casos mostra a necessidade de campanhas de conscientização. No Brasil, o câncer de pâncreas recebe menos atenção que outros tumores, como o de mama ou o de próstata, e isso contribui para o desconhecimento sobre seus riscos e sintomas.
Informação como aliada no diagnóstico precoce
A falta de informação atrapalha a prevenção e o diagnóstico precoce. O Dia Mundial do Câncer, em 4 de fevereiro, é uma data usada para orientar a população sobre sinais de alerta e hábitos saudáveis. Organizações como o Instituto Vencer o Câncer promovem campanhas para esclarecer mitos e incentivar a busca por ajuda médica diante de sintomas persistentes.
Embora a mortalidade seja alta, avanços no tratamento e diagnósticos feitos por acaso, como o de Edu Guedes, mostram que é possível melhorar os desfechos com intervenção precoce. Pacientes com dor abdominal persistente ou perda de peso inexplicada devem procurar um especialista em tumores gastrointestinais.















