A popularidade do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostra sinais de estabilidade após meses de queda vertiginosa, mas os desafios permanecem evidentes em segmentos específicos da população. Dados recentes do Datafolha, divulgados em 4 de abril, indicam que a reprovação ao terceiro mandato do petista estacionou em 38%, enquanto a aprovação subiu de 24% para 29% desde fevereiro. Apesar do leve alívio, a gestão segue enfrentando resistência significativa entre evangélicos, homens, sulistas e os mais ricos, grupos que mantêm a rejeição acima da média nacional. Por outro lado, o Nordeste, tradicional reduto petista, continua sendo o único região onde a avaliação positiva supera a negativa, com 38% de aprovação contra 26% de reprovação.
O levantamento ouviu 3.054 pessoas entre 1º e 3 de abril em 172 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais. Comparado ao tombo histórico registrado em fevereiro, quando a aprovação despencou 11 pontos em relação a dezembro de 2024, o cenário atual sugere que as ações recentes do governo, como a divulgação de balanços de entregas e ajustes na comunicação, podem ter contribuído para frear a sangria de apoio. Ainda assim, os 38% que consideram a gestão ruim ou péssima superam os 29% que a veem como ótima ou boa, indicando que a recuperação plena está longe de ser alcançada.
Entre os segmentos analisados, os evangélicos destacam-se como um dos grupos mais críticos. Cerca de 49% deles classificam o governo como ruim ou péssimo, enquanto apenas 19% o aprovam. Já os homens apresentam 42% de reprovação, contra 27% de aprovação, e os sulistas alcançam 46% de rejeição, bem acima dos 26% que enxergam a gestão positivamente. Os mais ricos, com renda superior a dez salários mínimos, também continuam insatisfeitos, com 51% rejeitando o governo, embora o índice tenha caído desde os 63% registrados em fevereiro.
???????? AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA
— Eixo Político (@eixopolitico) April 5, 2025
Avaliação positiva do governo sobe de 24% para 29%. Ainda assim, os números estão no segundo pior patamar de todo o terceiro mandato de Lula.
???? Ruim/péssimo: 38% (-3)
???? Regular: 32% (=)
???? Ótimo/bom: 29% (+5)
???? Datafolha
???? 1 a 3 de abril pic.twitter.com/NfxsSdrGe7
Perfil da rejeição revela divisões claras
Analisar os números por região e perfil social expõe as divisões que marcaram o terceiro mandato de Lula. No Sul, a rejeição de 46% reflete um histórico de menor adesão ao PT, contrastando com o Nordeste, onde a aprovação de 38% sustenta a base de apoio do presidente. Apesar disso, os nordestinos não recuperaram o patamar de aprovação visto em dezembro de 2024, quando o índice era 16 pontos mais alto. A oscilação de cinco pontos para cima desde fevereiro, dentro da margem de erro regional de até seis pontos, sugere uma estabilização, mas não um avanço significativo.
Entre os gêneros, os homens se mostram mais críticos que as mulheres. Enquanto 42% deles rejeitam a gestão, entre as mulheres o índice cai para 34%, com 31% aprovando o governo. A diferença de percepção por renda também é notável. Entre os que ganham até dois salários mínimos, a aprovação chega a 34%, superando os 30% de reprovação. Já entre os mais ricos, com renda acima de dez salários mínimos, a rejeição de 51% contrasta com os 31% de aprovação, um aumento em relação aos 18% de fevereiro.
A religião, por sua vez, segue como um divisor de águas. Os católicos estão praticamente divididos, com 34% aprovando e 34% rejeitando o governo, enquanto 32% o consideram regular. Já os evangélicos, um grupo que cresceu em influência política e foi majoritariamente bolsonarista nas eleições de 2022, mantêm a resistência ao petista. A reprovação de 49% entre eles, com leve alta desde os 48% de fevereiro, reforça a dificuldade de Lula em dialogar com esse público, apesar de esforços recentes para se aproximar de lideranças religiosas.
Esforços para reverter a imagem negativa
Diante da crise de popularidade que marcou o início do ano, o governo intensificou ações para reverter a percepção pública. Em março, Lula participou de eventos estratégicos, como a inauguração de uma barragem no Rio Grande do Norte, onde fez gestos simbólicos para se conectar com o público religioso. Durante o ato, convidou um arcebispo para rezar o “Pai Nosso” e criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acusando-o de usar a religião de forma oportunista. A estratégia visa não apenas consolidar o apoio entre católicos, mas também abrir brechas entre os evangélicos, onde a rejeição segue elevada.
Outro movimento foi a divulgação de um balanço detalhado das entregas dos dois primeiros anos de mandato, destacando investimentos em infraestrutura e programas sociais. A troca no comando da Secretaria de Comunicação Social (Secom), com a entrada de Sidônio Palmeira em janeiro, também sinaliza uma tentativa de ajustar a narrativa oficial. Esses esforços parecem ter surtido efeito parcial, estancando a queda livre da aprovação, mas os números mostram que a insatisfação persiste em parcelas expressivas da população.
A pesquisa revela ainda que a percepção sobre o futuro do governo está equilibrada. Cerca de 35% dos entrevistados acreditam que Lula fará um mandato ótimo ou bom daqui para frente, mesmo índice dos que preveem um desempenho ruim ou péssimo, enquanto 28% esperam algo regular. Pela primeira vez, o otimismo não supera o pessimismo, um indicativo de que a confiança na gestão segue abalada após episódios como a “crise do Pix” e a alta nos preços dos alimentos.
Segmentos em destaque: quem aprova e quem rejeita
Explorar os dados por segmentos oferece um panorama mais detalhado da relação entre Lula e a sociedade. Os nordestinos, com 38% de aprovação, permanecem como o principal pilar de sustentação do governo, embora a perda de 16 pontos desde dezembro de 2024 mostre que até essa base foi afetada pela crise recente. No Sul, os 46% de reprovação refletem uma resistência histórica ao PT, amplificada por fatores econômicos e culturais que favorecem uma visão mais conservadora.
Entre os mais pobres, com renda de até dois salários mínimos, a aprovação de 34% supera a rejeição de 30%, evidenciando o impacto de políticas sociais como o Bolsa Família. Já os mais ricos, com renda acima de dez salários mínimos, apesar de reduzirem a rejeição de 63% para 51%, ainda formam o grupo mais insatisfeito. A melhora na aprovação entre eles, de 18% para 31%, pode indicar uma percepção positiva de medidas econômicas recentes, mas não apaga a predominância do descontentamento.
- Nordeste: 38% aprovam, 26% rejeitam, 35% consideram regular.
- Sul: 26% aprovam, 46% rejeitam, 27% consideram regular.
- Homens: 27% aprovam, 42% rejeitam, 30% consideram regular.
- Mulheres: 31% aprovam, 34% rejeitam, 34% consideram regular.
- Evangélicos: 19% aprovam, 49% rejeitam, 31% consideram regular.
- Católicos: 34% aprovam, 34% rejeitam, 32% consideram regular.
Resistência evangélica desafia estratégias do governo
Entre os evangélicos, a rejeição de 49% reflete um alinhamento histórico com pautas conservadoras, que ganharam força durante o governo Bolsonaro. Apesar da leve oscilação desde os 48% de fevereiro, o índice permanece quase o dobro da aprovação, que caiu de 21% para 19%. Esse grupo, que representa cerca de 27% do eleitorado brasileiro, consolidou-se como um dos maiores desafios para Lula, especialmente após a radicalização política de lideranças religiosas nas últimas décadas.
O presidente tem buscado gestos simbólicos para reduzir essa distância. Além do evento no Rio Grande do Norte, o PT lançou em 2024 a “Cartilha Evangélica”, um manual para orientar a comunicação com esse público, e Lula sancionou o Dia Nacional da Música Gospel. Apesar disso, os resultados ainda são tímidos. A rejeição entre evangélicos supera a média nacional em 11 pontos, e a aprovação é 10 pontos inferior, evidenciando a dificuldade de reverter a percepção negativa.
Por outro lado, os católicos mostram um equilíbrio que pode ser um ponto de partida para o governo. Com 34% de aprovação e 34% de reprovação, o grupo não apresenta a polarização vista entre os evangélicos. A presença de Lula em eventos com símbolos católicos, como a oração no Nordeste, pode fortalecer esse vínculo, mas a estabilidade nos números sugere que o impacto ainda é limitado.
Dinâmica regional e social em foco
A disparidade regional é um dos aspectos mais marcantes do levantamento. Enquanto o Nordeste sustenta Lula com 38% de aprovação, o Sul lidera a rejeição com 46%, seguido pelo Centro-Oeste, onde 41% desaprovam a gestão. No Sudeste, os números são mais equilibrados, com 33% de aprovação e 38% de reprovação, refletindo a diversidade de opiniões na região mais populosa do país.
Entre os gêneros, a diferença de percepção também chama atenção. Os homens, com 42% de rejeição, superam as mulheres, que registram 34%, em oito pontos. A aprovação feminina, de 31%, é ligeiramente superior à masculina, de 27%, o que pode indicar maior receptividade às políticas sociais entre elas. Já por faixa etária, os mais jovens, de 16 a 24 anos, mostram 33% de aprovação, contra 35% de reprovação, enquanto os maiores de 60 anos têm 32% de aprovação e 36% de rejeição.
A renda continua sendo um fator determinante. Entre os que ganham de dois a cinco salários mínimos, a reprovação é de 42%, superando os 26% de aprovação. Já entre os mais pobres, a aprovação de 34% reflete a importância de programas como o Bolsa Família, embora a rejeição de 30% mostre que mesmo esse grupo foi impactado pela crise recente.
Números que orientam o futuro do governo
Olhando para os próximos passos, os dados do Datafolha oferecem pistas sobre os desafios e oportunidades de Lula. A estabilização da aprovação em 29%, após o tombo para 24% em fevereiro, sugere que a estratégia de intensificar a comunicação e destacar entregas pode estar funcionando, ainda que de forma limitada. A queda de três pontos na reprovação, de 41% para 38%, reforça essa tendência, mas a distância de nove pontos entre os insatisfeitos e os satisfeitos indica que o governo precisa de mais para reconquistar a confiança.
Entre os segmentos, os evangélicos e os mais ricos seguem como os mais resistentes. A rejeição de 49% entre os primeiros e de 51% entre os segundos contrasta com os 38% de aprovação no Nordeste e os 34% entre os mais pobres. Essa polarização reflete não apenas diferenças econômicas e culturais, mas também o peso do legado político de Bolsonaro, que mantém influência em grupos específicos.
Os católicos, com sua divisão equilibrada, podem ser um alvo estratégico para o governo. Ações como a participação em eventos religiosos e o destaque a políticas sociais têm potencial para ampliar o apoio nesse grupo, que ainda não se inclina majoritariamente contra ou a favor da gestão. Já o Sul, com 46% de rejeição, exige uma abordagem mais complexa, possivelmente focada em questões econômicas que dialoguem com as demandas locais.
Calendário de eventos recentes do governo
O governo Lula tem intensificado a agenda pública para melhorar sua imagem. Veja alguns marcos recentes:
- Março: Inauguração de barragem no Rio Grande do Norte, com presença de líderes religiosos.
- Janeiro: Troca na Secom, com Sidônio Palmeira assumindo a comunicação.
- Abril: Divulgação do balanço de dois anos de mandato, destacando obras e programas sociais.
Fatores que moldam a percepção pública
Vários elementos influenciam os números atuais. A “crise do Pix”, que gerou críticas à gestão econômica, e a alta nos preços dos alimentos afetaram a popularidade no início do ano. Entre os mais pobres, esses fatores pesaram, mas o Bolsa Família e outros benefícios sociais mantêm a aprovação em 34%. Já entre os mais ricos, a queda na rejeição de 63% para 51% pode estar ligada a sinais de estabilidade econômica, como a redução da inflação em alguns setores.
A polarização política também segue viva. Os evangélicos, com 49% de rejeição, refletem o sucesso de Bolsonaro em consolidar esse grupo como base conservadora. No Sul, os 46% de insatisfeitos ecoam uma visão crítica ao PT que remonta a eleições passadas. Enquanto isso, o Nordeste resiste como bastião petista, mas a perda de apoio desde dezembro mostra que até essa região sentiu os impactos da crise.
A estratégia de Lula para os próximos meses será crucial. Ampliar o diálogo com evangélicos, reforçar a presença no Sul e manter o foco nos mais pobres podem definir se a estabilização atual se transformará em recuperação ou se a rejeição voltará a crescer.
