Vírus raro em cruzeiro no Atlântico mata três passageiros em surto confirmadoPor Beatriz
6 min de leitura
![]() |
A Organização Mundial da Saúde confirmou neste domingo três mortes ligadas a um possível surto de hantavírus em um cruzeiro que navegava no Atlântico. Um caso da doença foi confirmado laboratorialmente, enquanto cinco outros permanecem sob investigação, segundo comunicado oficial da OMS. O navio MV Hondius viajava da Argentina em direção a Cabo Verde quando o surto foi relatado.
Investigações detalhadas estão em andamento e incluem testes laboratoriais adicionais dos casos suspeitos. A OMS trabalha em coordenação com autoridades de saúde para identificar a origem do surto e evitar novas transmissões entre os passageiros e tripulantes.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
Caracterização e transmissão do hantavírus
O hantavírus é uma cepa viral transmitida por roedores, sendo que a contaminação humana ocorre principalmente pela inalação de partículas suspensas no ar originária de fezes secas dos animais. As infecções geralmente acontecem quando o vírus é transportado pela urina, fezes ou saliva de roedores, conforme indicam os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Embora rara, a transmissão também pode ocorrer por meio de mordidas ou arranhões diretos dos animais infectados.
A doença causa dois quadros clínicos distintos dependendo da cepa viral envolvida. A Síndrome Pulmonar por Hantavírus (HPS) começa com fadiga, febre e dores musculares, evoluindo para dores de cabeça, tonturas, calafrios e problemas abdominais. Quando sintomas respiratórios se desenvolvem, a taxa de mortalidade atinge aproximadamente 38% dos casos, segundo dados do CDC. No Brasil, a doença se apresenta como Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), podendo evoluir para a síndrome da angústia respiratória em casos mais severos.
A segunda forma grave é a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (HFRS), que afeta principalmente os rins e provoca pressão arterial baixa, hemorragia interna e insuficiência renal aguda. Este tipo é mais comum mundialmente e apresenta maior gravidade clínica.

Epidemiologia e casos globais
Estima-se que ocorram 150 mil casos anuais de HFRS em todo o mundo, principalmente na Europa e na Ásia. A China registra mais da metade desses casos anualmente, segundo relatório dos Institutos Nacionais de Saúde. O vírus Seoul, uma das principais cepas transmitidas por ratos-noruegueses, encontra-se distribuído globalmente, incluindo território norte-americano.
Dados dos Estados Unidos mostram que entre 1993, quando a vigilância do hantavírus iniciou, e 2023, foram registrados 890 casos no país. No Brasil, o cenário é mais grave. Entre 1993 e 2024, confirmaram-se 2.377 casos de hantavirose, com 937 óbitos no período, conforme o Ministério da Saúde. Investigações brasileiras revelam que 70% dos pacientes infectados adquiriram o vírus em zonas rurais, indicando maior exposição em ambientes com presença significativa de roedores.
Tratamento e cuidados clínicos
Não existe tratamento específico para infecções por hantavírus. O manejo clínico concentra-se em cuidados sintomáticos. O CDC recomenda:
- Oxigenoterapia para manutenção dos níveis de oxigênio
- Ventilação mecânica em casos respiratórios avançados
- Medicamentos antivirais conforme indicação
- Diálise em casos de comprometimento renal
Pacientes com sintomas graves frequentemente necessitam internação em unidades de terapia intensiva. Alguns casos evoluem para intubação endotraqueal e suporte vital prolongado. A duração e intensidade do tratamento dependem da progressão da doença e da resposta individual do paciente.
Prevenção é o elemento fundamental no combate ao hantavírus. O CDC recomenda eliminar contato com roedores em residências e locais de trabalho, vedando pontos de entrada em porões e sótãos por onde os animais possam acessar estruturas. Uso de equipamentos de proteção individual é essencial ao limpar fezes de roedores para evitar inalação de ar contaminado.
Histórico recente de transmissão humana
Em fevereiro de 2025, Betsy Arakawa, esposa do ator vencedor do Oscar Gene Hackman, faleceu de doença respiratória relacionada ao hantavírus. Investigadores médicos acreditam que Arakawa contraiu HPS, a cepa mais comum nos Estados Unidos, o que resultou em sua morte. Ninhos de roedores e alguns animais mortos foram encontrados em anexos da casa onde ela foi localizada.
Registros policiais mostraram que Arakawa pesquisou na internet informações sobre sintomas de gripe e covid-19 nos dias anteriores ao falecimento, sugerindo confusão inicial com outras doenças respiratórias. Este caso destacou a importância do diagnóstico precoce e da conscientização sobre o hantavírus em contextos urbanos e residenciais.
Desafios em ambiente de cruzeiro
Navios de cruzeiro apresentam condições únicas que podem favorecer a transmissão de doenças infecciosas. Ambientes compartilhados, proximidade entre passageiros, sistemas de ventilação centralizada e maior concentração populacional criam cenário de risco aumentado. A presença de roedores em embarcações é particularmente preocupante, pois compromete as medidas tradicionais de controle.
A OMS enfatiza que investigações estão em andamento para determinar como o vírus foi introduzido no navio MV Hondius e qual foi o padrão de disseminação entre os passageiros. Autoridades de saúde marítima estão reforçando protocolos de inspeção e controle de pragas em embarcações para prevenir futuros surtos.
Passageiros que estiveram a bordo do navio durante o período relevante estão sendo monitorados pelas autoridades de saúde de seus países de origem. Testes laboratoriais estão sendo realizados em indivíduos que apresentam sintomas compatíveis com infecção por hantavírus.
Vigilância e resposta epidemiológica
A resposta ao surto envolve coordenação entre múltiplas agências internacionais. A OMS, em cooperação com agências nacionais de saúde da Argentina, Brasil, Cabo Verde e outros países com possível exposição, trabalha no rastreamento de contactantes e isolamento de casos confirmados. Laboratórios especializados realizam testes de confirmação e subtipificação viral para fins epidemiológicos.
Comunicações foram enviadas a órgãos de saúde em portos onde o navio atracou ou está previsto atracar, alertando profissionais de saúde sobre possíveis casos. Campanhas de informação sobre sintomas e quando procurar atendimento médico foram disseminadas nas regiões afetadas.














