Ministério da Saúde argentino confirma quase o dobro de infecções por hantavírusPor Beatriz
5 min de leitura
![]() |
A Argentina enfrenta o maior surto de hantavírus em anos, com 32 mortes registradas e 101 casos confirmados na temporada que começou em junho de 2025. Os números quase dobraram em comparação ao mesmo período do ano passado, quando apenas 57 infecções foram documentadas. O aumento ocorre enquanto as autoridades rastreiam um casal holandês que viajou extensivamente pelo país e morreu durante um surto no navio de cruzeiro MV Hondius.
Surto em navio de cruzeiro gera alerta internacional
A embarcação partiu de Ushuaia no sul argentino em 1º de abril e navega rumo às Ilhas Canárias na Espanha, com chegada prevista para o porto de Granadilla em Tenerife no domingo. O casal de turistas visitou várias regiões do país, cruzando repetidamente a fronteira com o Chile e entrando no Uruguai antes de embarcar na embarcação. As autoridades investigam se contraíram o vírus em Misiones ou Neuquén, regiões historicamente associadas à doença.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
O surto no navio foi associado à cepa Andes do hantavírus, uma variante rara capaz de se espalhar entre humanos por contato próximo. Nenhum caso havia sido registrado em Ushuaia nas últimas décadas, segundo o Ministério da Saúde argentino, tornando o episódio no cruzeiro particularmente preocupante para especialistas.

Mudanças climáticas e degradação ambiental impulsionam transmissão
Cientistas e autoridades argentinas apontam fenômenos climáticos extremos como principal fator por trás do aumento de casos. Secas intensas e episódios de chuvas pesadas dos últimos anos alteraram ecossistemas, permitindo que roedores infectados prosperem em novas áreas. As temperaturas elevadas favorecem a reprodução do rato-de-cauda-longa, principal vetor do vírus na região.
A destruição de habitats causada pela atividade humana intensifica o problema. Pequenas urbanizações estabelecidas em áreas rurais, desmatamento e incêndios florestais forçam animais selvagens a se deslocarem para novos locais, aumentando o contato com populações humanas. A degradação ambiental expande a presença do vírus para regiões não historicamente endêmicas.
Eduardo López, especialista em doenças infecciosas e consultor do governo argentino durante a pandemia de Covid-19, explicou que os roedores se adaptam melhor às mudanças climáticas, facilitando a maior disseminação. Roberto Debbag, vice-presidente da Sociedade Latino-Americana de Vacinação, destacou que incêndios florestais deslocam tanto humanos quanto animais, elevando riscos significativamente.
Distribuição geográfica amplia-se pelo país
Quatro regiões historicamente de alto risco formam o eixo de contágio: Noroeste (Salta, Jujuy, Tucumán), Nordeste (Misiones, Formosa, Chaco), Centro (Buenos Aires, Santa Fé, Entre Ríos) e Sul (Neuquén, Río Negro, Chubut). Nesta temporada, porém, a maioria dos casos surgiu na região central, quebrando padrões anteriores. A província de Buenos Aires lidera com 42 casos confirmados.
Durante muitos anos, o hantavírus foi associado exclusivamente à Patagônia após um surto letal em 2018 que matou 11 pessoas. O deslocamento geográfico atual dos casos evidencia a expansão da doença para áreas anteriormente seguras, complicando estratégias de controle e prevenção.
O Ministério da Saúde informou que equipes técnicas viajarão para Ushuaia na Terra do Fogo para capturar e analisar roedores em áreas vinculadas à rota do casal holandês. Juan Petrina, diretor de epidemiologia da Terra do Fogo, afirmou que a cronologia não corresponde à hipótese de contaminação local, citando registros de embarque que indicam permanência no local apenas entre 29 de março e 1º de abril. Ele descartou como “rumor” a sugestão de visita a aterro sanitário antes do embarque.
Comparações com Covid-19 despertam preocupação
O surto no navio gerou temores de outra pandemia global, já que passageiros viajam de múltiplos países. A Organização Mundial da Saúde interviu para tranquilizar populações, com o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus publicando carta dirigida aos habitantes de Tenerife. O funcionário garantiu que “isto não é outra COVID-19”, enfatizando diferenças críticas no potencial de transmissão.
A Dra. Charlotte Hammer, professora de Segurança Sanitária da Universidade de Cambridge, explicou que a cepa Andes é contraída apenas com contato muito próximo com roedores infectados. A transmissão de pessoa para pessoa requer contato prolongado, diferentemente do novo coronavírus. Embora navios de cruzeiro facilitem exposição próxima em espaços reduzidos, o vírus não se propaga simplesmente por proximidade, reduzindo drasticamente o risco pandêmico.
Ghebreyesus expressou gratidão ao primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pela disposição em receber o navio, chamando de “ato de solidariedade e dever moral”. Garantiu que nenhum passageiro sintomático estava a bordo no momento da comunicação, mantendo o risco de transmissão em níveis baixos.
A taxa de mortalidade da Argentina alcançou níveis críticos este ano, com aumento de 10 pontos percentuais comparado ao ano anterior. O país continua implementando medidas de vigilância epidemiológica nas regiões afetadas enquanto monitora a evolução do surto no cruzeiro.














