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China intensifica repressão contra corretoras estrangeiras que atraem investidores do país

Bandeira da China
Foto: Bandeira da China - fotoVoyager/ Istockphoto.com

A China anunciou nesta sexta-feira uma operação de grande escala contra investimentos transfronteiriços ilegais. O regulador de valores mobiliários do país, em conjunto com sete agências governamentais incluindo o banco central, vai punir corretoras acusadas de movimentar dinheiro illegalmente para mercados estrangeiros. A ação resultou em queda acentuada das ações de corretoras online e empresas chinesas listadas no exterior.

A Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) identificou como alvo da campanha as corretoras Tiger, Futu e Longbridge. Essas empresas solicitavam negócios na China sem licença local autorizada. As ações da Futu caíram mais de 30% nas negociações pré-mercado nos Estados Unidos. A UP Fintech Holding, controladora da Tiger, registrou queda semelhante. O comunicado da CSRC afirmou que ganhos ilegais serão confiscados, embora não tenha detalhado os valores das multas financeiras.

Impacto imediato nos mercados chineses

Os efeitos da medida se propagaram rapidamente pelos mercados globais. Empresas chinesas populares listadas no exterior sofreram desvalorizações expressivas. A operadora de marketplace PDD Holdings caiu significativamente no pré-mercado. Alibaba e JD.com registraram quedas entre 3,5% e 6%. O ETF da KraneShares de empresas de internet chinesas, que acompanha o setor, caiu 4,3%.

O anúncio ocorreu após o fechamento dos mercados na China continental e em Hong Kong. Os futuros do Hang Seng caíram 1,5% em reação à notícia. Steven Leung, diretor de vendas institucionais da UOB-Kay Hian em Hong Kong, observou que a curto prazo essas medidas podem arrefecer atividades de negociação e especulação no mercado.

Restrições operacionais durante dois anos

A CSRC estabeleceu um período de carência de dois anos para encerramento das atividades ilegais. Durante esse intervalo, clientes das corretoras afetadas poderão apenas vender investimentos existentes e sacar fundos. Novos investimentos estarão completamente proibidos. Essa restrição reduz significativamente as oportunidades de receita das corretoras envolvidas, especialmente considerando que a venda de ações para clientes de varejo representa parcela substancial de suas receitas.

A Futu divulgou que, ao final do primeiro trimestre, investidores da China continental representavam 13% de sua base de clientes total. A empresa afirmou em nota que sempre considerou conformidade como prioridade máxima, que rejeitou dezenas de milhares de solicitações de candidatos da China continental que não atendiam aos requisitos, e que já havia interrompido anteriormente a abertura de contas para novos clientes da China continental.

Um porta-voz da Tiger declarou que a empresa observa a declaração da CSRC, cooperará integralmente com os reguladores e que todas as operações comerciais permanecem normais. Longbridge, que não consta na lista de empresas penalizadas, não respondeu imediatamente ao pedido de comentário sobre a operação.

Contexto de escrutínio regulatório crescente

A repressão anunciada nesta sexta-feira amplia anos de escrutínio sobre fluxos de capital internacional. O escrutínio intensificou-se no final de 2022, quando a CSRC já havia proibido instituições estrangeiras de abrir contas para investidores da China continental. A medida atual representa um aprofundamento dessa política de controle. Gary Ng, economista sênior para a Ásia-Pacífico da Natixis, explicou que o governo chinês busca garantir que todos os fluxos de capital para o exterior estejam sob sua fiscalização direta.

A ação coincide com repressão aos mercados domésticos e visa, segundo os próprios reguladores, proteger o desenvolvimento saudável do mercado de capitais, canalizar investimentos externos por meio de canais legais autorizados e proteger os investidores. A China mantém controles rigorosos sobre saídas de capital há décadas, mas a nova operação amplia significativamente o escopo desse controle ao focar em corretoras estrangeiras e seus parceiros locais.

Revisão em Hong Kong identifica deficiências em corretoras

Em Hong Kong, centro financeiro onde se localiza a maioria das contas em questão, a Comissão de Valores Mobiliários e Futuros (SFC) também atualizou sua fiscalização. A SFC afirmou na sexta-feira ter descoberto deficiências significativas após realizar revisão de 12 corretoras diferentes. A comissão exigirá que essas corretoras encerrem contas abertas com documentos questionáveis ou falsificados. Além disso, deverão intensificar verificações de novas contas e monitorar com mais rigor suas fontes de financiamento.

Os mercados de capitais de Hong Kong estão em plena expansão. Conforme dados da KPMG, a cidade conquistou o primeiro lugar global no primeiro trimestre, com empresas captando HK$ 209,9 bilhões, equivalente a US$ 26,79 bilhões. Apesar dessa expansão, as corretoras agora enfrentarão restrições operacionais mais rígidas.

Avaliação de especialistas sobre as penalidades

Profissionais do setor jurídico e financeiro divergem sobre a severidade das penalidades. Zhan Kai, sócio do escritório de advocacia Dacheng em Xangai, afirmou que as penalidades parecem relativamente brandas por enquanto, embora não se possa descartar a possibilidade de multas maiores no futuro ou até de processos criminais. A falta de detalhes sobre valores de multas específicas no comunicado da CSRC deixa espaço para futuras ações mais severas.

Um fator relevante é a importância das corretoras online no mercado de capitais. A Futu atuou como subscritora em mais de 80 listagens desde o início de 2025. A Tiger funcionou como subscritora em mais de 45 listagens no mesmo período, conforme mostram registros da bolsa de valores. Essas atividades geraram receitas significativas às empresas e agora sofrerão restrições diretas.

Reação das corretoras à operação regulatória

  • Tiger: declarou conformidade com regulações, cooperação integral e operações comerciais normais
  • Futu: afirmou altos padrões de conformidade, rejeição de dezenas de milhares de solicitações inadequadas, e que investidores da China continental representam 13% de sua base de clientes
  • PDD Holdings: sofreu queda significativa nas negociações pré-mercado
  • Alibaba e JD.com: registraram quedas entre 3,5% e 6%
  • Longbridge: não respondeu imediatamente a pedidos de comentário