Grenaldo de Jesus da Silva, morto pela ditadura no avião da Varig, tem ossada identificada por DNA em Perus

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avião - Philip Pilosian / Shutterstock.com Foto: avião - Philip Pilosian / Shutterstock.com

Os restos mortais do ex-marinheiro Grenaldo de Jesus da Silva, executado por agentes da ditadura militar após tentar sequestrar um avião da Varig no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, foram sepultados pela família em 26 de junho de 2026, 54 anos após o crime. A cerimônia no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, ocorreu após exames de DNA confirmarem a identificação da vítima entre as 1.049 ossadas retiradas da vala clandestina do local.

O trabalho pericial foi conduzido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e pelo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), que também identificaram a ossada de Dênis Casemiro na mesma etapa. “Isso devolve a dignidade para esses corpos que foram escondidos e que ficaram aqui no meio da lama, e também devolve para as famílias a esperança de um dia poder fazer esse sepultamento”, afirmou a procuradora da República e presidente da CEMDP, Eugênia Augusta Gonzaga.

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Como ocorreu a execução de Grenaldo de Jesus da Silva no avião da Varig?

Avião - biletskiyevgeniy.com / shutterstock.com
Foto: Avião – biletskiyevgeniy.com / shutterstock.com

A morte de Grenaldo ocorreu durante a tentativa de sequestro da aeronave que havia decolado de São Paulo rumo a Curitiba, no Paraná. Cerca de 20 minutos após a decolagem, o ex-marinheiro invadiu a cabine de comando, ameaçou detonar uma bomba e ordenou o retorno à capital paulista. No solo, após a saída dos passageiros, os pilotos e o mecânico de voo fecharam a porta divisória da cabine e escaparam pelas janelas laterais de emergência. Em seguida, agentes de segurança lançaram bombas de gás lacrimogêneo, invadiram o avião e executaram Grenaldo com um tiro na cabeça quando ele já estava dominado.

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Na época, a versão oficial do regime registrou o caso como suicídio em laudo assinado pelos médicos legistas Sérgio Belmiro Acquesta e Helena Fumie Okaijima. Na ficha do Instituto Médico Legal (IML), o corpo recebeu a letra “T”, código dos órgãos de repressão para designar “terrorista”, e foi enterrado como indigente mesmo com a identidade real registrada no atestado de óbito. Décadas depois, a CEMDP e a Comissão Nacional da Verdade reconheceram a responsabilidade do Estado brasileiro pela execução sumária sob custódia de agentes do DOI-CODI/SP (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).

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Dados da operação no Aeroporto de Congonhas e da perícia em Perus

  • Aeronave envolvida: modelo Lockheed L-188 Electra II da Varig, de matrícula PP-VJN.
  • Armamento e exigências: pistola de 9 milímetros; pedido de 1,5 milhão de cruzeiros em dinheiro, 3 paraquedas para fuga aérea e asilo em Cuba ou no Uruguai.
  • Identidade clandestina e idade: o ex-marinheiro usava o nome falso de Nelson Mesquita e tinha 31 anos quando foi morto.
  • Coordenação científica: trabalhos liderados pelo professor Edson Teles (CAAF/Unifesp) e pelo coordenador científico da CEMDP, Samuel Teixeira.

Perseguição a Grenaldo de Jesus da Silva após o golpe de 1964

Filho mais velho de 12 irmãos no Maranhão, Grenaldo ingressou na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará em 1960. Após o golpe militar de 1964, foi um dos 1.509 militares expulsos por integrar a Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil e recebeu pena de 5 anos e 2 meses de prisão, a maior entre os 414 marinheiros julgados. Foragido em Guarulhos, na Grande São Paulo, trabalhou como porteiro e vigilante na empreiteira Camargo Corrêa e enfrentava dificuldades financeiras antes de invadir o avião. A farsa do suicídio foi revelada em 2003 pelo depoimento do ex-sargento da Aeronáutica José Barazal Alvarez, o que permitiu localizar o filho do ex-militante, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut.

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Datas do caso Grenaldo de Jesus da Silva desde 1941

  • 17 de abril de 1941 — Nascimento de Grenaldo de Jesus da Silva em São Luís, no Maranhão.
  • 30 de setembro de 1964 — Expulsão da Marinha do Brasil por atuação política após a Revolta dos Marinheiros.
  • 30 de maio de 1972 — Tentativa de sequestro do avião da Varig e execução no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
  • 1º de junho de 1972 — Sepultamento como indigente no Cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona norte da capital paulista.
  • 16 de abril de 2025 — Anúncio oficial da identificação dos restos mortais por exame de DNA pela CEMDP e pela Unifesp.
  • 26 de junho de 2026 — Sepultamento da ossada pela família e pelo filho às 11h no Cemitério Dom Bosco.

Sobre a entrega da ossada à família, a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, declarou: “Ao mesmo tempo que hoje é um dia de vitória, é de muita dor e consternação”. Para o coordenador do CAAF/Unifesp, Edson Teles, o procedimento cumpre um papel institucional no país: “Quando a gente entrega para a família os restos mortais de um desaparecido, a gente também faz uma grande reparação histórica ao país e aos movimentos de direitos humanos. Conhecer essa história é entender a fundo a estrutura de violência de Estado que a gente vive de forma cotidiana no país”.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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