Crânios de Lampião e Maria Bonita revelam segredos do cangaço em novo museu

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cranios lampeao Foto: Crânio reconstruído de Lampião (à esq.) e o de Maria Bonita (à dir.), segundo a USP — Foto: G. Ceccantini

Duas caixas de madeira, guardadas temporariamente no Museu de Arte Sacra de São Paulo, abrigam fragmentos dos crânios de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, ícones do cangaço nordestino. Após três anos de estudos na Faculdade de Medicina da USP, os restos mortais do casal, mortos em 1938, foram entregues à família Ferreira, que agora planeja um museu para preservar seu legado. O projeto, liderado pela bisneta Gleuse Ferreira, pretende exibir relíquias como armas, joias e um cacho de cabelo de Maria Bonita, além de criar um centro de estudos sobre o cangaço. A iniciativa ocorre em meio a debates sobre a preservação da memória histórica do casal, cuja trajetória mistura heroísmo e controvérsia. O museu, previsto para ser concluído em três anos, promete ser um marco na valorização da cultura nordestina.

A história dos crânios começou a tomar novo rumo no início dos anos 2000, quando as netas de Lampião e Maria Bonita foram alertadas sobre possíveis mudanças no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador, onde os restos estavam sepultados. Para evitar a perda, Expedita Ferreira, filha única do casal, e sua filha Gleuse assumiram a guarda dos fragmentos, mantendo-os em segredo por quase duas décadas.

  • Segredo familiar: Os crânios foram armazenados em caixas de madeira, como objetos comuns, em Aracaju.
  • Preservação improvisada: A família expunha os restos ao sol periodicamente, na tentativa de conservá-los.
  • Destino incerto: Até 2021, não
  • havia planos claros para o uso dos fragmentos, guardados com discrição.
Crânios são estudados pela USP em SP
Crânios são estudados pela USP em SP — Foto: Carlos Henrique Dias/TV Globo

Reconstrução meticulosa na USP

A entrega dos crânios ao Departamento de Patologia da USP, em setembro de 2021, marcou o início de um trabalho científico minucioso. Pesquisadores enfrentaram desafios para reconstruir os restos, especialmente o crânio de Lampião, que chegou fragmentado em pequenos pedaços. O de Maria Bonita, mais preservado, facilitou a análise. A equipe tentou extrair material genético, mas a deterioração causada por décadas de manipulação e exposição a substâncias como querosene inviabilizou o exame de DNA.

Apesar disso, a identidade dos crânios foi confirmada por evidências históricas. José Guilherme Veras Closs, doutorando da USP, destacou a rastreabilidade dos restos, que passaram pelo IML de Maceió em 1938, foram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, até 1969, e depois sepultados. A análise revelou detalhes sobre a morte violenta do casal, com marcas de decapitação e fraturas perimortem, além de problemas dentários severos em Lampião, indicando sua precária saúde bucal.

O trabalho da USP não apenas preservou os restos, mas também trouxe à tona a humanidade por trás das lendas. “Mais do que heróis ou bandidos, eles eram seres humanos, e seus restos merecem respeito”, afirmou Closs, enfatizando a importância ética do estudo.

Trajetória marcada por violência

A história dos crânios reflete a brutalidade do destino de Lampião e Maria Bonita. Mortos em 28 de julho de 1938, na Gruta de Angico, na divisa entre Sergipe e Alagoas, eles foram alvos de uma emboscada policial. Onze cangaceiros tiveram suas cabeças decepadas, algumas ainda em vida, e exibidas como troféus em Piranhas, Alagoas. Entre 1944 e 1969, os restos ficaram expostos no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, até que a família conquistou o direito de sepultá-los.

  • Massacre de Angico: A emboscada matou Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros.
  • Exibição pública: As cabeças foram expostas em igrejas e museus, simbolizando o fim do cangaço.
  • Luta pela dignidade: A família Ferreira batalhou por décadas para recuperar e proteger os restos.

Essa trajetória, marcada por violência e exposição, reforça a complexidade do cangaço, movimento que dividiu opiniões no Nordeste do final do século XIX e início do XX. Para alguns, os cangaceiros eram defensores da justiça social; para outros, criminosos temidos por sua brutalidade.

Memorial do cangaço: um sonho em construção

A família Ferreira, liderada por Gleuse, planeja transformar o acervo do casal em um museu que vá além da exibição de objetos. O Memorial do Cangaço, com terreno já definido, está em fase de desenvolvimento e tem inauguração prevista para 2028. O espaço será um centro de estudos, com documentos, fotografias e relíquias como armas, um punhal e joias de Maria Bonita.

Gleuse Ferreira, bisneta do casal, destacou a importância de preservar a memória dos avós. “Queremos um lugar que não só mostre objetos, mas que promova pesquisas sobre o cangaço e sua relevância cultural”, disse. O projeto tem apoio de especialistas e da comunidade local, que vê no museu uma oportunidade de valorizar a história nordestina.

O acervo inclui itens raros, como um cacho de cabelo de Maria Bonita, guardado com cuidado pela família. A iniciativa também busca desmistificar o cangaço, oferecendo uma visão equilibrada sobre suas contradições.

Legado de Expedita Ferreira

Expedita Ferreira, de 92 anos, filha única de Lampião e Maria Bonita, é a principal guardiã da memória do casal. Nascida em 1932, ela tinha apenas cinco anos quando os pais foram mortos. Criada por aliados do cangaço e depois pelo tio João Ferreira, Expedita mantém viva a história dos pais, participando ativamente de eventos culturais, como os desfiles de carnaval da Imperatriz Leopoldinense e da Mancha Verde, em 2023, que homenagearam o cangaço.

  • Vida no sigilo: Expedita foi entregue a um casal de vaqueiros aos 21 dias de vida, para protegê-la da violência do cangaço.
  • Homenagens recentes: A filha do casal desfilou em escolas de samba, reforçando o legado dos pais.
  • Memória viva: Aos 92 anos, ela acompanha de perto o projeto do museu, com apoio de suas filhas.

Expedita, que mora em Aracaju, recebeu o título de cidadã aracajuana em 2023, em reconhecimento à sua contribuição para a preservação da cultura nordestina. Sua história reflete a resiliência de uma família marcada por tragédias, mas determinada a transformar o passado em um legado de conhecimento.

Objetos que contam histórias

O acervo do futuro Memorial do Cangaço inclui itens que oferecem um vislumbre da vida de Lampião e Maria Bonita. Além do cacho de cabelo, há joias, fotografias e armas que pertenceram ao casal. Cada objeto carrega uma narrativa única, desde a rotina no sertão até os confrontos com a polícia.

A curadoria, sob responsabilidade da família Ferreira, busca contextualizar esses itens sem glorificar a violência do cangaço. “Queremos mostrar quem eles eram, com suas virtudes e contrações”, explicou Alex Daniel, advogado da família. O museu também planeja exposições temporárias, com parcerias com instituições como o Museu de Arte Sacra de São Paulo, que atualmente guarda os crânios.

Um marco para a cultura nordestina

O projeto do Memorial do Cangaço surge em um momento de renovado interesse pela história do Nordeste. Exposições recentes, como a planejada em São Paulo para 2026, com foco em Maria Bonita, destacam o papel das mulheres no cangaço. A iniciativa da família Ferreira reforça a importância de preservar essa história de forma ética e acessível.

O museu promete atrair pesquisadores, turistas e estudantes, oferecendo uma nova perspectiva sobre um período que ainda desperta curiosidade e debate. Com o apoio de Expedita e Gleuse, o legado de Lampião e Maria Bonita ganha um novo capítulo, agora voltado para a educação e a memória cultural.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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